

Christian Pruks
christian@avmag.com.br
Equipamentos Vintage que fazem parte da história do Áudio
O termo Vintage tem a ver com ‘qualidade’, mais do que ‘ser antigo’. Vem do francês ‘vendange’, safra, sobre uma safra de um vinho que resultou excepcional. ‘Vintage’ quer dizer algo de qualidade excepcional – apesar de ser muito usado para designar apenas algo antigo.
Nesta série de artigos abordamos equipamentos de áudio vintage importantes, e que influenciam audiófilos até hoje!
MADE IN JAPAN BY ENGINEERS
O domínio do Japão sobre o mercado de áudio mundial do começo da década de 70 até a virada para a década de 90, foi espelhado na importância que o aparelho de som tinha (muito maior que hoje) na vida das pessoas, em todos os níveis de qualidade, sendo quase um eletrodoméstico padrão.
E, mesmo nesse cenário, vale sempre lembrar que alguns equipamentos e marcas japonesas faziam parte muito frequente dos racks audiófilos – talvez só não dos mais hiper-puristas. Até porque o Japão produziu vários equipamentos de altíssimo nível, em várias categorias.

Vira e mexe essas corporações se dedicaram a produtos obviamente bem mais caros, e mais ‘de nicho’ que a linha consumer da mesma empresa.
Uma dessas corporações, a Matsushita, tinha marcas mais simples como a National e a Panasonic, e também marcas que sempre prezaram por maior sofisticação, como a Technics – a qual todo mundo associa mais com toca-discos de vinil, mas que fez também amplificadores, receivers, excelentes tape-decks, gravadores de rolo e, também, o ocasional produto para o ‘nicho do nicho’, querendo atingir parte do pro-audio junto com alguns audiófilos, tudo com uma estilingada só.
O GRAVADOR DIGITAL EM FITA VHS MODELO SV-P100 DA TECHNICS
O SV-P100 é um ‘bicho’ semi-único, mesmo fazendo parte de um mercado que acabava de descobrir o áudio digital e começou a investir em gravadores PCM, tentando achar seu espaço – e olha que a Technics mirou tanto no mercado de pro-audio, de estúdios, sendo considerado um gravador de máster digital, quanto no mercado de áudio especializado, o audiófilo.

Este aparelho é um gravador de áudio digital, produzido de 1981 até 1984, que funciona e é operado mais ou menos do mesmo jeito que um tape-deck – seja cassete ou rolo. A diferença é que a mídia aqui é fita de videocassete VHS, que tinha apenas 4 anos de idade, e o áudio gravado nela é digital – no caso era 14-bits, usando a faixa de vídeo inteira, e gravando na faixa reservada para áudio apenas as informações de indexação, tempo, etc.

Vários aparelhos usavam, na virada da década de 80, gravar áudio em formato digital, encapsulado em sinal de vídeo, armazenado em fitas de videocassete – como U-Matic e Betamax, principalmente, por causa de sua qualidade maior de vídeo, e também em VHS, em menor escala, quando a Sony tentou popularizar o formato em meados daquela década, com gravadores mais de uso caseiro. Todos esses usavam um aparelho conversor, DAC/ADC, que era ligado a um aparelho de videocassete para armazenar o áudio digital na faixa de vídeo.
A escolha da Technics (Matsushita Panasonic) pelo formato VHS se deu por causa de sua associação com a JVC – criadora desse formato de vídeo – que já, com a marca Panasonic, caminhava em passos cada vez mais largos no mercado de aparelhos de videocassete.
Todos esses – os Sony PCM (e licenciados) e o Technics – poderiam ter sido criados como compatíveis uns com os outros, mas na verdade nenhum é! Mesmo os vários modelos desses gravadores PCM da Sony da época, não são compatíveis entre si!

Todos fazem o mesmo serviço, porém a Technics, com o SV-P100 resolveu fazer o esquema todo de maneira mais racional – e, apesar de ser um aparelho grande, não chega a ocupar mais espaço quanto DAC/ADC PCM da Sony ligado à um segundo aparelho.
Para os curiosos, esse gravador Technics, de 14-bits, foi lançado um par de anos antes do próprio CD – o qual estabeleceu 16-bits como padrão de formato digital. Se o SV-P100 tivesse sobrevivido no mercado, quase com certeza receberia um upgrade para 16-bits. Mas, duvido que os cartolas do mercado fonográfico teriam permitido na época que alguém copiasse seus CDs para um gravador de fita digital, com as mesmas especificações. A fita cassete analógica que todos conhecemos, como ‘elemento de pirataria’ era tolerada por ser de qualidade sonora inferior tanto ao LP quanto ao CD.

A tecnologia de gravação de música em formato digital é bastante anterior ao CD. No começo da década de 70, a gravadora japonesa Denon (sim, a mesma dos equipamentos) inventou um gravador PCM ‘prático’ – ou seja, que permitia a gravação e mínima edição – e gravou vários artistas de jazz e de música clássica e prensou esses discos em vinil no Japão, pelo selo Denon PCM. Da mesma maneira, nos EUA o Dr. Thomas Stockham inventou, na segunda metade da mesma década, o gravador SoundStream, que foi adotado por várias gravadoras, e mais especialmente pela Telarc Records, a qual começou a prensar vinil de alta qualidade originário de gravações digitais, já em 1978. E também com resultados sonoros superiores.
O SV-P100 tinha especificações respeitáveis, como a resposta de frequência de 2Hz a 20kHz, gravava em 14-bits/44.056 kHz (padrão que depois foi arredondado para cima e usado no CD) com duas horas de áudio por fita VHS normal. Como era feito no Japão, o padrão de ‘vídeo’ que ele usava era o NTSC em preto & branco, compatível com os EUA.
Segundo a Inteligência Artificial do Google, o chip DAC usado pelo Technics SV-P100 é um freio a disco para rodas da frente de bicicletas… Então desisti de procurar mais profundamente simplesmente porque acho que esse chip nunca mais foi usado para nada, e não é exatamente relevante.
O preço desse Technics novo, em 1981, oscilava entre o que seria, em valores de hoje, 10.000 e US$15.000! E como foi produzido por pouco tempo, para um mercado especializado, é mais difícil de achar o mesmo no mercado de usados.
MODELOS SEMELHANTES
Funcionando do mesmo jeito – ou seja, com o mesmo princípio – convertendo o sinal analógico para digital e armazenando-o em fita magnética de vídeo, os aparelhos mais semelhantes são o Sony PCM-F1, e o próprio Technics SH-P1 – ambos chamados de “PCM Adaptors”, ou adaptadores de PCM, por serem ligados em um gravador de fita de videocassete externo.

Porém tanto esse Sony (em suas numerosas versões), quanto esse Technics, ambos já trabalhavam com 16-bits, tornando-os mais compatíveis como gravadores de master para a prensagem de CD do que o próprio SV-P100, sem serem necessárias conversões de formato ou padrão digital no real processo de masterização. E, pouco tempo depois, versões mais profissionais dos adaptadores de PCM da Sony efetivamente se tornaram o padrão de mercado de master digital na década de 80.
Isso não quer dizer que o SV-P100 seja inferior em qualidade, nem nada disso.
COMO TOCA O SV-P100
Eu gostaria muito de me divertir um tempo com um Technics SV-P100 – e não me intimido com ele ser ‘apenas’ 14-bits, pois tenho discos de vinil excelentes da japonesa Denon PCM cuja master era 14-bits.
Apesar de alguns dizerem que ser 14-bits daria erros de quantização maiores que 16-bits, e por isso o aparelho teria agudos mais pronunciados ou mesmo mais ‘artificiais’, os revisores da época consideraram que o SV-P100 estava em um nível de qualidade sonora semelhante aos “PCM Adaptors” da época, e acharam até que as fontes de sinal normais que tinham para reprodução, para gravar no Technics e testar, não estavam à altura de realizar o potencial do aparelho.
SOBRE A TECHNICS
A Technics é o braço de produtos de áudio de alta qualidade do amplo grupo Panasonic Corporation – que foi fundado como Matsushita Electric Industrial, em 1918, e mudou de nome em 2008, e cujas áreas de atividade incluem, além de áudio e vídeo, automação, equipamentos industriais, Inteligência Artificial, eletrodomésticos, iluminação, robótica, baterias, e muitos outros.
A Panasonic Corporation já incluiu marcas como National, Panasonic, Sanyo, a marca Quasar americana (que já foi da Motorola), e a Rasonic.
A divisão Technics foi fundada em 1965, e ganhou fama mundial mesmo por seus toca-discos de vinil com motor direct-drive – tração direta – já na virada da década de 70. Sua extensa linha de amplificadores, receivers, tape-decks e caixas acústicas, foi comercializada em todo o mundo, durante as décadas seguintes.
A divisão foi descontinuada em 2010, tirando de linha a versão anterior do célebre toca-discos SL-1200. Mas, com o retorno do vinil ao mainstream, a Technics foi ressuscitada em 2014, com versões atualizadas de seus toca-discos, além de atualmente uma linha completa de amplificadores, players de CD, streamers e caixas acústicas. Um bom junho – e não deixem a música parar!