

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br
Todo audiófilo e melômano sonha em ter uma sala dedicada para ouvir música da melhor maneira possível. Depois das consultas sobre equipamentos e sistemas, uma das perguntas mais recorrentes de nossos leitores diz respeito às dimensões da sala ideal. Minha primeira orientação é simples: prefira uma sala que não seja quadrada.
Numa sala quadrada, as dimensões iguais em dois eixos favorecem a coincidência de modos de ressonância, conhecidos popularmente como ondas estacionárias. Em certas regiões, as frequências graves podem ser reforçadas, produzindo excesso de graves e prejudicando a inteligibilidade. Em outras, os cancelamentos podem provocar a chamada “sucção de graves”.
Numa sala retangular, com comprimento e largura diferentes, esses problemas tendem a ser mais fáceis de contornar. Ainda haverá picos e vales na resposta, mas o posicionamento cuidadoso das caixas e do ponto de audição pode atenuá-los. Toda sala produz reflexões – quando elas se somam aos efeitos das ressonâncias, também podem dificultar a obtenção de um palco sonoro com foco e recorte.
Lembro-me de uma consultoria que prestei há cerca de oito anos. Um leitor havia comprado um apartamento na planta, ainda com possibilidade de alterações, e pediu minha ajuda. Sua esposa e a arquiteta lhe ofereceram duas opções para a tão sonhada sala dedicada: uma de 4 m por 4 m e outra de 3.60 m por 4.80 m, ambas com pé-direito de 2.40 m. Antes de me consultar, ele estava inclinado a escolher a sala quadrada. Recomendei a segunda opção. Senti certa resistência e, por algum tempo, não tive mais notícias dele.
Cerca de seis meses depois, ele me escreveu dizendo que o apartamento estava pronto e que havia convencido a esposa a deixá-lo ouvir o sistema nos dois ambientes antes de decidir. Convidou-me para acompanhá-lo. Felizmente, seu sistema era bastante minimalista: um belo amplificador integrado, um par de caixas de duas vias e meia, um streamer e um CD-Player.
Começamos pela sala quadrada. Estendemos um tapete grosso no chão e posicionamos as caixas com 2.80 m entre si, a 1 m da parede atrás delas. A cadeira ficou a 2.80 m das caixas, formando um triângulo equilátero, mas restaram apenas cerca de 20 cm entre o ouvinte e a parede posterior. Surgiram justamente os problemas de ressonância e cancelamento nos graves descritos acima. O resultado foi, para nós, inaudível.
Convencidos de que a sala quadrada exigiria um tratamento acústico caro, sem garantia de atender às expectativas do leitor, desmontamos o sistema e o levamos para a sala retangular. Reinstalamos o tapete e posicionamos as caixas a 1 m da parede atrás delas, com 2.80 m entre si novamente. A cadeira ficou a cerca de 3 m das caixas, deixando aproximadamente 60 cm de espaço atrás do ouvinte. O resultado foi muito superior ao obtido na sala quadrada. Embora a nova sala também não fosse acusticamente perfeita, os problemas a corrigir eram mais pontuais. O leitor se convenceu e hoje desfruta da sala dedicada com que sonhava.
Para ter uma ideia da diferença de escala entre as frequências, a onda de 40 Hz tem comprimento superior a 8 m, enquanto a de 1.000 Hz mede cerca de 34 cm. Isso ajuda a entender por que os graves exigem tanta atenção na escolha da sala e no posicionamento do sistema.
Em geral, numa sala retangular, vale começar com as caixas voltadas ao longo da dimensão maior. Essa disposição oferece mais espaço para ajustar a posição das caixas e do ouvinte e pode reduzir a necessidade de correções acústicas. A liberdade de ajuste é especialmente importante para quem escuta música sinfônica e grandes orquestras e busca uma imagem sonora tridimensional, com boa altura e profundidade. Para isso, é desejável poder afastar as caixas pelo menos 1 m da parede atrás delas.
Reforço sempre aos participantes de nossos Cursos de Percepção Auditiva e Workshops, que planejam uma sala dedicada: antes de tudo, escutem a sala. Mesmo que o sistema tenha muitos componentes, não é preciso montá-lo por completo nessa primeira avaliação. O essencial é ouvir as caixas que serão usadas no ambiente.
Escolha gravações que evidenciem o comportamento da sala e anote o que ouvir: excesso ou cancelamento de graves, médios agressivos, agudos opacos ou brilhantes demais. Depois, afaste as caixas das paredes e repita as mesmas faixas. O que mudou? Alguma região melhorou? O resultado geral piorou?
Se o reposicionamento produzir melhorias significativas, é sinal de que a sala tem potencial para ser ajustada sem grandes intervenções acústicas. Móveis também podem ajudar: estantes com livros ou discos na parede atrás do ouvinte, tapete, cortinas e um sofá no lugar de uma cadeira de audição podem contribuir para o equilíbrio do ambiente e reduzir a necessidade de difusores e armadilhas de graves. A solução adequada, porém, depende dos problemas observados em cada sala.
Como sempre digo em minhas apresentações, ouvimos o sistema como um todo, e a sala faz parte dele. A tecnologia, por si só, não elimina os obstáculos acústicos do ambiente. Se a sala dedicada é seu próximo upgrade, planeje, pesquise e escolha suas dimensões com critério. Ouça o espaço, experimente diferentes posições e identifique o que ele permite corrigir. Assim, você aumenta as chances de aproveitar plenamente o investimento feito em seu sistema.
