

Christian Pruks
christian@avmag.com.br
Todo mês um LP com boa música & gravação
Gênero: Eletrônico / Progressivo / Ambient
Formatos Interessantes: Vinil Importado
A maior parte das vezes que seleciono um disco para indicar aqui, é porque estou ouvindo o dito disco naquele momento, ou nesses dias.
E olhando em retrospecto, vejo sim que a lista de LPs indicados é uma salada mista servida em prato de carnívoro… hehehe. Por isso, peço desculpas àqueles que buscam aqui alguma constância – porém, é preciso ver que eu sou eclético pacas, e que onde têm muitos leitores, têm múltiplos gostos musicais diferentes.
Tenho certeza que muitos batem o olho no título aqui, exclamam “báh!” e pulam para próxima matéria – mas, ainda assim, alguém sempre me agradece a indicação, seja por conhecer algo novo, seja por gostar do gênero sem conhecer exatamente esse artista ou disco. E hoje em dia é possível ouvir primeiro a música em seu celular ou computador, antes de comprar, para ver se interessa – sem prejuízos.
Jarre – assim como quase todo o eletrônico progressivo do final da década de 70 e começo de 80 – não é para todos…
Dentro da minha educação musical em rock progressivo, isso no começo da década de 80 (na década anterior eu era muito criança), eu sempre gostei de ouvir Jean-Michel Jarre e Vangelis – além de outros expoentes da música eletrônica da época que sempre tiveram um claro pé dentro do progressivo, ou foram claramente influenciados por esse gênero, ideias e cenário criativo.
Acho engraçado, entretanto, que demorou-se muito tempo para o mundo adotar o atmosférico termo ‘Ambient’ para uma série de expoentes de eletrônico, como hoje chamam os primeiros discos do Jarre. E só nos últimos tempos fui ver que se referiam esses trabalhos com essa alcunha. Não me incomoda, porque eu gosto de várias coisas desse sub-gênero, só acho que esse disco não é muito Ambient. Assim como ele recebeu também o rótulo de Minimalista (que ele não é), de Synth-pop (que ele definitivamente não é), e de Abstrato.
E aqui fui buscar a definição: “Música Abstrata é aquela que não tenta representar uma história, um objeto do mundo real ou conter letras – seu foco é puramente nos elementos sonoros”.
OK, Magnetic Fields é, sim, música abstrata.
Os primeiros anos do Jarre tendo discos lançados no mundo inteiro, são os mais interessantes, pois essa época tinha teclados e sintetizadores aparecendo para tudo quanto é lado, em sua maioria analógicos e com grande personalidade sonora. E que depois foram chamados por muitos de limitados perante a chegada do MIDI e dos Samplers ao mercado popular durante a década de 80 – esses sim seriam muito mais versáteis, com muito mais possibilidades e recursos.
Mas eu sou dos que acreditam que as possibilidades dos sintetizadores mais ‘limitados’ faziam com que o músico se focasse mais na composição e arranjo, mais no trabalho dele de extrair o melhor, e menos no poderio do instrumento – como se o instrumento fosse salvar a música sozinho.
Ainda assim, sendo Magnetic Fields o terceiro disco ‘comercial’ de Jarre, distribuído mundialmente, ele traz um pouco da sonoridade e estilo de criação dos dois primeiros – Oxygène e Equinoxe – mas com alguns teclados mais atualizados, como o caríssimo e exclusivo Fairlight CMI, o primeiro Sampler digital, então recém lançado, que foi projetado e construído na Austrália.
Além do Fairlight, neste disco Jarre utilizou: MDB Polysequencer, RSF Kobol, Oberheim OB-X, ARP 2600, EMS Synthi AKS, EMS
Synthi VCS3, Korg KR 55, Elka 707, Eminent 310U, Moog Taurus Pedal Synthesizer, Electronic Music Studios (EMS) Vocoder 1000, Korg VC-10, e Electro-Harmonix Echoflanger.
Essa melhor ‘sonoridade Jarre’ – que tem mais a ver com o criativo, com a composição – para mim, estende-se até 1988, com os títulos ‘obrigatórios’: Oxygène, Equinoxe, Magnetic Fields, Rendez-Vous, e Revolutions. E com alguns trabalhos e criações especiais aqui e ali, de lá para, como continuações de Oxygène e de Equinoxe.
Jean-Michel André Jarre, nasceu em 1948 na cidade de Lyon, no noroeste da França, de uma mãe que foi parte da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra, de uma avó judia e um avô oboísta. Seu pai famoso, o compositor Maurice Jarre, deixou a família quando ele tinha 5 anos de idade – e ele só viu o pai de novo aos 18 anos de idade.
Jarre estudou piano clássico desde criança, e sempre teve interesse em instrumentos antigos ou com sons diferentes, como o violinofone (um violino amplificado através de uma corneta) – assim como a música clássica do século 20, como Stravinsky, tornou-se uma paixão.
Na juventude, tocou guitarra e flauta, até obter seu primeiro sintetizador, o Moog modular, seguido pelo Synthi AKS e o VCS 3 – ambos da EMS. E com seu estúdio caseiro fez trilhas, jingles para publicidade, música incidental e para balé, e compôs música e letras para conhecidos artistas franceses – até gravar em casa seu primeiro disco completamente autoral, o Oxygène. E o resto, como diz o ditado, é história.
CURIOSIDADES
O título original do álbum em francês é “Chants Magnétiques”, que significa “Canções Magnéticas”, que é um trocadilho em homenagem à obra de literatura surrealista “Les Champs Magnétiques”, de 1920 – que significa, efetivamente “Campos Magnéticos”.
Ao ser traduzido o título para o inglês, virou “Magnetic Fields”, em vez de ‘Magnetic Songs”, como deveria ser – e ninguém sabe quem cometeu o erro, e muito menos porquê deixaram ficar…
No ano do lançamento do disco, a Embaixada Britânica mandou cópias de Magnetic Fields para a Rádio Beijing, que acabou sendo a primeira música ocidental a tocar lá em muitos anos. Como resultado, o governo chinês convidou Jarre a se apresentar ao vivo no país – o primeiro ocidental a tocar lá desde a morte do líder Mao Tsé-Tung – cuja gravação originou o excelente disco Concerts in China (Polydor, 1982).
Para quem é esse disco? Para todos os fãs do eletrônico instrumental pioneiro, atmosférico, e às vezes hipnotizante da década de 70, como os discos da Escola de Berlim (amplamente difundido por bandas como o Tangerine Dream) e bastante ligado ao movimento do rock progressivo.
Prensagens interessantes? Originalmente publicado na França – e alguns outros países – pelo selo Disques Dreyfus, o Magnetic Fields foi prensado e distribuído mundo afora pela Polydor, como todos os discos do Jarre. A prensagem brasileira não é ruim, não, mas eu procuraria uma prensagem alemã, inglesa, americana ou, claro, uma japonesa! Já ouvi alguns discos do Jarre em prensagem japonesa, e valem cada centavo!
E que agosto seja ainda mais cheio de música!