

Christian Pruks
christian@avmag.com.br
“O Bluetooth Começa a Chegar na Audiofilia”
Depois de testar o pré de phono dessa marca inglesa (leia na edição 331), tive o prazer de passar os últimos dois meses com o DAC ZEN Blue 3 da iFi Audio.
E o ‘prazer’ aqui é não só pelo equipamento bem bolado e super bem construído, ou por sua etiqueta de preço acessível mesmo para nós terráqueos sul-americanos, ou mesmo porque o pessoal da iFi é gente boa – mas o interessante mesmo, o especial é sua Qualidade Sonora encantadora!
Antes de mais nada, o ZEN Blue 3 é um DAC compacto, com entradas digitais Bluetooth, SPDIF, USB e ótica. E saídas analógicas RCA e XLR (esta última com um plug 4.4mm, a qual eu não testei).
Só que o Blue 3 não para por aí. Ele é ‘quase’ um canivete suíço – e falo ‘quase’ pois só lhe faltam caixas e amplificador, e faltaria ser um ADC (conversor analógico para digital) se soltasse nas saídas digitais o sinal que veio do RCA. Mas isso foi somente uma questão de escolha da iFi.
Mas ele faz mais: além de receptor Bluetooth, que manda o sinal para as saídas analógicas e também para as digitais (permitindo também o uso do DAC como puro transporte Bluetooth conectando-o em um DAC externo), o aparelho também é transmissor Bluetooth, pegando o sinal analógico de sua entrada RCA – ou o sinal digital de uma das entradas digitais – e transmitindo-o para quaisquer aparelhos Bluetooth, como fones de ouvido, caixas ativas, caixas portáteis, soundbars, etc.
Mas, puxa-vida, ‘Bluetooth’ é o bicho-papão, o ‘Voldemort’ da audiofilia!! Sinto até alguns audiófilos atravessando a rua para o outro lado, em desprezo… E outros mandando eu lavar a boca com sabão só por ter mencionado o termo. Afinal é algo que é considerado pela definição ‘engenheirística’ como sendo inferior. E ponto!
Pois é… não é mais o bicho-papão – simples assim!
Claro, isso apenas se você levar em conta, como eu, o Resultado Sonoro que saí do aparelho – em vez de ficar definindo previamente que “Bluetooth não presta”.
Inclusive, outro dia, vi no YouTube um profissional de áudio que, ao ser indagado se Bluetooth poderia ser bom para audiófilos, ele respondeu que “não”. E eu tive a empáfia de “responder para a TV”, em voz alta, dizendo “Agora já é, meu!” – pois, meu amigo, realmente esse aparelho me deixou muito impressionado.
Claro que, se ele tivesse capacidades de recepção via Wi-Fi, Cast ou coisa do gênero, esse modo seria superior em qualidade sonora do que o modo Bluetooth. Mas isso acabaria por invalidar para muitos, e em muitas situações, a necessidade de um transporte streamer dedicado. E não seria a proposta da iFi, que fez um belo DAC, especialmente pelo preço (coisa que a maioria dos reviewers preferiu ignorar), e adicionou uma facilidade Bluetooth, útil para muitos, com qualidade sonora realmente interessante.
O Bluetooth 5.4 do DAC iFi ZEN Blue 3 tem recepção de sinal de múltiplos codecs, e transmissão em quase todos eles. São eles: aptX Lossless, LDAC, aptX Adaptive, AAC, LHDC/HWA (este Codec disponível somente para recepção), aptX HD, aptX ‘normal’, e SBC.
Como DAC normal, ele converte formatos PCM de 44.1 até 192kHz, por entradas que vão desde óptica até coaxial e USB, fazendo sua conversão para analógico (inclusive do sinal Bluetooth) através de um chipset ESS Sabre ES9023 – que usa arquitetura HyperStream e um patenteado sistema chamado de Time Domain Jitter Eliminator, para virtualmente eliminar o jitter do sinal – além de prover uma faixa dinâmica de 112dB.
Ou seja, ele é compatível com quase qualquer transmissão que você mande para ele – e com quase qualquer dispositivo Bluetooth para o qual ele envie o sinal, quando em uso como transmissor.
Aliás, fazia tempo que eu não pegava um aparelho barato – qualquer que seja – punha ele para tocar, e ficava instantaneamente olhando, meio estupefato. A gente sempre espera problemas, defeitos latentes – mas aqui já saiu tocando, como diz o Fernando Andrette, lindamente.
Mas, assim, se apresenta uma questão:
Quais são os pecados usuais de um Bluetooth? Falta de extensão nas baixas, ausência de extensão e ar e ambiência em cima, palco chapado, apresentação difusa e embolada, e falta de corpo harmônico nas médias e altas.
De quais desses pecados o iFi ZEN Blue 3 sofre?
Resposta: Nenhum! Sim, você leu certo: nenhum.
E o Blue 3 também tem a facilidade de usar fonte externa, o que permite upgrade futuro rápido e relativamente barato dessa parte tão crucial, inclusive porque a própria iFi está trazendo ao Brasil duas opções de suas célebres fontes iPower filtradas. O que vai melhorar no upgrade é a transparência, a naturalidade e o 3D do palco, além da criticada dinâmica do Blue 3. Então já podem ter isso em seus radares.
O aparelho chegou para mim com poucas horas de uso – não especificadas – feitas em showroom. Liguei o mesmo no sistema e deixei vários dias lá, sem ouvir, apenas recebendo sinal e amaciando.
Daí, então, resolvi conectar o pior Bluetooth que eu tenho em casa: a TV Samsung, que usa o codec mais chulé que existe, o SBC, que é cheio de perdas e etc e tal – isso para ir começando a ouvir, e porque eu estava organizando as minha pastas de vídeos de música no YouTube. Era simplesmente para ‘ir esquentando’…
E nos primeiros minutos, já me impressionou completamente: correto, equilibrado, sem os problemas normais do Bluetooth, sem decepcionar, sem ficar ‘sem graça’ ou ‘em falta’. Ele tem um som geral bom pacas.
Eu li na mídia especializada, que a função primordial do Blue 3, segundo a iFi, era ser “o DAC Bluetooth para Audiófilos” – mas a gente sempre ouve essas frases achando que é ‘coisa de marketing’.
Não é marketing.
A iFi chegou onde se propôs a chegar. Se você não fizer a comparação direta entre o Bluetooth e a conexão cabeada, com o mesmo conteúdo, pode ficar dias ouvindo o Bluetooth sem que o som deixe a desejar – e isso em um bom sistema bem correto e resolutivo!
E, quando você ouve alta qualidade sonora, de nível audiófilo, vinda pelo Bluetooth, com o codec que está mais longe de ser lossless, mandando de um app em um aparelho de TV, então você pode ter certeza, inclusive, que a ‘culpa’ dessa qualidade não é do chipset bacana QCC518x da Qualcomm (que, aliás, muitos aparelhos BT usam), e nem do aptX mais supimpa do mercado, mais lossless do mercado, ou mesmo de um celebrado codec LDAC… A ‘culpa’ dele tocar tudo isso é da engenharia da iFi, deles terem posto nesse aparelho, algum (ou vários) aspectos técnicos que não são comumente usados.
Eles descobriram o pulo-do-gato para se obter Qualidade Sonora de uma conexão Bluetooth.
Aliás, eu acho ótimo isso – pois o povo das medições e especificações irá se negar a sequer ouvir o Blue 3, dizendo que se a teoria diz que toca mal, então vai tocar mal (desculpem, mas não perdôo ninguém que se negue a ouvir em favor de teoria – pois é ridículo e pouco inteligente).
COMO TOCA
Em poucas palavras? Refinado, detalhado, natural, equilibrado. É um DAC que soa com excelente silêncio de fundo, sem som artificial, sem dureza ou ‘digitalite’, nem no modo Bluetooth.
Equilíbrio Tonal – Muito correto, cheio e ‘quente’, mas com detalhamento impressionante, recorte e textura dignos de nota em todos os instrumentos graves, com médios e agudos limpos, com timbre correto e zero de fadiga. A impressão geral é de estar ouvindo um DAC bem mais caro – e, claro, isso depende de conteúdo com qualidade de gravação superior.
Soundstage – Largo, profundo, arejado e limpo, com tudo bem recortado e recuperando ambiências das gravações à granel. No modo Bluetooth diminui um pouquinho de tamanho.
Texturas – Todos os instrumentos, em graves, médios e agudos, são belamente texturizados e aveludados, sem nenhuma dificuldade de perceber intencionalidades ou sua qualidade. Apenas que, no modo Bluetooth, as texturas são um pouco mais difusas.
Dinâmica – A macro-dinâmica pode frontalizar ligeiramente, na média-alta e alta, em passagens mais complexas, além de não ser um DAC “visceral” ou chegado a “fogos de artifício” frente a DACs de alto nível – mas isso não me incomodou quando ouvindo gravações top, porém causava um pequeno embolamento nos médio-agudos em modo Bluetooth, dependendo um pouco de volume e conteúdo. Já a micro-dinâmica, como diria a gíria, é “animal!” – graças ao silêncio de fundo literalmente impressionante, um dos melhores que eu já ouvi (uma característica marcante nos produtos da iFi).
Transientes – Soam naturais, com bom ataque e decaimentos corretos – nunca lerdos ou sonolentos, e nenhum músico toca com ‘displicência’. Mas são um pouquinho menos incisivos em modo Bluetooth.
Corpo Harmônico – Pode chegar a ser luxuriante em tamanho dos instrumentos e da apresentação musical, para o nível em que esse DAC está inserido. O corpo, claro, é um pouco menor no modo Bluetooth – mas, de novo, percebe-se isso muito mais ao fazer comparações do que propriamente sentindo falta durante audições normais.
Organicidade – Esse quesito dependerá exclusivamente da qualidade da gravação do disco usado, já que ele não embeleza nenhuma informação que chega nele, apesar de ser revelador e cheio de detalhamento. Boas gravações me deixaram olhando para a nota fiscal e coçando a cabeça…
Nota de um Redator Desocupado – Acho que, inclusive, essa é uma característica constante em equipamentos de áudio de qualidade: se é correto e equilibrado, não vai tentar embelezar a gravação – o máximo que se pode obter para ‘melhorar’ gravações ruins, é um sistema com tamanha folga em todos sentidos, que gravações piores começam a dar melhores resultados, como se o equipamento fosse leniente com as dificuldades da gravação. Mais definição e detalhamento, forçosamente obtidos, apenas dão luz aos problemas que estão nas gravações inferiores.
CONCLUSÃO
Por que a nota que eu dei nesse produto? Porque é um DAC compacto, barato e acessível até para brasileiros, que é correto, equilibrado tonalmente, silencioso e detalhado, que dá prazer de ouvir.
É um Best-Buy – e que passa a ser a minha Referência, ocupando um espaço no meu rack.
Não posso dar o selo de Produto do Ano do Editor, porque não sou o editor-chefe da revista – mas posso dar o meu pessoal Selo de Produto do Ano do Sub-Assistente do Carimbador Adjunto Júnior! Rs!
Em todo sistema de entrada, e muitos dos intermediários que existem hoje, o iFi ZEN Blue 3 irá tocar à contento, e por anos à fio – tanto como DAC cabeado, quanto como Bluetooth.
E se você já tem um bom DAC, o Blue 3 pode trazer a funcionalidade de um “Transporte Bluetooth Audiófilo” para o seu sistema, o que pode ser útil de uma variedade de maneiras – e eu mesmo me vi usando mais Bluetooth do que uso normalmente, simplesmente porque sua qualidade sonora é boa, então isso se une à praticidade.
Para quem o Blue 3 não serve: quem procura alguma característica tonal específica, uma assinatura sônica que ou o agrade ou simplesmente seja algo que falta em seu sistema, como quem busca equilibrar tonalmente o sistema na marra.
O ZEN Blue 3 é muito compatível, e seu equilíbrio permite que a pessoa tenha-o como base e vá equilibrando e acertando o resto de seu sistema em cima desse alicerce firme.
E ele ainda tem alguns caminhos óbvios e fáceis para futuros upgrades na fonte de alimentação!
LISTA DE EQUIPAMENTOS UTILIZADOS:
PONTOS POSITIVOS
Um silêncio de fundo, tridimensionalidade e organicidade que pertencem a equipamentos muito mais caros.
PONTOS NEGATIVOS
Por esse preço, a única indagação que fica é: “Quando a iFi vai fazer um amplificador integrado na sua linha ZEN?”.
ESPECIFICAÇÕES
| Tipo | Conversor Digital para Analógico com Transmissor e Receptor Bluetooth integrado |
| Chipset Bluetooth | Qualcomm QCC518x (Bluetooth 5.4) |
| Chip DAC | ESS Sabre ES9023 |
| Modos de Operação | Receptor (RX), Transmissor (TX) e modo DAC com fio |
| Codecs Suportados | aptX Lossless, aptX Adaptive, aptX HD, aptX Low Latency, aptX, LDAC, LHDC/HWA, AAC e SBC |
| Taxas de Amostragem | – USB-C: até 24-bit / 96kHz – Óptico / Coaxial (S/PDIF): até 24-bit / 192kHz |
| Entradas | USB-C, RCA analógico, Óptico/Coaxial (S/PDIF) e Bluetooth |
| Saídas | Saída balanceada de 4.4mm, RCA analógico, Óptico/Coaxial (S/PDIF) e Bluetooth |
| Relação Sinal-Ruído (SNR / DNR) | 109 dB |
| Distorção Harmônica Total (THD+N) | < 0.005% |
| Nível de Saída (RMS) | 4.1V (balanceado 4.4mm), 2.05V (RCA) |
| Alimentação | USB-C ou fonte DC 5V / ≥ 0.5A (<1W) |
| Dimensões (L x P) | 15,8 × 10,6 cm |
| Peso | 447 g |
| DAC BLUETOOTH ZEN BLUE 3 DA IFI AUDIO (MODO BLUETOOTH) | ||||
|---|---|---|---|---|
| Equilíbrio Tonal | 11,0 | |||
| Soundstage | 11,5 | |||
| Textura | 11,5 | |||
| Transientes | 11,0 | |||
| Dinâmica | 12,0 | |||
| Corpo Harmônico | 11,0 | |||
| Organicidade | 12,0 | |||
| Musicalidade | 11,0 | |||
| Total | 91,0 | |||
| DAC BLUETOOTH ZEN BLUE 3 DA IFI AUDIO (DAC COM FIO) | ||||
|---|---|---|---|---|
| Equilíbrio Tonal | 11,5 | |||
| Soundstage | 12,0 | |||
| Textura | 12,0 | |||
| Transientes | 11,5 | |||
| Dinâmica | 12,0 | |||
| Corpo Harmônico | 12,0 | |||
| Organicidade | 12,0 | |||
| Musicalidade | 12,0 | |||
| Total | 95,0 | |||
| VOCAL | ||||||||||
| ROCK, POP | ||||||||||
| JAZZ, BLUES | ||||||||||
| MÚSICA DE CÂMARA | ||||||||||
| SINFÔNICA |


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