

Christian Pruks
christian@avmag.com.br
Antes que chamem de ‘clickbait’, esse título está mais para uma sátira das ‘profecias do apocalipse’ que sempre reaparecem de tempo em tempo, tanto na imprensa especializada como de maneira opinativa, Internet afora.
Acontece que eu não concordo com a maioria dessas ‘profecias’ – ou com a maneira que elas são expostas, com pequenas distorções do mundo (quando observado in loco).
Tem duas frases que eu falo, as quais eu tenho a impressão que ninguém escuta: 1) Os projetistas de equipamentos quase todos dizem que o acerto da assinatura sônica e equilíbrio é feito ‘de ouvido’ (para desespero dos engenheiros que esqueceram o empírico), e 2) Desde que a audiofilia existe, profetizam sua extinção e exortam, desesperadamente que se ‘traga público novo’.
Só que, desde que a Terra esfriou, os dinossauros se extinguiram e a audiofilia começou na década de 50 que, de tempos em
tempos, os especialistas da área dizem que o hobby está indo para as cucuias e é absolutamente necessário trazer ‘gente nova’ – porque, aparentemente, todo mundo está com cabelo branco e com seus anos contados, e não sendo substituídos por ninguém…
Premissa 1 – eles são todos velhinhos de cabelos brancos (sim, existe a ‘Premissa 2’, que desbanca a ‘Premissa 1’).
Cenário Real – primeiro, é preciso ver qual é a realidade: a audiofilia é um nicho. E, em alguns países, é um ‘nicho do nicho’. A maior feira do mundo, a de Viena, na Áustria, que até 2025 era em Munique, na Alemanha, traz 23.000 pessoas, com algo entre 500 e 800 expositores / marcas. O nosso ‘nicho do nicho do nicho’ Brasil, com o Workshop Hi-End Show de abril, trouxe 1.600 pessoas com 20 e poucas marcas.
Viena tem 29 possíveis clientes por marca em exposição. São Paulo tem 80 possíveis clientes por marca em exposição!
Estou gostando ainda mais do nosso pequeno evento! rs!
Mas, voltemos ao tema…
Por que as pessoas estão indo embora do hobby da audiofilia? Entendam que isso é um fenômeno que acontece desde a década de 90 – mais de 30 anos, portanto – onde houve o surgimento do computador pessoal, dos games com kit multimídia, da Internet, do MP3 e da TV por assinatura acessível. Obviamente, o interesse das pessoas ‘normais’ migrou de ter um belo e dedicado sistema para música em casa, para outras paragens.
Mas, qual é essa relação entre o público geral e a audiofilia? Menor do que nos querem fazer crer o mercado americano, por exemplo – onde alguém compra um equipamento um pouco mais complexo do que simplesmente uma soundbar ou microsystem (e seus herdeiros Bluetooth), simplesmente porque as salas são grandes, e o pequeno equipamento não dá conta. Então muitas mídias especializadas americanas põem Home Theater, áudio consumer e audiofilia dentro do mesmo ‘balaio de gato’ – o que eu acho que fazem para querer mostrar um mercado maior e mais ‘homogêneo’.

A verdade é que lá – assim como em todos os lugares – a audiofilia, que é o áudio dedicado à Qualidade Sonora, é também um nicho. Só que, os EUA são o maior e o mais intenso mercado profundamente consumidor de tudo, principalmente eletrônicos, e têm quase 350 milhões de habitantes com poder aquisitivo e que se levantam cedo para exercer tal atividade!
O que interessa, que são os equipamentos que demandam espaço, posicionamento, atenção, dedicação, custam caro. Um único elemento barato dentro de um sistema audiófilo barato, ‘de entrada’ (composto de meia-dúzia de elementos) custa o orçamento inteiro para áudio de alguém que só quer encher a sala de som.
Uma amplificação ou um par de caixas que custam o preço de um carro de luxo, são mais ‘a regra’. E poucos têm esse interesse e esse poder aquisitivo…
Mas, na maior feira de áudio do mundo, não foi o enorme número de 23.000 pessoas na Europa? Sim, claro. Porém é preciso pensar que uma feira de algo que tem um interesse um pouco mais difundido, como uma feira do automóvel, traz 500.000 visitantes por feira, na Europa, e pode trazer quase um milhão, por evento, nos EUA.
A Premissa 2 me permitiu observar, tanto em eventos no Brasil nos últimos anos, como em eventos no exterior, que o público passou a conter um bocado de gente jovem interessada em áudio de alta qualidade, alguns trazendo até esposas e namoradas à tiracolo (coitadas). E muitos dos meus amigos audiófilos ainda não precisam de creme para rugas e nem de pintar os cabelos (não que eu saiba, pelo menos).
Porém, nesses eventos, haviam algumas pessoas como eu, sem cabelo – o que não me permitiu incluí-las na análise geral. Mas como algumas usavam roupas joviais, e cheiravam a talco Johnsons, eu acho que ainda não tinham chegado no tal grupo de consumidores que não compram em mais de seis prestações (porque nunca se sabe o que pode acontecer em seis meses…).
Idade, então, não parece ser mais o fator definitivo do apocalipse audiófilo.
Mas o que espera um consumidor mais jovem que, em sua maioria, acaba não tendo o mesmo poder aquisitivo do mais velho? Áudio de qualidade por preços interessantes e mais acessíveis. Simples.
Puxa… isso quer dizer que a audiofilia terá que se mudar e ficar mais barata? Claro que não. Mas pouco se olha para a audiofilia ‘de entrada’, porém lá existe uma abundância de equipamentos e componentes de sistemas, e acessórios, que têm uma performance incrível! Já falei que, por preços brasileiros, monta-se sistemas iniciais muito prazerosos e corretos, por algo entre 10 e 15 mil reais!
Mas tem público para isso mesmo? Claro! Porque, na verdade, eu acredito que esse é o verdadeiro poder aquisitivo da maioria esmagadora dos audiófilos que vão nesses eventos.
Isso significa extinção da audiofilia? Ou transformação?
Na minha opinião, não vai se extinguir a audiofilia de altíssimo nível – essa aumenta e diminui, em um efeito sanfona, desde a década de 60.
Basta pesquisar um pouco da história da audiofilia, para saber que esse hobby preocupava muitos no quesito extinção, nas décadas de 60, 70 e 80 por popularização do equipamento de som. E, depois, da década de 90 para cá, por mudanças fortes de comportamento do consumidor de entretenimento.
Em nenhuma dessas décadas, a audiofilia se extinguiu – apenas se transformou.

E aí tem o tal capítulo ‘Trazer gente jovem’ para o hobby – e que inclui tentativas de fazer as mulheres se interessarem por audiofilia e equipamentos, quando todos que conviveram com mulheres na vida sabem que seus interesses práticos e estéticos (da maioria esmagadora delas) não combina com esses ‘brinquedos de menino’.
Inúmeras ideias e tentativas de se trazer jovens e mulheres para esse nosso hobby, portanto, foram especuladas e tentadas ao longo das décadas – e nenhuma fruiu.
Minha opinião bastante pessoal – e um pouco profissional também – é que você não cria essa necessidade sem gastar uma enormidade
de dinheiro e esforço (e ainda assim não sei como fazê-lo). Que as pessoas que tiverem já essa aptidão e interesse, que valorizem Qualidade Sonora, podem ser no máximo ovelhas desgarradas perdidas mundo afora esperando o dia que alguém lhes esclareça que nós existimos – e que não nos encontramos em cantos escuros de praças durante as últimas horas das madrugadas…hehehe…
Como chegar nesses desgarrados? Boa sorte procurando uma mídia que possa encontrá-los dentro das grandes populações. Talvez uma enorme frota de carros de som para venda de pamonhas, circulando nas capitais, possa encontrá-los, com mensagens curtas e bem boladas.
Então, penso que eles é que nos acham. Porque é algo que os interessa, e na Era da Internet se você tem interesse em corrida de bolinhas de gude, por exemplo, a maior chance é de que você já procurou sobre o assunto no Google – e o faz, de tempos em tempos.
Precisa aumentar a demanda no mercado de áudio? Ou precisa conviver com as variações e transformações, e se adaptar à elas?
Eu voto nessa segunda hipótese.
A verdade é que, para o lado de dentro do mercado, a audiofilia gira em torno de dinheiro, pois é um negócio puro e simples. Até aí, nada de errado – e, claro, muitos fabricantes sabem que é preciso projetar e fabricar Qualidade Sonora, para atingir seu exigente público. E muitos outros fabricantes, infelizmente, parecem não saber disso.
Outro dia ouvi uma crítica de um projetista, um tarimbado profissional da área, sobre feiras de áudio, que dizia que a maioria desses eventos hoje só têm sistemas de alto nível de preço, hi-end e ultra-hi-end. E ele se pergunta: “Onde estão os equipamentos mais baratos e intermediários, aqueles que a maioria das pessoas podem pagar?”
Feiras são caras para se participar, especialmente considerando todo o custo agregado – então muitos fabricantes pequenos simplesmente não podem fazê-lo, ainda porque feiras são divulgação institucional, então os resultados são lentos e difíceis de mensurar.
A busca, por causa de tudo isso, é pelo ticket alto, é pelo cliente top, de sala dedicada e sistema Estado da Arte Superlativo – onde, para muitos, o Áudio Hi-End se confunde com artigos de luxo, e para outros é apenas um privilégio de poucos.
Não deveria ser, e não é! Minha busca pessoal – e em boa parte da revista também – tem sido, há anos, propagandear equipamentos que eu, como mortal, posso ter, e que não deveria ser impossível para a maioria obter, pois existem fones, amplificadores de fones, amplificadores integrados, streamers, DACs e caixas de bom preço que são corretos, prazerosos de serem ouvidos, com baixa fadiga, boa musicalidade, e sempre numerosas possibilidades de upgrades.
O difícil, às vezes, é fazer as pessoas entenderem que, apesar de cobiçarmos Lamborghinis e Porsches, tem bastante carro de boa qualidade e acessível, e que interessam ao fã de carros.
Voltando à questão principal: a Audiofilia está mudando? Sim. Está em transformação? Sim.
Será traumatizante? Para o audiófilo, provavelmente não. Pois sempre existiu o nicho, e o nicho do nicho. E o mercado do ultra-hi-end também, e o mercado intermediário e o de entrada – porém seus tamanhos, necessidades e aceitações irão mudar.
Por exemplo, quem acha que só a Lamborghini serve, está perdendo de ver que hoje temos equipamentos super baratos que nunca tocaram tão bem! A oferta é grande, a qualidade é grande e o preço é baixo. E nunca foi tão bom assim. Nunca um par de caixas bookshelf de US$300 (preço de lá de fora), por exemplo, sequer chegou perto de tocar tão bem como toca na atualidade!
A audiofilia vai para o vinagre? Está se extinguindo?
Não, mas não mesmo. Tem quem quer equipamentos, tem quem fabrica e tem quem vende.