Influência Vintage: TOCA-DISCOS NAKAMICHI TX-1000 (1982)

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Christian Pruks
christian@avmag.com.br

Equipamentos Vintage que fazem parte da história do Áudio

O termo Vintage tem a ver com ‘qualidade’, mais do que ‘ser antigo’. Vem do francês ‘vendange’, safra, sobre uma safra de um vinho que resultou excepcional. ‘Vintage’ quer dizer algo de qualidade excepcional – apesar de ser muito usado para designar apenas algo antigo.

MADE IN JAPAN BY ENGINEERS

O Japão dominou o mercado de áudio mundial do começo da década de 70 até a virada para a década de 90 – mas principalmente provendo o aparelho de som como um eletrodoméstico.

Mesmo assim, várias marcas japonesas tiveram, ao longo dos anos, equipamentos adotados por audiófilos – quando os mesmos eram desenvolvidos tendo em mente as exigências, as demandas desse nosso nicho de mercado.

Uma dessas empresas que fizeram grandes equipamentos ‘audiófilos’, é a célebre Nakamichi Research.

O TOCA-DISCOS TX-1000 DA JAPONESA NAKAMICHI

Entre 1982 e 85 – ou seja, no auge da empresa – a Nakamichi comercializou, ainda que limitadamente, o toca-discos de vinil TX-1000, um dos ‘top top’ da história tecnológica do áudio japonês.

E com certeza com uma etiqueta de preço de áudio hi-end: 1.100.000 ienes em 1982, o que seria, em valores de hoje, aproximadamente US$15.000. E, estima-se, não foram fabricadas mais do que 1000 e poucas unidades – uma especulação, pois não existem dados oficiais, e especialistas afirmam que não passaram de algumas poucas centenas, e olhe lá!

Tão difícil de achar hoje em dia no mercado de usados, que ele tem o status de ‘Lendário’, o TX-1000 com certeza pega preços bastante ‘complexos’ – por exemplo, a única coisa que achei foi só sua fonte externa de alimentação, a qual ultrapassa os US$5.000 lá fora!

O TX-1000 é um enorme e pesado (40kg) toca-discos de vinil com tração direta (Direct-Drive) de alto torque com controle de velocidade por quartzo PLL, fabricado no Japão pela especialista em mecânica de precisão, especialmente famosa pelos melhores tape-decks cassete já feitos, a Nakamichi.

Considero ser a Nakamichi – de sua maneira bem própria – uma das empresas japonesas de áudio mais ‘hi-end’.

Ele pode abrigar dois braços ao mesmo tempo, sendo que um deles pode ser de 12 polegadas – e vinha de fábrica sem braços, para que o audiófilo pudesse escolher os seus próprios, apesar de usualmente (pelas fotos que existem por aí) vir com um SME Series III de 9 polegadas, e um SME 3012 de 12 polegadas.

Além de ser construído como um tanque de guerra, com princípios de engenharia e controle de ressonâncias que demorariam décadas para reaparecer na audiofilia moderna, o TX-1000 traz a distinção de ter um sistema automatizado e computadorizado que detecta qualquer descentralização do pino central de um LP, e realinha o prato para compensá-lo.

Uns dizem que a maioria dos LPs está prensada fora de centro – só que, são poucos que eu tive que me lembro do braço ‘dançar’ para lá e pra cá. E, ao mesmo, apenas dois toca-discos (não importando o preço) e um acessório, na história da existência dos LPs e toca-discos na face da Terra, que se preocuparam com essa questão, ou se dedicaram à resolvê-la. E eu já ouvi muitos discos fenomenais, em toca-discos, braços e cápsulas fenomenais, tocando incrivelmente, sem tocar nesse ‘problema’, que eu realmente tenho minhas dúvidas se ele melhora ‘da água pro vinho’ mesmo.

Os braços usuais da SME

Quem foi que desenvolveu o TX-1000 junto com a Nakamichi, ainda hoje é uma espécie de mistério – pois sabe-se que teve ajuda externa de engenheiros e empresas especializadas em toca-discos desse nível, e isso era costumeiro na época no Japão. A Micro Seiki, que co-desenvolveu vários aparelhos para várias companhias famosas, pode ser uma das partes ‘culpadas’, assim como o célebre Takeshi Teragaki, famoso por seus toca-discos Sigma da marca Seiko-Epson, raríssimos e lindos.

O TX-1000 traz um motor com controle Quartz PLL que fica dentro de uma câmara pressurizada, mergulhado no óleo.

Seu prato é deslocado de seu centro absoluto, por dois motores, para permitir que o próprio disco seja re-centralizado milimetricamente – e isso é feito através de uma função de busca do centro absoluto por um braço com um sensor óptico, em um sistema computadorizado!

Os braços usuais da SME

O prato em si é feito de alumínio fundido, com uma estrutura em colmeia para eliminar ressonâncias, coberto por uma placa de vidro revestida com um material magnético-reflexivo que possui propriedades antiestáticas.

Os quatro pés do aparelho, bem nas extremidades, possuem uma câmara de ar em cada um, e podem ser rosqueados para nivelamento do toca-discos.

Diz a lenda que o dinheiro gasto com desenvolvimento do TX-1000, de seu sucessor Dragon CT, do nunca lançado gravador de discos ópticos OMS-1000, e do Sound Research Center da empresa, foram os ‘incidentes’ que mais contribuíram para o fim da primeira vida da Nakamichi.

MODELOS SEMELHANTES

Entre 83 e 84, a empresa lançou uma versão MkII do TX-1000, sem diferenças visuais, apenas redesenho completo na parte eletrônica, e poucas alterações mecânicas – a qual só foi vendida na Alemanha e no próprio Japão.

O modelo seguinte de toca-discos – e único outro que a Nakamichi fez – foi lançado em 1983: Dragon CT, de “Computing Turntable”, um projeto totalmente novo que trazia a mesma função de realinhamento do prato para a centralização dos discos.

Nakamichi Dragon CT

E, por fim, a única ressurreição dessa ideia na era da audiofilia moderna, foi o Detetor & Estabilizador de Excentricidade ES-001 da japonesa DS Audio (aparelho que deve apitar pra burro quando chega perto de alguns audiófilos amigos meus…rs!).

Estabilizador ES-001 da DS Audio

O ES-001 detecta se o disco ‘está fora do eixo’, e você tem que milimetricamente ajustar o disco manualmente até que ele pare de ser detectado como excêntrico (e que mude para o Home Theater como hobby principal).

COMO TOCA O TX-1000

Os privilegiados que ouviram – ou mesmo têm – um Nakamichi TX-1000 equipado com um bom braço e cápsula, afirmam que o som é extremamente detalhado e transparente, com enorme precisão tímbrica, por causa da base pesada, suspensão e isolamento bem bolados, rotação estável e, claro, a perfeita centralização dos discos, que diminui flutuação de velocidade, entre outras coisas.

Tenho certeza que é um belíssimo toca-discos da Era de Ouro da Engenharia Japonesa, e adoraria pôr minhas mãos cheias de dedos em um.

SOBRE A NAKAMICHI

Fundada no Japão por Etsuro Nakamichi em 1948 – e depois comandada por seu irmão mais novo Niro – a Nakamichi Research Corporation começou desenvolvendo e fabricando equipamentos para terceiros. A partir do final da década de 60, começaram a desenvolver e fabricar tape-decks – de rolo e cassete – para marcas conhecidas, como Harman Kardon, KLH, Advent, Fisher, Elac e Ampex, entre outros.

Aliás, o que muito pouco se fala, é que antes de fazer tape-decks de cassete, a Nakamichi Research fez uma breve linha de gravadores de rolo! Chamava-se Fidela, e às vezes vinha com o nome Magic Tone. Nunca tinha ouvido falar que eles tivessem feito gravadores de rolo, muito menos sabia da existência desse nome.

Com esse negócio dando certo, e querendo seus próprios padrões de qualidade sonora, de mecânica e de tecnologia, em 1973 começaram a fabricar com a marca Nakamichi – tendo decks mais simples, claro, mas também logo de cara tomando o mercado de assalto com máquinas como o Nakamichi 1000 original. E o resto, como diz o ditado, é história!

A linha de produtos da empresa, nas décadas seguintes, incluiu toca-fitas para carro (que nunca foram superados), amplificadores, receivers, entre muitos outros produtos. Porém na década de 90 passaram dificuldades com a preponderância do CD sobre a fita cassete, e a empresa acabou perto da falência – sendo comprada em 1998 pelo grupo chinês Grande Holdings, baseado em Hong-Kong, e que também engloba marcas como Sansui e Akai.

Novamente com dificuldades em 2002, em um cenário ruim para as empresas de áudio japonesas, a Nakamichi se reinventou como empresa de eletrônicos ‘lifestyle’ e, depois, com uma linha completa ‘consumer’ que incluía caixas wireless, TVs, fones e soundbars: a ainda bem sucedida linha Shockwave e, desde 2023, a nova linha Dragon.

Um bom setembro a todos – e não deixem a música parar!

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