

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br
No início de 2026, avisei aos leitores que este seria o ano das caixas bookshelf. Lembram-se?
À medida que publicamos os testes, questionei o preconceito de quem ainda descarta esse tipo de caixa para salas com menos de 16 m². Imagino que parte da resistência venha da experiência com modelos antigos, comuns nas décadas de 1970 e 1980, cuja resposta nos graves muitas vezes era limitada a frequências acima de 70 Hz.
Quem ouvir as melhores bookshelf atuais poderá se surpreender com sua evolução e com as vantagens que oferecem em ambientes menores: maior facilidade de posicionamento, menos dificuldades acústicas e boa compatibilidade com muitos dos amplificadores integrados disponíveis.
E a dinamarquesa Audiovector oferece um diferencial interessante: a possibilidade de atualizar a caixa e aumentar sua performance mantendo o gabinete. A R 1 pode ser adquirida inicialmente na versão Signature, por cerca de um terço do preço da Arreté, passar à Avantgarde por aproximadamente metade desse valor, e finalmente chegar à Arreté. A cada etapa, mudam os alto-falantes, a fiação interna e o crossover. Não me recordo, de imediato, de outro fabricante que ofereça um serviço semelhante.
A R 1 Arreté emprega um tweeter AMT (Air Motion Transformer), desenvolvido pela própria Audiovector. O alto-falante de médios e graves, de 6.5 polegadas, utiliza um cone de fibra de carbono com fibras de aramida e resina de madeira artificial, formando uma estrutura rígida e amortecida. O texto técnico recebido informa resposta de 38 kHz a 53 kHz (−6 dB), sensibilidade de 87 dB com 1 W e impedância nominal de 8 ohms. A caixa mede 37 cm de altura, 19.5 cm de largura e 29 cm de profundidade. Seu gabinete em formato de gota afunila em direção à traseira, onde tem apenas 10 cm de largura. Há um par de terminais usinados e um terceiro terminal para o aterramento Freedom. Os terminais ficam em uma placa de fibra de carbono, concebida para reduzir a interferência elétrica com o crossover. Acima deles, dois pórticos se comunicam, respectivamente, com o compartimento dos médios e graves e com o tweeter. O gabinete é construído em HDF derivado de carvalho e bordo. Os acabamentos incluem nogueira italiana, jacarandá africano e freixo preto, além de branco seda por custo adicional. Há ainda pinturas personalizadas brilhantes em sete camadas, realizadas em uma oficina especializada Porsche na Dinamarca.
A Audiovector oferece um pedestal próprio, cinza metálico, com estrutura de aço de três pilares e uma base superior que acompanha o contorno da caixa. Para utilizar o aterramento Freedom, a marca vende o cabo Freedom Grounding, que conecta cada R 1 à tomada – seu preço de fábrica, informado no texto, é de US$ 850. Eu já havia avaliado esse cabo na Trapeze (clique aqui) e percebido seus benefícios.
Para este teste, utilizei nosso pedestal de referência Timeless Unlimited (clique aqui) e a eletrônica de referência listada ao fim da matéria. Também ouvi as R 1 com os amplificadores integrados Arcam SA35 (clique aqui), Soul Note A-2 versão 2 (clique aqui) e Norma Revo IPA-140 (clique aqui), além do DAC204 MkII da Weiss (clique aqui), o CD-Player Soul Note S-3 (teste na edição de dezembro), e o conjunto analógico formado pelo toca-discos Origin Live Aurora (Teste 2 nesta edição) e pelo pré de phono Moonriver 505 (teste na edição de novembro). Usei ainda diferentes cabos de caixa da Virtual Reality e Dynamique Audio Apex.
AVALIAÇÃO
A R 1 Arreté precisa de mais de 100 horas de uso para começar a mostrar seu potencial. Antes disso, o ouvinte pode até se perguntar se uma bookshelf mais cara do que muitas excelentes caixas de coluna, inclusive modelos de até R$ 60 mil, justifica seu preço. Em minha avaliação, a resposta fica mais clara depois do período de amaciamento: a R 1 apresenta a música com autoridade e graciosidade, tanto em pequenos grupos quanto em obras sinfônicas. Em salas menores, pode ser uma opção definitiva. Convém ter paciência com as oscilações desse período.
Também é preciso escolher com cuidado os componentes associados a ela: a caixa exige qualidade de performance, embora não tenha se mostrado especialmente exigente em potência. Os três amplificadores integrados a conduziram bem, mas as combinações com o Soul Note e o Norma foram minhas preferidas.
CABO DE ATERRAMENTO
Após cerca de 180 horas, quando considerei o amaciamento estabilizado, ouvi a R 1 com e sem o cabo de aterramento antes de passar às 80 faixas da nossa Metodologia. Minha impressão foi de que ela se beneficiou ainda mais do cabo do que a Trapeze, embora eu não saiba explicar a razão. Na Trapeze, havia percebido melhora da micro-dinâmica e maior separação entre camadas sonoras, sobretudo em volumes baixos. Na R 1, esses benefícios se repetiram e percebi também ganhos em macrodinâmica e corpo harmônico. Como o cabo acompanhou as caixas enviadas para teste, fechei a nota com ele instalado. Aos futuros compradores, recomendo avaliar sua aquisição junto com a R 1: na minha experiência, o investimento adicional compensa.
O equilíbrio tonal é belíssimo. Os agudos têm clareza, riqueza harmônica, extensão e decaimento natural, sem provocar fadiga mesmo com gravações tecnicamente limitadas. A região média combina refinamento e transparência com conforto em audições prolongadas. Já os graves surpreendem pelo tamanho da caixa. Alguns amigos que visitaram minha sala durante o teste acharam que eu estava brincando; dois chegaram a procurar outra fonte para os graves. Mesmo em nossa sala de 50 m², a R 1 reproduziu baixas frequências com peso, energia, velocidade e autoridade. Na sala de 12 m², ficou ainda mais difícil defender que uma caixa de coluna fosse necessária.
Nos Cursos de Percepção Auditiva, costumo dizer que quem busca um palco sonoro tridimensional em uma sala pequena deve ouvir um par de bookshelf bem posicionado. Ao formar um triângulo equilátero com a posição de audição, as caixas podem desaparecer da percepção espacial e deixar apenas a música à frente. A R 1 Arreté construiu uma imagem convincente em largura, altura e profundidade. Na Sala de Referência, deixei 3.20 m entre as caixas e obtive um palco especialmente impressionante para música clássica, com foco, recorte e planos bem definidos para os naipes da orquestra.
As texturas impressionam tanto quanto o equilíbrio tonal. A R 1 apresenta timbres ricos, nuances técnicas e artísticas e um refinamento que me faria considerá-la até como monitor de referência em uma produção musical. Os transientes têm precisão na marcação do tempo, do andamento e do ritmo, tornando particularmente prazerosa a audição de gravações com variações rítmicas complexas.
A macro-dinâmica costuma ser um desafio para caixas pequenas. Com volume adequado e seguro, porém, a R 1 não me decepcionou. Ouvi gravações exigentes nas salas de 50 m² e 12 m², nos níveis que costumo utilizar. Obras como A Sagração da Primavera de Stravinsky, e a Sinfonia Fantástica de Berlioz, além de big bands de Count Basie e Duke Ellington, chegaram a picos de 90 dB. Para mim, a apresentação dos fortíssimos foi suficiente para mostrar o quanto as melhores bookshelf atuais evoluíram. A micro-dinâmica, por sua vez, foi um ponto forte desde o início.
Além do equilíbrio tonal, das texturas e dos transientes, foi o corpo harmônico que mais me surpreendeu. Em várias faixas, balancei a cabeça diante do que ouvia: pianos solo apareciam solidamente entre as caixas, e a dimensão dos contrabaixos parecia incompatível com o tamanho das R 1. A coerência desses atributos também favoreceu a sensação de materialização física dos instrumentos.
CONCLUSÃO
Os melhores modelos bookshelf deram um salto expressivo nesta década. Quem ainda duvida deveria ouvir as opções atuais. A R 1 Arreté é a mais cara desta seleção que testamos, mas se destaca pela coerência e pela consistência de sua apresentação. Em um sistema à sua altura e corretamente instalado, ela aceita desafios difíceis sem se tornar o elo mais fraco. Se você tem uma sala de dimensões modestas, já possui um sistema Estado da Arte e procura a caixa definitiva, recomendo uma audição atenta. Caso eu precisasse mudar para uma sala muito menor, escolheria uma excelente bookshelf em lugar de uma coluna – e se o orçamento permitisse, a R 1 Arreté estaria no topo da minha lista.
EQUIPAMENTOS UTILIZADOS NO TESTE
PONTOS POSITIVOS
Uma bookshelf admirável.
PONTOS NEGATIVOS
Preço, para o poder aquisitivo do audiófilo brasileiro e a exigência quanto aos demais componentes do sistema.
ESPECIFICAÇÕES
| Resposta de frequência | 38-53 kHz |
| Sensibilidade | 87 dB/W/m |
| Impedância | 8 Ohms |
| Potência admissível de pico | 200 W |
| Frequência de corte | 2900 Hz |
| Princípio | 2-way |
| Gabinete | Bass reflex |
| Drivers de mid-bass | 6.5 “ Carbon |
| Drivers de agudos | R AMT Arreté |
| Dimensões (L x A x P) | 19.6 x 37 x 29 cm |
| CAIXAS ACÚSTICAS AUDIOVECTOR R 1 ARRETÉ | ||||
|---|---|---|---|---|
| Equilíbrio Tonal | 13,0 | |||
| Soundstage | 12,0 | |||
| Textura | 13,0 | |||
| Transientes | 13,0 | |||
| Dinâmica | 11,0 | |||
| Corpo Harmônico | 12,0 | |||
| Organicidade | 12,0 | |||
| Musicalidade | 13,0 | |||
| Total | 99,0 | |||
| VOCAL | ||||||||||
| ROCK, POP | ||||||||||
| JAZZ, BLUES | ||||||||||
| MÚSICA DE CÂMARA | ||||||||||
| SINFÔNICA |


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