Teste 4: PRÉ-AMPLIFICADOR DE PHONO IFI ZEN PHONO 3
5 de agosto de 2026
Teste 2: CAIXAS ACÚSTICAS ODEON ORFEO S
5 de agosto de 2026

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br

A Analog Relax é um fabricante japonês especializado em cápsulas de bobina móvel (MC), produzidas artesanalmente, além de desenvolver acessórios voltados à reprodução analógica.

Seu fundador, Yasushi Yurugi, é músico, professor, saxofonista, ávido colecionador de discos e apaixonado por jazz. Admirador do lendário saxofonista Zoot Sims, chegou inclusive a fundar, no Japão, o fã-clube dedicado ao artista.

A música sempre esteve presente em sua vida desde muito cedo. Essa ligação profunda com a arte e sua paixão pela reprodução analógica o conduziram ao desenvolvimento de suas cápsulas, cuja filosofia tem como princípio a busca pela riqueza tímbrica, pelo ritmo e pela precisão.

Sempre que é questionado sobre o “caráter sonoro” de seus produtos, Yurugi deixa claro que, em sua opinião, a melhor forma de ouvir música com emoção continua sendo por meio dos LPs.

Imagino que essa afirmação provoque verdadeiras urticárias nos objetivistas mais ortodoxos, já que muitos deles, inflando o peito, afirmam que os LPs sequer deveriam ser considerados equipamentos Hi-Fi.

Toda vez que escuto ou leio essa afirmação – pela milésima vez – simplesmente rebobino a história da alta fidelidade em minha mente e me pergunto: o que teria sido do CD se, em seu lançamento, não tivéssemos a referência da reprodução analógica para perceber o quanto o digital era limitado em seus primeiros anos?

E quanto tempo foi necessário para corrigir boa parte daqueles descalabros sonoros de sua origem.

O modelo EX700 ocupa exatamente a posição intermediária da linha da Analog Relax. Abaixo dele estão os modelos EX300 e EX500 – e acima, os EX1000 e EX2000.

Quando a Ferrari Technologies confirmou que seria a distribuidora oficial da marca no Brasil, solicitei justamente o envio da EX700. Minha escolha ocorreu em razão de algumas soluções adotadas por seu projetista e por apresentar características bastante particulares em relação aos demais modelos da linha.

Sua bobina utiliza fio de cobre de alta pureza. O corpo é confeccionado em madeira de abeto, proveniente da região do Tirol do Sul, no norte da Itália, recebendo acabamento em verniz.

O cantilever é fabricado em boro maciço – enquanto os modelos inferiores utilizam alumínio e os superiores empregam hastes de rubi (EX1000) e diamante (EX2000).

A agulha possui perfil Line Contact, assim como nos modelos superiores, porém recebe múltiplos cortes verticais multifacetados, permitindo uma leitura extremamente precisa, com baixíssima distorção. Além disso, sua extremidade apresenta diferentes curvaturas frontais, proporcionando uma excelente relação sinal-ruído.

O corpo da EX700 é idêntico ao da EX2000. O abeto utilizado é cortado em dimensões específicas para a fabricação das cápsulas e permanece em processo de envelhecimento natural por aproximadamente vinte anos, antes de ser fornecido tanto à Analog Relax quanto aos fabricantes de instrumentos musicais.

O grande desafio do cantilever de boro está na dificuldade de perfurar seu diminuto orifício para a inserção da ponta de diamante. O método mais comum utilizado por outros fabricantes consiste na aplicação de adesivo. Entretanto, esse sistema pode perder

eficiência ao longo do tempo, já que cápsulas também estão sujeitas aos efeitos da umidade, da salinidade e das bruscas variações de temperatura ambiente.

Para solucionar essa limitação, a Analog Relax desenvolveu um sistema que adiciona uma microscópica placa metálica ultrafina à extremidade da haste de boro, reforçando mecanicamente a fixação da agulha e garantindo sua estabilidade mesmo sob severas variações climáticas.

O fabricante explica que a escolha da madeira de abeto ocorreu justamente por suas excelentes propriedades de ressonância, amplamente comprovadas na construção de instrumentos como violinos, violoncelos, guitarras e pianos.

A primeira pergunta que eu faria ao Sr. Yurugi seria: “O que surgiu primeiro: o nome da empresa ou o primeiro produto acabado?”

Ao ouvir a EX700 durante vários dias, concluí que o nome Analog Relax sintetiza perfeitamente a filosofia por trás do produto.

Essa constatação nos trouxe uma dificuldade pouco comum: antes de simplesmente apreciar suas extraordinárias qualidades sonoras, era necessário cumprir nosso dever de casa e analisá-la de maneira criteriosa.

A EX700 praticamente impede o ouvinte de permanecer concentrado por muito tempo na avaliação isolada de cada item de nossa Metodologia, buscando compreender racionalmente suas características e diferenças em relação aos concorrentes diretos.

Ela nos conduz quase instantaneamente ao prazer da audição, fazendo com que discos já ouvidos centenas de vezes, em inúmeros sistemas de diferentes níveis de preço e desempenho, pareçam completamente renovados.

Esse é justamente o tipo de produto que mais trabalho nos dá durante uma avaliação. Somos obrigados a realizar sessões curtas de audição, pois, caso contrário, inevitavelmente acabamos ouvindo muito mais do que a faixa prevista, comprometendo todos os prazos do teste.

Vou dar apenas um exemplo para que você compreenda a dimensão desse ‘problema’.

Paul Simon – The Rhythm of the Saints (prensagem nacional), lado A, faixa Further to Fly.

O que predomina em cerca de 90% dos sistemas analógicos nos quais ouvi essa faixa é, naturalmente, a voz de Paul Simon em primeiro plano, acompanhada pela marcante condução rítmica do arranjo.

Aliás, basta observar o time de percussionistas que participou dessa gravação: Naná

Vasconcelos, Dom Chacal e Mingo Araújo, além do violonista Rafael Rabelo, que executa um breve, porém belíssimo, solo.

Os metais sempre me soaram ligeiramente embolados sobre a cama harmônica criada pelos sintetizadores, levando-me durante muitos anos à impressão de que essa havia sido uma escolha deliberada tanto do engenheiro de gravação quanto do próprio Paul Simon.

Pouquíssimas cápsulas que avaliaram acima de 105 pontos em nossa Metodologia conseguiram revelar, nessa verdadeira ‘névoa sonora’ formada entre metais, voz, percussões e violão, pequenos fragmentos de cada instrumento individualmente. No entanto, essa capacidade quase sempre fazia com que minha atenção se desviasse da música como um todo.

Eu me dava por satisfeito ao perceber esses detalhes e registrava essa observação apenas como um aspecto de menor relevância para a avaliação.

Com a EX700, entretanto, ocorreu exatamente o contrário.

Pela primeira vez, o que imediatamente chamou minha atenção não foram os detalhes isolados, mas a beleza do arranjo e a extraordinária forma como ele foi construído e executado.

Finalmente, o conjunto pôde ser apreciado em sua totalidade, sem que qualquer elemento se destacasse de maneira artificial ou desproporcional.

Foi uma leitura tão diferente dessa gravação que me levou a revisitar uma longa série de discos nos quais esse mesmo comportamento sempre esteve presente e que eu já considerava uma característica definitiva das gravações.

Outro exemplo que me acompanha há quase cinquenta anos é o LP Foxtrot, do Genesis. Trata-se de uma prensagem inglesa original.

Durante muitos anos, utilizei justamente esse disco em nossos Cursos de Percepção Auditiva – no módulo dedicado à reprodução analógica (Nível 2) – para demonstrar aos participantes as diferenças entre a prensagem nacional e a importada, evidenciando o quanto diversas edições brasileiras recebiam alterações de equalização.

Utilizo praticamente todo o lado B desse LP, pois a principal deficiência da prensagem nacional sempre foi a falta de corpo nos graves, especialmente no contrabaixo, no bumbo da bateria e nos teclados.

Na edição inglesa essa limitação é bastante reduzida, embora permanecesse aquela sensação de que ainda poderia haver um pouco mais de peso e densidade.

Pois bem… meu desejo finalmente foi atendido.

Pude ouvir Foxtrot como jamais havia escutado antes.

Foi nesse momento que comecei a ter sérias dificuldades para definir a assinatura sonora da EX700.

Na minha percepção, ela não se encaixa entre as cápsulas de perfil excessivamente transparente, tampouco pode ser classificada como uma cápsula eufônica.

Aceitar racionalmente que uma cápsula capaz de proporcionar tamanho prazer musical pudesse, ao mesmo tempo, ser absolutamente neutra pareceu, durante vários dias, uma verdadeira contradição.

Como os prazos precisavam ser cumpridos, concluí as cinquenta horas de amaciamento e iniciei a avaliação definitiva utilizando todas as faixas previstas em nossa Metodologia, deixando essa dúvida para o final do teste.

Durante toda a avaliação utilizei nosso Sistema de Referência.

Ao término dos testes, resolvi ouvir novamente a EX700 utilizando o pré de phono Moonriver 505 (cujo teste publicaremos em breve). Foi justamente nesse momento que minhas dúvidas aumentaram.

O Moonriver possui uma assinatura sonora bastante distinta da do Soulnote E-2 SE, nosso pré de phono de referência.

Minha intenção era utilizar essa diferença justamente para compreender melhor a personalidade sonora da EX700. No entanto, a combinação entre ambos mostrou-se tão sedutora que, em vez de esclarecer minhas dúvidas, acabou criando novas perguntas.

O equilíbrio tonal da EX700 é simplesmente notável.

Os graves apresentam energia, controle e definição em um nível que inevitavelmente nos faz questionar por que outras excelentes cápsulas não conseguem atingir esse mesmo patamar.

A região média impressiona por sua absoluta naturalidade, fazendo com que nosso cérebro se concentre instantaneamente na música, sem qualquer esforço.

Já os agudos possuem extensão suficiente para permitir que se acompanhe todo o decaimento natural capturado pela gravação.

Os planos sonoros, especialmente em gravações de música clássica, impressionam pelo foco e pela perfeita delimitação de cada naipe da orquestra. A precisão com que cada grupo de instrumentos é posicionado no palco sonoro faz deste um dos aspectos mais marcantes para quem jamais teve a oportunidade de ouvir um sistema analógico verdadeiramente Estado da Arte.

O célebre quarto movimento da Nona Sinfonia de Beethoven é um excelente exemplo. A entrada dos contrabaixos, projetando-se quase um metro além do canal direito, surge com corpo, energia e definição capazes de arrepiar.

Em seguida, os solistas aparecem perfeitamente focalizados entre as caixas acústicas, ocupando o centro do palco. Logo atrás, o grande coro forma uma imensa parede de vozes que se estende de uma extremidade à outra da cena sonora. É uma apresentação que merece ser apreciada em absoluto silêncio e profundo respeito por todos os envolvidos em uma gravação de tamanha complexidade e excelência técnica.

Com essa única faixa, consigo concluir a avaliação de qualquer componente analógico nos quesitos soundstage, corpo harmônico e macrodinâmica.

Um único exemplo basta.

E a EX700 reproduziu esse quarto movimento de maneira simplesmente exemplar.

Poderia, inclusive, utilizar essa mesma gravação para avaliar o quesito textura, afinal, todos os naipes da orquestra participam intensamente da execução.

Ainda assim, prefiro reservar esse critério para um disco que possui enorme valor afetivo para mim: September of My Years, de Frank Sinatra, o LP que meu pai mais apreciava. Trata-se de uma gravação primorosa do selo Reprise Records.

Utilizo a faixa-título, com seu delicado arranjo para orquestra de cordas servindo de base harmônica à voz de Frank Sinatra, no auge de sua carreira.

As texturas apresentadas nesse disco exibem uma riqueza tímbrica verdadeiramente admirável.

É possível perceber com clareza a beleza dos arranjos, os pequenos solos instrumentais e toda a expressividade da voz inconfundível de Sinatra. Sua técnica vocal, aliada à maneira como utiliza intencionalmente cada palavra para transmitir emoção, transforma essa gravação em uma referência permanente.

As sutis variações de entonação e o controle impecável da respiração demonstram um domínio vocal absolutamente extraordinário.

Para a avaliação dos transientes, recorro a dois LPs que me acompanham há quase meio século: The Köln Concert, de Keith Jarrett, e A Handful of Beauty, do Shakti.

São duas obras extremamente exigentes em termos de precisão temporal, complexidade rítmica e virtuosismo interpretativo.

A EX700 reproduziu ambos os discos com tamanha autoridade e naturalidade que cada nota pôde ser apreciada com absoluta inteligibilidade, sem qualquer sensação de atropelo ou confusão.

Nessas gravações, não basta apenas executar cada nota no tempo correto. É necessário que o sistema preserve espaço suficiente para que nosso cérebro consiga acompanhar, compreender e apreciar toda a complexidade musical presente em cada passagem.

Como utilizei o quarto movimento da Nona Sinfonia de

Beethoven para concluir a avaliação da macrodinâmica, ouvi apenas o quinto movimento da Sinfonia Fantástica, de Berlioz, muito mais por curiosidade do que por necessidade metodológica.

Queria apenas verificar se a EX700 apresentaria alguma surpresa em uma obra cuja interpretação conheço profundamente.

Mais uma vez, fui surpreendido.

Nesse exemplo, impressionaram-me muito mais a riqueza das texturas instrumentais e a consistência do corpo harmônico do que propriamente a apresentação dinâmica.

A Nona de Beethoven já havia respondido plenamente às minhas expectativas nesse aspecto.

Assim, utilizei a Sinfonia Fantástica para concluir a avaliação do corpo harmônico e retornei novamente ao LP de Frank Sinatra para analisar o quesito organicidade.

A EX700 possui uma rara capacidade de materializar, dentro da sala de audição, tudo aquilo que há de melhor nas gravações de qualidade.

Você literalmente vê a música acontecer diante de seus olhos, transformando cada audição em uma experiência memorável, capaz de permanecer viva na memória por muitos anos.

Agora imagine poder repetir essa experiência sempre que desejar.

Diante disso, fica uma pergunta inevitável: “Não vale a pena investir em uma cápsula capaz de proporcionar esse nível de refinamento?”

CONCLUSÃO

Não faço ideia do desempenho dos dois modelos posicionados acima da EX700 na linha da Analog Relax.

O que posso afirmar é que, para minhas exigências e dentro da minha realidade como editor e melômano, a EX700 atende integralmente a todas as minhas expectativas.

Somente após concluir todas as audições previstas em nossa Metodologia consegui compreender, de fato, sua assinatura sonora.

Sua apresentação é tão coerente, orgânica e realista que, em um primeiro momento, temos a impressão de estar diante de uma cápsula com uma personalidade mais musical do que analítica.

À medida que ouvimos passagens complexas – aquelas que, em outras excelentes cápsulas, costumam soar ligeiramente ‘nebulosas’ – surge naturalmente a impressão de que ela seja simplesmente mais transparente.

E é justamente aí que reside o equívoco.

A EX700 não impressiona porque colore, enfatiza ou privilegia determinados aspectos da reprodução. Ela impressiona porque faz exatamente o contrário.

Trata-se de uma cápsula absolutamente neutra, cuja única preocupação é realizar a leitura da informação gravada com o mais elevado grau de fidelidade possível.

Se, depois dela, o ouvinte desejar acrescentar algum tipo de ‘tempero’ ao sistema, essa será uma escolha exclusivamente sua.

A EX700 não impõe personalidade nem mascara a gravação. Apenas reproduz, com extraordinária precisão, tudo aquilo que está registrado no sulco do disco.

E é justamente essa honestidade que a torna uma cápsula tão diferenciada.

Tão genuína.

Se você procura redescobrir sua coleção de LPs com um nível raro de emoção, naturalidade e realismo, a EX700 merece estar entre as principais candidatas à sua próxima audição.

EQUIPAMENTOS UTILIZADOS NO TESTE

  • Caixa Acústica: Estelon X Diamond MkII (clique aqui)
  • Cabo de interconexão: Dynamique Audio Apex 2 (clique aqui)
  • Cabos de força: Dynamique Apex (clique aqui), Transparent Audio XLPC2 & Opus G6 (clique aqui)
  • Fonte Digital: NADAC C / NADAC D (clique aqui)
  • Plataforma anti-vibratória: Seismion Reactio-2 (clique aqui)
  • Powers: Monoblocos Nagra HD (clique aqui)
  • Pré-amplificador Nagra II-S (clique aqui)
  • Pré de Phono: Soulnote E-2 SE (clique aqui)
  • Streamer: Nagra (clique aqui)
  • Toca-discos: Zavfino ZV11X (clique aqui)
  • Transporte CD: Nagra

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