

Christian Pruks
christian@avmag.com.br
Equipamentos Vintage que fazem parte da história do Áudio
O termo Vintage tem a ver com ‘qualidade’, mais do que ‘ser antigo’. Vem do francês ‘vendange’, safra, sobre uma safra de um vinho que resultou excepcional. ‘Vintage’ quer dizer algo de qualidade excepcional – apesar de ser muito usado para designar apenas algo antigo.
MADE IN USA, BY ENGINEERS
Os dois maiores berços da alta-fidelidade são o Reino Unido – com sua alta disseminação cultural musical, sua própria filosofia de sonoridade, e amplas pesquisas tecnológicas pelo laboratório da BBC e por parte de várias empresas particulares.
O outro dos berços é os Estados Unidos da América – com fatores que vieram desde a invenção do fonógrafo e, depois, das válvulas, do rádio e do LP – e com seu enorme mercado consumidor de música e de eletrônicos.
Uma dessas empresas que fizeram grandes equipamentos de áudio, e estão há décadas fazendo-os, e fazendo parte da história do áudio, é a JBL.
A CAIXA ACÚSTICA D44000 PARAGON DA JBL
Eu falo “a caixa acústica”, no singular, porque a Paragon é uma caixa só – porém estéreo, de 2.7 metros de largura!
A ideia, quando a Paragon foi projetada na Califórnia pelo designer Arnold Wolf (que em 1970 se tornaria presidente da JBL) e o consultor técnico da empresa, o engenheiro eletrônico e inventor Richard Ranger, era fazer um gabinete só que contivesse ambas caixas – esquerda e direita – onde a curva da frente serviria de difusor exatamente para ajudar a criar o centro da imagem estéreo.

Lembrem-se: era 1957, e o ‘Estéreo’ era algo que tinha acabado de chegar ao mercado, ainda que um mercado bastante limitado, audiófilo e de alto poder aquisitivo – tanto que a maioria das pessoas ‘normais’ (rs!) permaneceu com sistemas de som mono, em suas casas, quase que pela década seguinte inteira.

A Paragon é uma caixa tipo corneta de três vias, topo de linha da empresa, fabricada até 1983, quando foi substituída pela linha Everest, sendo a caixa da marca que durante mais tempo foi fabricada! Uma anedota interessante é que a última Paragon em estoque, demorou cinco anos para ser vendida depois que acabou a produção, indo para seu feliz proprietário em 1988 – mas isso não chega a ser estranho, já que o preço nunca foi barato, a caixa é gigante e não combina nem visualmente nem sonoramente com as necessidades de todo e qualquer audiófilo, literalmente sendo um ‘elefante branco’ para muitos.

O projetista, Richard Ranger, que já tinha trabalhado em rádio, no projeto de instrumentos musicais eletrônicos, e como um dos pioneiros do áudio estéreo na indústria cinematográfica, pensou no difusor central da Paragon, que ele chamou de “Sistema de Refração Radial JBL-Ranger”, como um dispositivo para permitir que todos na sala ‘visualizassem’ a imagem estéreo, e não apenas quem estivesse no sweetspot – um termo, aliás, que ainda não tinha sido criado. A eficácia desse sistema é duvidosa para dizer o mínimo, pois tirando as subsequentes Metregon e Minigon, da marca, eu não lembro de outras marcas tentarem ideias semelhantes.

A Paragon foi inicialmente pensada para ser uma caixa central, flanqueada por um par de JBL Hartsfield, por exemplo, em um sistema onde se acreditava que o efeito estéreo seria somente bem feito por três caixas acústicas – lembrem-se: foi uma época onde, quando muito, se havia sido anunciado o ‘chá de bebê’ do estéreo.
O preço das caixas era de US$1.830 no final da década de 50, o que hoje equivaleria a aproximadamente US$21.000. Nos últimos anos, uma JBL Paragon usada tem aparecido no mercado por preços ultrapassando US$20.000, dependendo do estado de conservação.

Parte da mítica e do preço da Paragon se dá porque ela era construída, lixada e envernizada à mão, em um processo que levava dias para cada par – que até hoje é um expediente ‘de qualidade’ usado por vários fabricantes de equipamentos de áudio que não significa, necessariamente, melhor qualidade sonora.
As três vias da caixa são cortadas em: 7.000Hz entre tweeter e corneta de médios, e 500Hz entre o driver de compressão da corneta de médios – que aponta para o difusor central – e o woofer de 15 polegadas de Alnico. Nos anos 60 houve uma atualização dos drivers, e em 1979 a JBL trocou o Alnico por Ferrite nos magnetos – sendo que depois dessa última atualização, a caixa passou a ser designada D44000WXA.

A resposta de frequência da Paragon, na teoria, é de 30Hz a 20kHz, mas diz-se que não muito plana. A sensibilidade é de 96dB, impedância de 8 ohms, e potência admissível de 125W.
Ah! O peso dessa cristaleira audiófila é a bagatela de 300 quilos!
Presente na exposição “California Design, 1930–1965: Living in a Modern Way”, do Museu de Arte do Condado de Los Angeles, a Paragon é uma instituição californiana ao ponto de ter sido chamada, na década de 60, de “a caixa acústica das mansões de Beverly Hills”.

Inclusive, um dos mitos e lendas mais legais sobre essa caixa, diz que Frank Sinatra e Dean Martin adquiriram três Paragons cada um, usando uma para cada canal (esquerdo, central e direito), para monitorar suas gravações e ouvir suas fitas master. Devia ser uma sala e tanto – e pode até ter algum fundo de verdade, já que Sinatra era bastante audiófilo.
MODELOS SEMELHANTES
Até onde eu consegui apurar, nenhum outro fabricante ao longo dos anos tentou imitar as Paragon, tentou fazer alguma variação da mesma ideia.


A não ser, claro, a própria JBL, que em 1960 fez a versão menor (1.87m de largura) C45 Metregon, e na mesma década fez as ‘miniaturas’ C46 Minigon – sendo que estas últimas eram em dois gabinetes separados, podendo ser posicionadas de várias maneiras, mas quando postas do ‘jeito’ da Paragon (como na foto), compunham 1.2m de largura.
COMO TOCA A PARAGON
Eu nunca tive o prazer de satisfazer minha curiosidade e ouvir uma Paragon – acho que não foi muito disseminada aqui no Brasil.
A imprensa audiófila, porém, declarou que a melhor posição para ouvi-la era a 3 metros de distância (o que dá quase o regulamentar triângulo equilátero), que ela tem uma “dinâmica inabalável” em altos volumes, impressionante separação de instrumentos, “agudos líquidos com médios e graves excelentes”, etc.
SOBRE A JBL
A JBL foi fundada em 1946, na Califórnia, pelo engenheiro James Bullough Lansing, daí as iniciais do nome. Lansing havia começado em 1927, com seu sócio Ken Decker, a Lansing Manufacturing Company, fazendo alto-falantes para rádios.
Em 1933, Douglas Shearer dos Estúdios MGM, descontente com as caixas acústicas da Western Electric e da RCA, fundou a Shearer Horn, usando falantes fabricados pela Lansing Manufacturing. Depois as caixas foram vendidas pela própria Western Electric com o nome de Diaphonics, e pela RCA com o nome Photophones. Com essa experiência, Lansing passou a produzir caixas para cinemas com o nome Iconic System – que usavam um woofer de 15 e um driver de compressão para os agudos.
Em 1941, com problemas financeiros, a Lansing Manufacturing Company foi comprada pela Altec Systems Corporation – resultando na famosa Altec Lansing. Com o fim de seu contrato de cinco anos, Lansing saiu da Altec e fundou a James B Lansing Sound, depois abreviada para JBL Sound. E o resto, como diz o ditado, “é história”…
Em 1969, a Jervis Corporation, de Sidney Harman, comprou a JBL. Depois, essa mesma Jervis Corporation passou a se chamar Harman International que, desde 2017, pertence à coreana
Samsung. O Grupo Harman hoje compreende vários nomes conhecidos do áudio, como JBL, AKG, Arcam, Crown, Infinity, Lexicon, Mark Levinson, Revel, entre várias outras.
E a JBL continua projetando e fabricando caixas acústicas, receivers, fones de ouvido, e vários acessórios.
Um bom setembro a todos – e não deixem a música parar!