

Sempre quis ouvir à fundo os equipamentos da empresa inglesa iFi, pois sempre me pareceram bonitos, bem bolados e com bons preços.
E os poucos que eu havia ouvido superficialmente – como DACs e amplificadores portáteis de fones de ouvido, o grande iDSD
Phantom, e os vários amplificadores que estavam presentes em expositores no nosso Workshop Hi-End Show 2026, em abril último – a primeira impressão sonora sempre foi totalmente positiva.
Agora, estou começando a ouvir em meu sistema – e testar para a revista – vários produtos específicos para sistemas residenciais, sendo o primeiro aqui o pré de phono ZEN Phono 3.
E, aí, me ocorreu a seguinte reflexão: “Quais são os pecados capitais de um pré de phono?”
Porque, meu amigo, existem aquelas coisas que sempre fizeram a gente ficar de cabelos em pé com um pré de phono – principalmente os mais baratos – e que sempre prejudicaram a vida dos pobres fãs e colecionadores de vinil.
E esses pecados são: Falta de peso em graves, desequilíbrio tonal, ruído de fundo. Quem não começou no vinil, ou mesmo está em seu estágio de equipamento ‘de entrada’ ou intermediário, dentro de seu poder aquisitivo, e não quer arrancar os cabelos quando ouve um som magro e sem pegada, e com o alto e irritante ruído de fundo, piorado por numerosas interferências?
Mas, nada tema, com iFi não há problema!
Para começar, o ZEN Phono 3 consegue ser ainda mais silencioso que a minha referência no segmento de entrada, o Lehmann Black Cube II. O ZEN é o pré de phono mais silencioso que eu já ouvi em um sistema meu, desde sempre.
Além de ajudar tremendamente os muitos interessados em vinil que reclamam do barulho, isso também tem uma função prática
tremendamente boa: quanto maior o silêncio de fundo, maior o detalhamento e a inteligibilidade – melhor a microdinâmica!
E, claro, haver um equilíbrio tonal melhor que muitos, onde os graves tem um peso correto, e onde não há frequência no espectro que destoe, que precise ‘ser domada’, permite um casamento melhor e mais fácil com cabos e com resto do sistema onde será ligado – afinal, quanto menos elos forem ‘desequilibrados’, maior a sinergia, mais fácil é de casar todo o sistema – e esse é um dos motivos de batermos tanto na tecla do Equilíbrio Tonal e do Correto.
E é até divertido ver algumas coisas. Por exemplo, meu sistema é bem silencioso em todos os elos, eu moro no interior em um bairro muito silencioso. Combina-se a isso a cápsula Le Son fazer uma leitura que pouco ruído de superfície pega, graças à sua agulha shibata bastante fina, e ao toca-discos MoFi também prezar muito pelo silêncio mecânico transmitido durante seu uso (comparável à toca-discos extremamente mais caros e maiores).
Nesse cenário, eu pus para tocar prensagens japonesas da Denon que eu tenho, que estão em absoluto e total perfeito estado – parecem mais zero km do que um LP novo. O resultado é fantasmagórico em matéria de silêncio, de tal maneira que aconteceu várias vezes de eu achar que a tecla Mute do amplificador estava apertada! E tomar até alguns pequenos sustos.
Claro, a inteligibilidade e as camadas, ambiência e detalhamento resultam realmente especiais, por isso.
O nome iFi Audio vem, sim, do mesmo uso da letra ‘i’ em inglês como a terminologia moderna que a Apple inventou com o iPhone: ‘interactive’ Phone. No caso da empresa de áudio é ‘interactive Fidelity’, no sentido de ‘personal fidelity’.
A iFi, fundada em 2012, é uma subsidiária da inglesa AMR – Abbingdon Music Research, que desde 2000 produziu amplificadores e DACs hi-end que misturam tecnologias modernas com válvula. A própria iFi, entretanto, prefere voltar-se a produtos carregados de pesquisa, desenvolvimento e tecnologia, mas sempre com preços mais acessíveis – buscando um nicho diferente de mercado, um no qual eu acho que eles estão ficando bem solidificados.
A mais recente versão de seu pré de phono é o ZEN Phono 3, um aparelho de pequenas dimensões e preço bastante acessível em seu nível de qualidade, que parece ser construído para usar como arma em defesa pessoal contra gigantes mitológicos: o aparelho dá uma enorme sensação de solidez no manuseio.
Ele é alimentado por uma fonte externa de 5V (que conecta direto na tomada) com o plug padrão de conexão no aparelho com o positivo no centro – e isso significa que upgrades da fonte são fáceis, variados e ‘obrigatórios’.
E quando eu digo ‘Obrigatórios’, é porque o ZEN Phono 3 literalmente implora por uma fonte mais parruda.
A própria iFi fabrica fontes especiais (que já estão na minha lista de interesses para ouvir), mais fortes e com filtragem de ruídos – como a iPower X, com maior capacitância – especialmente oferecidas como upgrades óbvios para seus aparelhos. E pelo menos dois modelos estarão disponíveis também no Brasil. Ou seja, o ZEN Phono 3 já vem com pelo menos duas possibilidades de upgrade fácil e rápido para quem incorporá-lo em seu sistema. Já está nele um caminho para melhorá-lo ao longo dos meses ou ano seguinte.
Os recursos todos que o ZEN Phono 3 traz, estão todos claramente especificados e acessíveis pelos paineis frontal e traseiro do aparelho: seleção para cápsulas MM (Moving Magnet) e MC de saída alta com o ganho correto e carga resistiva ideal
O painel traseiro tem uma entrada e uma saída via plugs RCA, tradicional, uma saída balanceada com plug 4.4mm (que eu não usei) e a entrada da fonte de alimentação – e uma chave de 4 posições facilmente manipulável com os dedos, onde você seleciona o ganho para: MM, MC de saída alta (que normalmente liga em MM mas que têm facilmente metade da voltagem de uma MM padrão), MC de
saída baixa ‘normal’ (que são a maioria, inclusive a minha, que oscilam entre 0.20 e 0.5mV, usualmente), e MC de saída ultra-baixa (como existem algumas super especializadas hoje, e várias antigas como uma Ortofon que eu tive que tinha 0.1mV de saída e precisava de pré especial ou de um pequeno transformador step-up).
Ou seja, um jogo de ligações e seleções de ganho completo e racional.
No painel frontal, além do liga/desliga, há um botão para que, quando estiver selecionado MM no painel traseiro, você escolha se ficará com a capacitância em 100uF ou 200uF, para ajuste fino. Quando selecionada, atrás, o ganho para MC baixa e ultra-baixa, esse botão na frente permite selecionar a carga resistiva – algo essencial para tirar o melhor som desse tipo de cápsula – entre 1kohms, 400ohms e 100ohms, o que cobre as necessidade gerais de quase qualquer cápsula do tipo. As mais modernas, como a Le Son LS10 MkII que eu uso, geralmente ficam perfeitas tocando com uma carga próxima de 100ohms, e não foi diferente aqui usando o ZEN Phono 3.
E aí tem um último botão, para acionar um filtro subsônico – e no caso da iFi, é um Filtro Subsônico Inteligente.
FILTRO SUBSÔNICO INTELIGENTE
O ZEN Phono 3 possui um filtro projetado para eliminar a oscilação e o ruído no woofer causados por deformação do disco, mas sem cortar as frequências graves musicais legítimas ou alterar a fase.
O sistema distingue entre o conteúdo lateral de graves musicais e os movimentos verticais de baixa frequência causados por discos deformados ou irregulares. Então identifica e remove apenas os ruídos indesejados e mecânicos, deixando intactos os tons graves e médios-graves, evitando as anomalias de fase e a perda de impacto rítmico comuns nos filtros de ruído tradicionais com corte abrupto.
Eu não consegui testar a real eficácia desse filtro complexo da iFi, pelo simples motivo que, ao mesmo tempo que o MoFi StudioDeck pouco ou nada causa ruídos subsônicos, as caixas têm woofers cujo projeto concêntrico propositalmente evita que eles se movimentem muito, para que não interfiram na dispersão do tweeter.
Me vi frustrado por isso.
Mas, ao acionar o botão, não senti perdas de graves nos discos que ouvi.
COMO TOCA
Em poucas palavras? Limpo, correto, ‘organizado’, sem colorações ou invenções – e bonito, quando reproduzindo bons discos!
Equilíbrio tonal – É exemplar, mas sem puxar nada, ou embelezar nada para lugar algum, o que pode não agradar quem procura algumas colorações ou brilhos específicos que espelham seus gostos pessoais ou necessidades de ajuste fino em seus sistemas. Vi alguns reviews onde obviamente o escritor se sentia mais feliz se o som do ZEN Phono 3 puxasse para uma luz a mais nos agudos, por exemplo. A assinatura dele é, no entanto, bem plana e suave – tanto que, com um pouco mais de corpo e vivacidade, perdendo um pouco dessa ‘secura’, praticamente o qualificaria como Neutro.
Soundstage – Tudo é muito bem separado e recortado na apresentação musical, mesmo em discos mais comerciais, como o primeiro da banda inglesa Dire Straits. A sensação de arejamento e de profundidade, surpreendeu.
Textura – Intencionalidades de cada instrumentista, assim como qualidades e tipos de cada instrumento – como diferenças entre
peças de bateria, ou entre mais de uma guitarra na mesma faixa, são claras. Divertido perceber, ainda no primeiro disco do Dire Straits, as escolhas de mixagem e equalização de cada instrumento, ao compor o palco, e como isso varia de faixa para faixa em um mesmo disco.
Dinâmica – A dinâmica não é visceral em nenhum momento – não há sensação de compressão, e nem de lerdeza, mas a clareza procurada no projeto foi mais importante que essa vivacidade que muitos procuram na macrodinâmica (que deve melhorar com os upgrades de fonte ‘obrigatórios’). Já a microdinâmica, a percepção de detalhes é quase cirúrgica com o enorme silêncio de fundo desse pré.
Transientes – Tempos, ataques, decaimentos, ritmos, tudo correto – e, inclusive seu papel nas intencionalidades, trabalha muito bem com as texturas.
Corpo harmônico – O corpo do iFi é bastante correto, sem engordar onde não existe – o que pode fazer algumas gravações de menor qualidade soarem um pouco magras.
Organicidade – Esse quesito dependerá exclusivamente da qualidade da gravação do disco usado, já que ele não embeleza nenhuma informação que chega nele.
CONCLUSÃO
A escolha que fiz de cápsula para avaliá-lo não é a melhor para seu uso diário à medio e longo prazos. Explico: usei uma Moving Coil saída baixa de alto nível de qualidade, que custa cinco vezes o preço do pré. Minha intenção era avaliar até onde o aparelho poderia chegar.
E isso eu descobri: ele foi feito, na minha opinião, para ser correto e mais ‘neutro’ – haja visto uma preocupação sabida da empresa com estar o mais próximo possível da curva de equalização RIAA. Porém, para usá-lo em sua plenitude, em um sistema dentro de sua categoria de preço, ele vai tocar mais bonito e interessante – e com mais vivacidade – com uma cápsula com uma sonoridade mais cheia, mais brilhante e mais pulsante – como uma Moving Magnet intermediária! E com uma fonte mais parruda.
O ZEN Phono 3 da iFi Audio é o mais avançado, pensado, bem projetado e trabalhado pré de phono de entrada – e em seu preço duvido achar algo mais refinado – porém, ele ainda é para sistemas de entrada, e o casamento correto, como dito acima, e o que vai dar o resultado mais interessante.
E falo aí, mesmo, do Fator de Encantamento. Por que esse equilíbrio, que não traz calor ou brilho onde não tem, não – e isso, muitas vezes, não é o caminho mais desejável para muitos, que não gostam disso porque procuram compensar deficiências do sistema na escolha e configuração de suas fontes (seja analógica, seja digital). E eu considero que o melhor caminho é buscar o equilíbrio, correção e limpeza do ZEN Phono com uma cápsula MM que privilegie, por exemplo, graves mais cheios e agudos mais pronunciados, mas com excelente definição.
Assim, garante-se um analógico limpo, correto e silencioso de alta qualidade para o gasto que foi feito.
E com alguns caminhos óbvios e fáceis para futuros upgrades!
LISTA DE EQUIPAMENTOS UTILIZADOS:
PONTOS POSITIVOS
Silencioso, bem construído, bastante correto e equilibrado para o preço.
PONTOS NEGATIVOS
Para tirar seu melhor nos sistemas para onde foi projetado, precisa de uma boa escolha de cápsula.
ESPECIFICAÇÕES
| Configurações de ganho | MM (36dB), MC High (48dB), MC Low (60dB) e MC V-Low (72dB) |
| Impedância de entrada | MM/MC Alta (47kΩ com capacitância de 100/200pF), MC Baixa/V-Low (1kΩ, 400Ω ou 100Ω selecionável). |
| Resposta de frequência | Balanceada 20Hz a 80kHz (-3dB), Single-Ended 20Hz a 20kHz (-0,15dB) |
| Ruído de entrada equivalente (EIN) | -151dBV |
| Separação de canais | 75dB a 1kHz |
| Precisão RIAA | Tolerância de ±0,15dB na faixa de 20Hz a 20kHz |
| Entradas | 1 par RCA estéreo, 1 terminal de aterramento |
| Saídas | 1 par RCA estéreo, 1 saída balanceada de 4,4 mm |
| Requisitos de alimentação | DC 5V / 0,5A (polo positivo no centro do pino da fonte) |
| Consumo de energia | ~1,5 W (sem sinal), ~1,8 W (sinal máximo) |
| Dimensões (L x A x P) | 158 x 35 x 115 mm |
| Peso líquido | 456 g |