Espaço Aberto: MUSICALMENTE IMPRESSIONADO OU EMOCIONADO?

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Christian Pruks
christian@avmag.com.br

Anos atrás eu escrevi um Espaço Aberto relacionado a esse assunto, sobre a diferença entre a memória emocional e o interesse intelectual, e suas influências sobre nossos gostos e escolhas musicais.

Sim, porque nós somos alguns dos seres humanos para os quais a música é algo que alimenta nossa alma – e é, portanto, totalmente necessária em nossas vidas.

Pode parecer meio que ‘chover no molhado’, diferenciar o Impressionado (que tem o interesse intelectual) do Emocionado (o que tem o foco na emoção causada), pois uma pessoa que pensa de um jeito acha que o outro está totalmente errado, com gente sendo chamada de superficial de um lado e de arrogante do outro.

A verdade é que quase ninguém é totalmente um ou totalmente o outro, e sim uma mistura dos dois, e essa mistura é variável.

E, quer saber? Como acontece com a maioria da polarizações, nenhum dos dois lados muda, porque não importa quem achar que o outro está errado (ou certo), ambos continuarão sendo do jeito que querem ser – afinal, não importa o que seja infligido por seres humanos em outros seres humanos, dentro da cabeça de cada um ele sempre será livre.

Então porque trazer esse assunto de novo?

Veja, houve uma declaração atribuída a um músico de alto calibre, já com longa carreira, que na verdade para mim explica um bocado das escolhas criativas dele nas últimas décadas. Ele disse que a música não tem que Impressioná-lo, e sim Emocioná-lo. Acontece que ele nem sempre foi assim…

Não importa quem é o músico, e sim que a declaração mostra – para quem conhece seu trabalho – que ele foi durante muitos anos preocupado com o lado intelectual de suas criações, e isso elevou seu gênero musical tremendamente. E, já fazem uns bons anos, seu processo criativo musical perdeu o ‘inovador’, que era intelectualmente instigante, influenciou muita gente e deixou sua marca na história para sempre.

Até porque, mesmo esse seu trabalho da era em que prezava pela Intelectualidade soava, também, emocionalmente carregado!

Eu tenho um envolvimento de profundo interesse com música desde os quatro anos de idade, quando sentava para acompanhar as audições de meu pai audiófilo. E quando visitávamos meu avô, também audiófilo, eu sentava – criança – junto com os dois para ouvir música, transportado para outro mundo!

E esse envolvimento me levou a ler e quer entender mais, a expandir isso, a vida inteira, me pondo também no caminho de ser profissional do mercado audiófilo nos últimos 22 anos – e até hoje quase que diariamente eu procuro me informar e lapidar meu conhecimento e experiências não só no áudio de alta qualidade, como na música (ainda que como conhecedor e diletante, e não como músico).

A Música – assim com letra maiúscula – me é inconcebível sob o ponto apenas do impacto emocional ou mesmo da memória afetiva. Um de meus músicos favoritos, eu considero ser o melhor em seu instrumento exatamente por sua qualidade e equilíbrio entre a Técnica e o Sentimento!

Esse outro músico, o que declarou em seus anos de cabelos mais brancos, que a música só o tem que instigar emocionalmente, perdeu aquilo que mais o diferenciava, aquilo que o tornava imortal…

Se é que ele disse isso mesmo… porque declarações podem ser atribuídas falsamente. Mas que explica muita coisa, isso explica! Uma compreensão de anos de trabalhos, e de todas as minhas dúvidas, que foram esclarecidas como um raio!

Seu trabalho empobreceu. Simples assim.

Outro fato é que esse sentimento de controvérsia não foi exclusividade minha – já que vários nas redes sociais debateram a declaração. E as acusações mútuas são sempre as mesmas ladainhas polarizadoras… ou acusações e afirmativas simplistas…

Os únicos ponderados – os melhores, aliás – disseram o óbvio:

Ambos os lados podem conviver tranquilamente. E tem até um que ouve Mahavishnu Orchestra (altamente cerebral e virtuosístico) e Simon & Garfunkel (folk emotivo e bem popular) no mesmo dia, na mesma sentada!

Uma coisa é certa, na minha opinião o emotivo e popular – a memória musical afetiva do rock, pop e folk dos últimos 60 anos – pouco ou nada nos trouxe um Beethoven, um Mozart, de um jazz, ou de um rock progressivo.

E eu, portanto, na minha jornada musical, não abrirei mão nunca do impulso criativo intelectual na música.

Bom, agosto – e não deixem a música parar!

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