Vinil do Mês: RICK WAKEMAN – JOURNEY TO THE CENTRE OF THE EARTH (A&M, 1974)

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Christian Pruks
christian@avmag.com.br

Todo mês um LP com boa música & gravação

Gênero: Progressivo / Eletrônico / Clássico Moderno

Formatos Interessantes: Vinil Importado Japonês

Tem discos que você tem a impressão de que todo mundo tem – e um desses é o Journey to the Centre of the Earth, do Rick Wakeman. Meus pais tiveram desde a década de 70, lá em casa, eu tenho hoje duas prensagens, e todos os meus amigos o tem – nem que seja o CD.

Como obra? É emblemática da década de 70, do rock progressivo e de sua grandiosidade, chamada por muitos de ‘auto-indulgente’, um termo que eu acho ridículo porque acho que quase toda música é auto-indulgente, que as pessoas fazem música primeiro, e

principalmente para si mesmos. Claro que, muita gente mais nova, ou que tem outros gêneros musicais como interesse, acham esse disco um pouco ‘brega’ – mas é que ele faz parte de uma estética de época, que precisa ser compreendida, caso queiram apreciá-lo.

Encarte

Um ouvinte que não gostou de “Journey” me pareceu obviamente ignorante quando disse que a narração entre os movimentos (muito bem feita, aliás, por David Hemmings, um ator shakespeariano excelente e especialista em narrações) causava “vergonha alheia” – bom, além deste não ter entendido o que é e o que não é ‘qualidade’

nessa narração, ele ignorou o fato de o texto da narração (e inspiração para a composição da obra) é uma imortal obra literária de ficção científica da Era Vitoriana.

Selo

Mas, inclusive, uma boa parte da imprensa de música sempre odiou o Progressivo, tanto que uma vez um jornalista disse ao Rick Wakeman (que além de seu trabalho solo, era tecladista do grupo inglês Yes), que o rock progressivo era “Exagerado, pomposo e pretensioso”, no que Wakeman respondeu, em seu célebre senso de humor: “Sim, excelente, né?”.

Este disco é conhecido por muitos como um símbolo dos “excessos do progressivo”, o que eu considero outra imbecilidade incrível, como se a música tivesse que ser limitada pela pequena visão ou ‘pequeno gosto’ de muitos – os quais, aliás, adoram outros gêneros e obras que contém vários instrumentos e procuram soar grandiosas (mas eles podem, né?).

“Journey” é o segundo disco não-independente de carreira solo de Wakeman – sendo o fenomenal e tradicional The Six Wives of Henry VIII (A&M, 1973) o primeiro, um disco de rock progressivo ‘conceitual (o famoso ‘concept album”) instrumental que usa, entretanto, uma estrutura bastante normal, com baixo, guitarra e bateria – porém com ênfase nos mais de 10 teclados de Wakeman, todos em primeiro plano.

Rick Wakeman

O Journey to the Centre of the Earth continua sendo rock progressivo, continua sendo ‘conceitual’ (a famosa obra literária de Jules Verne), porém nada tem de usual, trazendo além da banda, feita de vários músicos de estúdio e apelidada de English Rock Ensemble, e dos numerosos teclados de Wakeman, a London Symphony

Orchestra, o English Chamber Choir, cantores solistas, e o regente e arranjador australiano David Measham.

O English Rock Ensemble – que de uma maneira ou de outra se tornaria a banda de acompanhamento de muitos trabalhos da carreira solo de Wakeman – é composta, neste disco, de Rick Wakeman (Mellotron, Minimoog, grand piano, Hammond, Fender Electric Piano, RMI Electric Piano, Hohner Pianet, e piano ‘Honky-tonk’), Gary Pickford-Hopkins e Ashley Holt nos vocais, Mike Egan na guitarra, Roger Newell no baixo, e Barney James na bateria.

Viagem ao Centro da Terra é o título em português do livro de Verne, que narra a história do Professor Lidenbrock, seu sobrinho Axel e seu guia Hans, que seguem uma passagem em um vulcão extinto, indo para o centro da Terra – caminho originalmente descoberto por um antigo alquimista islandês, Arne Saknussemm. Quando jovem, li a minha cópia, de capa roxa, da Ediouro, tantas vezes que descolou todas as páginas e foi para o lixo. Rick Wakeman deve ter feito algo semelhante…

Voltando à David Measham: ele era especializado na gravação de obras do repertório erudito britânico, e também bastante conhecido por ter feito o disco que é a versão ‘orquestral’ da ópera rock Tommy, do grupo inglês The Who, um excelente disco, e depois ainda ter trabalhado de novo com Wakeman no disco The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table (A&M, 1975) que igualmente é um ‘concept album’, com banda, cantores vários, orquestra e coro.

Royal Festival Hall

Como gravação, “Journey” é complicado, pois nem a gravadora e nem ninguém quis investir na produção do disco, levando Wakeman a escolher gravá-lo em uma apresentação ao vivo – no caso, no Royal Festival Hall, em Londres, à beira do Rio Tâmisa, dia 18 de janeiro de 1974 – com a unidade móvel Lyn Mobile Studio, simplesmente porque era bem mais barato que gravar em um estúdio. E, mesmo assim, para financiar a coisa toda, Wakeman hipotecou sua casa e vendeu vários de seus bens.

E, claro, em mais um caso de ‘conhecimento profundo’ por parte da gravadora, aqui a A&M Records, eles não gostaram do disco e se negaram a lançá-lo. Porém, um dos donos do selo, o americano Jerry Moss, ouviu uma fita, gostou, e literalmente mandou a filial britânica lançar o disco (que chegou ao primeiro lugar das paradas por lá, ironicamente).

Nas paradas em geral, “Journey” chegou ao primeiro lugar no Reino Unido, terceiro lugar nos EUA, e segundo lugar no Canadá e na Austrália. É certificado Disco de Ouro na Austrália, Brasil, Canadá, Reino Unido e Estados Unidos. E está no 55o. lugar da lista dos 100 Melhores Discos de Rock Progressivo de Todos os Tempos, da revista Prog. E vendeu milhões de cópias em pouco mais de um mês, e ganhou vários prêmios mundialmente.

Críticos – aqueles profissionais que deveriam ajudar e guiar os fãs de música – claro que chamaram “Journey” de: pretensioso, irrelevante, terrível, pastiche orquestral, e exagero brutal de sintetizadores – e essa é especialmente estúpida, e me faz perguntar quantos sintetizadores seria um número bom para essa pessoa, que deve ter dificuldade de tocar duas campainhas de casa ao mesmo tempo?

A quantidade de sucessos de venda e de público que foram totalmente incompreendidos pelos ‘especialistas’, na história da música gravada, é incrível!

Além do custo alto financeiro para Wakeman, o processo todo atacou sua saúde, resultando em uma úlcera estomacal e ataques de nervos e de insônia. Dizem as lendas que o sucesso de vendas de ingressos foi tão grande, que Wakeman só conseguiu ingressos para seus pais comprando ele mesmo em uma bilheteria. E que

estavam na plateia vários políticos britânicos, celebridades como John Lennon, Yoko Ono, Paul McCartney, Steve Howe e o ator Peter Sellers. E que o narrador, David Hemmings, estava com um olho roxo (cheio de maquiagem que o próprio Wakeman aplicou), como resultado de uma briga por ter traído sua esposa.

Eu adoraria que todos os discos que eu apresento aqui nesta coluna mensal – ou mesmo que me interessam – tivessem sua história tão bem documentada e interessante quanto este…rs!

Não vou mentir: a qualidade de gravação de “Journey” é, na maioria esmagadora das prensagens, sofrível – mesmo em CD. E é aí que entra a prensagem japonesa em vinil, a única que ouvi que é interessante, especialmente por ser uma obra tão legal.

Os reveses da gravação ocorreram principalmente por tudo ter ficado nas costas de Wakeman, sem financiamento e sem – percebeu-se depois – real apoio técnico profissional, resultando em vários problemas durante a mixagem e pós-produção, problemas de microfonação, de cabeamento, de captação e até de escolha de amplificadores e afins para a banda, que eram insuficientes para o tamanho do local, acabando por soarem pífios. Até atrasos para o lançamento do disco nas lojas ocorreram por causa de falta, no mercado, de PVC (vinil) para a prensagem e falta de papel para fazer a capa – apesar de que esse atraso de três meses no lançamento ajudou Wakeman, pois marcava o fim da turnê do disco Tales From Topographic Oceans (Atlantic Records, 1973), do Yes, e o anúncio público de sua saída da banda para seguir carreira solo.

PARA QUEM É ESSE DISCO?

Para todos os fãs do Rock Progressivo, de sua música, de seu processo criativo, do quanto esse gênero levou vários de nós à grandes viagens musicais – e isso inclui todos seus exageros e supostas ‘pretensões’.

PRENSAGENS INTERESSANTES

Esse disco tem uma opção de compra de eu sei que é bem boa – e que dá ‘vida nova’ à obra – que são as prensagens japonesas ‘de época’, como as primeiras (A&M, 1974), depois a de 1979 e, finalmente, a reedição de 1986. As japonesas são as que soam melhores, e surpreendentes em cima de uma gravação um pouco problemática.

Existe, também, uma prensagem que eu gostaria de ouvir, que é a do selo Mobile Fidelity (MoFi) de 1995, 200g, edição numerada – que, porém, pode não ter corrigido os problemas de magreza e de soar pequeno da gravação original, simplesmente porque muitos dos remasters da empresa procuravam, nessa época, preservar a sonoridade original da master. Porém, só ouvindo.

Tem uma prensagem moderna de 2016, para o mercado europeu, pela qual eu – como de costume – não ponho a mão no fogo. E tem um remaster de 1981, selo Sweet Thunder, que notoriamente soa gritalhão – do qual eu fujo.

E que setembro traga sempre mais música!

Ouça um trecho da primeira faixa, “The Journey”, no YouTube.

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