

Christian Pruks
christian@avmag.com.br
Equipamentos Vintage que fazem parte da história do Áudio
O termo Vintage tem a ver com ‘qualidade’, mais do que ‘ser antigo’. Vem do francês ‘vendange’, safra, sobre uma safra de um vinho que resultou excepcional. ‘Vintage’ quer dizer algo de qualidade excepcional – apesar de ser muito usado para designar apenas algo antigo.
Nesta série de artigos abordamos equipamentos vintage importantes, e que influenciam audiófilos até hoje!
MADE IN JAPAN ‘POR GENTE COM GRANA’
As empresas de áudio ‘consumer’ japonesas ganharam tanto dinheiro tomando o mundo – e pondo pelo menos um aparelho de som por casa na Via Láctea inteira – nas décadas de 70 e 80, que acabaram não só por desenvolver produtos muito especiais, em tiragem limitada (proposital ou não), como também tiveram uma longa série de ideias de tecnologias fenomenais em áudio.
A Kenwood, como praticamente todas as grandes japonesas, em algum momento certamente ia lançar seu super-toca-discos – no caso, o L-07D!
TRIO-KENWOOD L-07D – À FRENTE DE SEU TEMPO!
Uma das mais belas peças do design industrial nipônico de equipamentos de áudio da época áurea do final da década de 70 e começo de 80. E um dos toca-discos mais bonitos até hoje – as pessoas param para olhá-lo!

Eu chamo de ‘Trio-Kenwood’ porque os aparelhos da marca saiam no Japão com a marca Trio no painel, e os mesmos aparelhos saíam no exterior com a marca Kenwood, com poucas exceções. O distribuidor americano que sugeriu o nome Kenwood, e a empresa no Japão acabou, anos depois, mudando o nome totalmente para Kenwood.
O L-07D é um toca-discos de vinil topo de linha – considerado por muitos como um dos toca-discos Definitivos & Absolutos já feitos – com tração direta do motor no prato (Direct-Drive), fonte externa e um braço com acoplamento de headshell tipo universal, e com todas as regulagens – e que é uma obra de arte só de olhar!

O equipamento tem um peso de 35kg, sendo que só a base do braço pesa 3kg, e cada um dos quatro pés reguláveis de bronze pesa 1.4kg, em busca de estabilidade, nivelamento, isolamento e rigidez.
O motor tem torque constante e embuchamento de teflon, o braço é feito de alumínio com fibra de boro e fibra de carbono, e tem VTA on-the-fly. E o prato é feito de um sanduíche de alumínio e duralumínio com uma camada de aço inoxidável em cima.

Aliás, todo ele – braço, base, prato – é pensado para tratamento de ressonâncias, com a base utilizando uma camada de composite de resina e concreto chamado de ARCB, com camada de alumínio e uma camada de madeira de mogno – uma técnica que é considerada moderna até hoje em toca-discos de vinil hi-end!
Ou seja, uma obra-prima de engenharia e design! E isso em 1979!
Ele tinha opções de vir sem braço, com bases em dimensões apropriadas para braços audiófilos da época, como o SAEC japonês e o SME 3009 inglês.
E, completando o quanto ele era avançado, o L-07D também podia trazer um tapete de prato de cerâmica, um clamp de peso, e um anel estabilizador periférico (outer ring) – acessórios que hoje estão em plena voga para se tirar a melhor performance de um toca-discos hi-end. E a Kenwood fez isso em 1979!

Quem desenvolveu tal maravilha ainda é um mistério – já que a própria Kenwood nunca divulgou. Nessa época poucas empresas tinham sua própria equipe de engenheiros interna para projetar e fabricar um toca-discos desse nível, então muitas contratavam especialistas de fora ou consultores – como a Micro Seiki, e como o engenheiro e inventor Takeshi Teragaki, cujos toca-discos Sigma raros e 10 vezes mais caros que o L-07D chegaram a ser comercializados pela EPSON-Seiko.
Segundo a calculadora de inflação, em 1982 o L-07D custava o equivalente a algo entre 4.000 e US$6.000 dólares, em valores de hoje – não muito diferente do que se cobra hoje por um exemplar em bom estado. Porém, hoje um em perfeito estado e totalmente revisado chega a custar US$15.000!
MODELOS SEMELHANTES
Um super-toca-discos japonês das décadas de 70 e 80 seria, na verdade, comparável apenas à um toca-discos moderno, ou à algum outro super-TD japonês da mesma época.
Eu adoraria comparar um desses japoneses com um moderno, usando cápsula moderna e afins – até porque um dos meus sonhos de toca-disco é o Kenwood L-07D!

Apenas alguns poucos toca-discos japoneses têm a engenharia comparável, como o Denon DP-100M, o Sony PS-X9 (outro dos meus sonhos) e o Nakamichi TX-1000, entre outros. São todos raros, caros, colecionáveis e de manutenção complicada.

Qual deles é o melhor? Essa resposta eu adoraria obter um dia! Mas, todos esses são dignos de um estudo, da era de ouro de japoneses com dinheiro e vontade de exceder limites.
COMO TOCA O L-07D
Os depoimentos o consideram como extremamente silencioso, neutro, dinâmico, preciso (muito focado em precisão de velocidade) e com sonoridade detalhada – feito para ser um dos Definitivos & Absolutos.
SOBRE A KENWOOD
A japonesa Trio Corporation foi fundada como Kasuga Radio em 1946, para depois ser rebatizada de Trio em 1960, focada mais em equipamentos para radioamador e faixa do cidadão. Ainda na mesma década, uma sociedade nipo-americana estabeleceu a Kenwood USA, na Califórnia, para importar os equipamentos da Trio para os EUA – e foi essa diretoria americana que resolveu criar o nome Kenwood, onde ‘Ken’ é um nome que é comum tanto ao Japão quanto ao ocidente, e ‘Wood’ referindo-se ao material nobre que é a madeira, e alguns dizem que é uma referência de marketing à Hollywood. E o nome Kenwood já era bem conhecido em países de língua inglesa, já que existem três lugares chamados Kenwood na Inglaterra, e treze distribuídos em vários estados dos EUA.
O fato, também, é que lugares como o Reino Unido comercializavam os equipamentos de áudio da empresa com o nome Trio até os anos 90, por causa da existência local de uma marca inglesa Kenwood que fazia (e ainda faz) equipamentos para a cozinha, como torradeiras, processadores de alimentos e liquidificadores.
Com a marca Kenwood se tornando mais popular que a marca Trio, em 1986 a Trio Corporation comprou a Kenwood USA e rebatizou todos seus produtos e subsidiárias mundiais com o nome Kenwood.
Em 2007, a Kenwood descontinuou sua linha de produtos de eletrônicos de consumo, e em 2008 houve uma fusão de empresas entre ela e a também japonesa JVC. O resultado hoje é a corporação multinacional chamada JVCKenwood – cuja marca Kenwood hoje fabrica tecnologia de comunicação por rádio, sistemas de som para carros, e fones de ouvido sem fio.
Bom maio – e não deixem a música parar!