

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br
Entre a decisão de criar nossa Metodologia, e sua apresentação em maio de 1999, foram quase oito meses de intensas discussões internas com todos os colaboradores e meus dois sócios.
Todos tiveram voz ativa e participaram intensamente do processo de escolha dos quesitos e da pontuação, da seleção das gravações para a análise de cada quesito, do Sistema de Referência para fechar a nota dos produtos testados, da definição de cada categoria – bronze, prata, ouro e diamante – e da iniciação dos Cursos de Percepção Auditiva, destinados à explicação da Metodologia e de como utilizá-la em seus sistemas para upgrades e ajustes finos necessários.
É interessante observar que, nas longas e tortuosas discussões internas, os dois quesitos que mais sofreram idas e vindas em sua definição foram Corpo Harmônico: já que se tratava de um conceito absolutamente inédito e sem nenhuma referência internacional, e Textura: quando inseri neste quesito os conceitos de intencionalidade e timbre.
Quando o impasse chegou ao seu ápice, resolvi mostrar, na prática, o que estava propondo.
Para Corpo Harmônico, precisei de apenas dois exemplos para convencer a todos de sua importância, já que usei de um ‘golpe baixo’: mostrei a mesma gravação em LP e, depois, em CD.
E usei o termo preciso para descrever o quanto o corpo dos instrumentos no CD era menor: pizza brotinho! Todos riram com a definição, e o Corpo Harmônico foi aprovado por unanimidade.
Textura deu mais trabalho. Não para definir o timbre dos instrumentos, mas para encaixar, nesse pacote, o conceito de intencionalidade.
Tive que recorrer a mais de cinco exemplos para convencer a todos de que, em um setup hi-end bem ajustado e sinérgico, era possível perceber diferenças de intencionalidade, tanto no domínio técnico – na escolha dos microfones e na qualidade dos instrumentos – como no âmbito artístico, entre um virtuose e um músico esforçado.
Lembro-me de que a faixa que os convenceu foi o Concerto para Violino e Orquestra, de Prokofiev, segundo e terceiro movimentos.
Na gravação com um solista virtuoso, nenhuma nota do solo é atropelada. Já na gravação com o solista bem esforçado, para quem conhece e aprecia essa obra, é motivo para sentir “vergonha alheia”.
Aprovada a Metodologia, nós a lançamos na edição de aniversário da revista, em maio de 1999, e já anunciamos que, naquele mesmo ano, daríamos início aos Cursos de Percepção Auditiva.

No entanto, para mim, saí daquela aprovação com um incômodo que perdurou por anos.
Algo me dizia que o nosso oitavo quesito, que é a soma dos outros sete, poderia acarretar muitas dúvidas entre os leitores, por ser um termo usado ao extremo na audiofilia: Musicalidade.
E, ainda hoje, por mais que eu repita como um mantra a cada nova turma, e escreva nas conclusões dos testes que a nossa “Musicalidade” não é aquilo que audiófilos e melômanos entendem pelo termo, não sei, sinceramente, se todos que nos acompanham compreendem isso.
E falo isso com pesar, pois, nas minhas consultorias, o que mais escuto quando pergunto “O que você deseja extrair do seu sistema?” é: musicalidade e transparência.
Esses são os objetivos mais citados por todos.
E, quando peço para ouvir o sistema da pessoa, raramente a musicalidade – como a utilizamos em nossa Metodologia – está presente.
O que, na maioria das vezes, o leitor alcançou foi um alto grau de eufonia, geralmente para conseguir reproduzir gravações tecnicamente sofríveis sem precisar descartá-las.
Lembrando a todos: para nós, Musicalidade significa que os outros sete quesitos estão harmoniosamente equilibrados. Caso não estejam, a Musicalidade será pobre. Essa harmonia é necessária porque os quesitos são, em níveis diferentes, interdependentes – como, por exemplo, não dá para ter Texturas de alto nível se não houver bom Equilíbrio Tonal e bom Corpo Harmônico.
Tenho uma gravação que costumo utilizar para ouvir o grau de Musicalidade de um sistema. Quando a reproduzo no sistema do leitor, consigo observar suas qualidades e deficiências, não de maneira explícita, mas da forma mais sutil possível.
Pois é na sutileza que encontramos a beleza, segundo um provérbio chinês taoísta.
Eu concordo plenamente!
O disco foi gravado no final de 1998, e lançado em 1999. Do pianista Keith Jarrett – The Melody At Night, With You (ECM Records).
Trata-se de uma gravação muito particular, pois, a princípio, Keith se opôs a lançá-la.
Ele, anos mais tarde, confessou que a fez para saber se poderia voltar a tocar em alto nível após se recuperar da Síndrome de Fadiga Crônica (SFC), que o tirou da estrada por mais de um ano.
Foi uma gravação tão pessoal, que ele sequer aceitou um técnico de gravação. Ele mesmo cuidou de tudo.
Os arranjos são simples, para um repertório bem conhecido de seu público, e tocados de maneira tão pessoal, que assustaram os críticos pela ausência de experimentação e ousadia.
Quando algum leitor me questiona sobre como aprender a ouvir Keith Jarrett, já que seus grunhidos incomodam, eu sempre digo: comece por este trabalho.
Quando dou o play na faixa 1, I Loves You Porgy, se o cliente tiver esposa e filhos, costuma ocorrer algo muito interessante: eles vêm escutar, ou ficam onde estão, ligados ao que estão fazendo, e depois se manifestam dizendo que gostaram do que ouviram.
E vou explicando ao leitor o que observei em seu sistema, em termos de musicalidade, pela perspectiva da Metodologia.
Se o setup for eufônico e não Musical, o piano irá soar sem nenhum tipo de arejamento, como se o instrumento estivesse em um ambiente completamente anecoico.
Se o Corpo Harmônico for pobre, o piano soará pequeno entre as caixas.
Esta é uma gravação em que o próprio Keith, como engenheiro de gravação, colocou os microfones bem próximos, o que cria uma imagem bastante centralizada. Somente nos crescendos é possível observar o tamanho do piano e o arejamento da sala, que foi absolutamente natural, sem nenhum reverb digital aplicado na mixagem.
É para tudo soar íntimo e pessoal – intencionalidade -, e aí observo também a timbragem no sistema avaliado.
Em um setup impecável, a sensação que passará ao nosso cérebro será a de estarmos a apenas dois ou três metros de distância do pianista. O timbre será maravilhoso, natural e absolutamente confortável auditivamente.
Se você, leitor, tem dificuldade de memorizar que os pianos possuem feltros no martelo para amenizar o impacto nas cordas, este disco poderá ajudá-lo muito como referência para Textura e Equilíbrio Tonal em gravações de piano.
Depois, concentro-me em observar a reprodução de micro e macrodinâmica, pois, ainda que nenhuma das faixas tenha grandes saltos dinâmicos, é possível observar como Keith utiliza toda a sua virtuosidade para nos brindar com sua leitura única de obras tão conhecidas.
Ele as reescreve.
E sigo em frente, ouvindo o quanto o sistema em avaliação materializa o piano na sala de audição.
É interessante que, ainda que seja uma gravação tão intimista e silenciosa, em muitos sistemas que escuto este CD o piano está à nossa frente, mas não totalmente materializado.
Nosso cérebro, nesse caso, costuma compensar essa sensação com o acontecimento musical.
Porém, em sistemas completamente bem ajustados e em salas acusticamente corretas, meu amigo, quando entra sua voz ao fundo – bem menos presente do que em suas gravações ao vivo -, nosso cérebro fica absolutamente convencido de que ele está aqui, à nossa frente.
E vou mais adiante, ao afirmar que, nos sistemas Estado da Arte com uma assinatura sônica neutra, somos nós que seremos transportados para a sala de gravação!
Aí, se tudo estiver devidamente bem ajustado, posso dizer ao leitor se seu sistema chegou lá ou não no quesito Musicalidade – pela perspectiva de nossa Metodologia, claro.

Este é um CD que, quando reproduzido em um sistema impecável, ninguém que esteja na sala ficará impassível.
Eu costumo utilizá-lo para fechar a apresentação de Musicalidade em nossos Cursos de Percepção Auditiva, e nos Workshops.
E o silêncio que se segue ao término da apresentação mostra que todos entenderam o que, para nós, significa o quesito Musicalidade.
Todos que nunca tiveram o prazer de ouvir este disco em condições ideais, poderão fazê-lo em nosso próximo Workshop, que será realizado em abril do próximo ano.
Até lá, que tal vocês irem escutando este lindo trabalho em seus sistemas?