Opinião: REVIEW DE SALSICHA PREMIUM:UMA ANALOGIA INTERESSANTE

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Christian Pruks
christian@avmag.com.br

Um passatempo, ou gosto pessoal meu, é por comida de boa qualidade, comida interessante.

Não me considero gourmet, e sim um gourmand, um apreciador – e me lembro sempre que um dos pratos preferidos de um dos grandes e conhecidos chefs de cozinha brasileiros, dono de vários restaurantes especiais e chiques, é: salsicha!

E, vejam, existem ‘salsichas’ e ‘salsichas’ – e algumas são quase gourmet, e têm sabor de carnes temperadas mesmo, sabor de coisas feitas em casa, como pode-se apurar no país da salsicha e variações, a Alemanha, por exemplo.

Enfim, um canal/site/página/grupo – um ‘coiso’ de Internet – que testa a qualidade de produtos alimentícios de maneira semi-subjetiva, faz vídeos com rankings de produtos: o melhor ketchup, maionese, macarrão instantâneo, etc.

E a melhor salsicha. Como existem diferenças cabais entre as salsichas super-industrializadas, existem também diferenças entre as salsichas de marcas especiais, as ‘quase gourmet’, as feitas no estilo alemão, por empresas com nomes alemães.

Então meu interesse no ranking deles da qualidade de sabor das salsichas era saber qual das ‘estilo europeu’ seria a melhor. Comecei a ver o vídeo, e o último lugar ficou para uma salsicha de marca muito boa (a melhor para mim comparando com as alemãs) que ficava para trás no ranking porque, apesar de ter o sabor bom, tinha menos tempero do que o esperado (balela forte) e porque “faltava personalidade na salsicha”. Já começou mal, com uma premissa errada – isso porque é um ‘especialista’.

A seguinte ele disse que é melhor porque “ela lembra mais a textura de uma salsicha tradicional com a qual a gente está acostumado em um cachorro-quente normal”. Novo erro, e esse é cabal!

O sujeito não é especialista nenhum em salsicha, não entende como é uma salsicha real, não entende o que faz algo ser “bom” e o que faz algo ser “ruim”.

E acha que as super-industrializadas do nosso dogão são algum tipo de ‘Referência’ – que é como dizer que um amplificador hi-end não é bom porque ele não soa apagado e sujo como um amplificador velho fuleiro.

É uma inversão de valores, promovida por ignorância voluntária e falta de Referência boa e real. E eu acho isso lamentável e um péssimo serviço prestado ao consumidor interessado (tanto o da salsicha quanto o do amplificador).

Essa mania de ter a Referência errada – ou simplesmente não ter Referência – não é algo raro e pouco difundido, e sim algo endêmico. Toda hora vejo exemplos, há anos.

Tanto que vivo dizendo que todo audiófilo sério que vá avaliar equipamentos e montar sistemas – tanto o consumidor final quanto o profissional da área – têm que, absolutamente, se dedicarem a ter Referência e algum tipo de Metodologia.

Outro dia, um profissional da área, que insiste em não ter Referência de como a música real soa, testou um par de caixas de uma marca mais obscura, com discos de pop antigos mal gravados, e chegou à conclusão de que a caixa é ótima. Veja, esse profissional é bem intencionado, procura ter uma mínima metodologia, mas insiste em não ter Referência alguma de real qualidade – e resulta em algo como querer fazer comida gourmet com miojo e salsicha super-industrializada.

Não dá para chegar à compreensão, e muito menos à conclusões factíveis e corretas! Daí que vem o ‘desfecho’ dessa específica história:

Um outro reviewer, com Referência, testou a mesma caixa com discos bem gravados, e com ouvido treinado, a apontou erros sonoros que deveriam fazer audiófilos ficarem com o cabelo em pé, porque resultam em distorção do timbre de instrumentos e erros na formação de palco e no equilíbrio tonal da caixa – ou seja, com gravações realmente boas, não são caixas corretas mesmo – e não são baratinhas!

As gravações ruins mascaram esses problemas.

Acontece que cometer esses erros todos engana o consumidor – é um mau serviço ao audiófilo!

Outro caso foi de um luminar de YouTube, que testou meia dúzia de prés de phono baratos, com um ranking do pior para o melhor. Seria um tremendo serviço ao comprador, que poderia escolher seu primeiro pré de phono, ou mesmo um upgrade em cima de algo simples que já tenha, ou em cima do pré de phono interno de seu toca-discos de entrada.

Acontece que o real melhor dentre os testados, não ficou em primeiro lugar pelo mesmo motivo que o faz ser o melhor: tem um bom equilíbrio tonal!

Mas, por quê? Porque o testador gosta de um pré de phono que vai puxar para um conjunto de frequências – como o agudo, por exemplo – o que certamente compensa algum desequilíbrio tonal existente em seu sistema, ou uma completa falta de Referência musical e sonora que causa-lhe um vício auditivo.

É um desse tipo de audiófilo que vai ouvir uma orquestra ou conjunto acústico ao vivo, sem amplificação, e sai dizendo que o “instrumento ao vivo é abafado nos agudos!” – que é uma obscenidade sem tamanho, como usar dentro da sala de casa 11 lâmpadas de 100W e, ao sair na rua, dizer que “o Sol é meio escuro”!

Compreendem a minha indignação? E o valor desse conselho, dessa tecla na qual sempre batemos?

O que diz que o pré ‘bom’ é aquele que dá um som desequilibrado puxando para os agudos, comete um erro como recomendar que o melhor número de sapato é: o pé esquerdo sendo 41 e o pé direito 40 – e doa o pé de quem comprar achando que foi um bom conselho!

O problema de muitos audiófilos é que não associam Referência com a realidade do som musical ou, pior, acham que o som real dos instrumentos não importa, que seu gosto pessoal sobrepõe-se à realidade. Acontece que a realidade do som dos instrumentos é de uma riqueza e detalhamento que mesmo sistemas de milhões ainda não conseguiram atingir.

Referência real musical não é ‘gosto pessoal’, é alta-fidelidade, é o Correto, e carrega consigo uma infinidade de aspectos Qualitativos.

Então, por que raio de motivo muitos audiófilos se recusam a aprender, se recusam a tirar o melhor que seus sistemas podem dar (mesmo sem gastar mais do que já gastaram)?

Não tenho essa resposta…

O tal ‘especialista’ em salsicha não entendeu como é uma salsicha realmente premium, realmente boa. Não entendeu o que faz ela ser boa. Não entendeu que uma coisa super-temperada e processada não é sinônimo de qualidade – muito pelo contrário.

Talvez seja difícil enxergar que o caminho levou muitos dos protagonistas acima, muitas das pessoas que conhecemos neste hobby, à vícios terríveis, como a Inversão de Valores.

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