

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br
Todo leitor com mais de quarenta anos irá se lembrar do artigo publicado na revista Nature, nos anos 1990, em que pesquisadores chegaram à conclusão de que ouvir Mozart teria o poder de ampliar o QI das pessoas.
A conclusão teve enorme repercussão na mídia e, da noite para o dia, Mozart ganhou notoriedade semelhante à de um astro pop.
O que a neurociência atualmente afirma é que a música traz enormes benefícios: melhora o foco e auxilia no relaxamento de quem sofre de ansiedade crônica, além de contribuir em quadros de depressão e até mesmo no tratamento de pacientes com Alzheimer.
Hoje, é possível mapear, em tempo real, o que ocorre quando ouvimos música, desde a chegada do som ao nosso sistema auditivo até sua interpretação pelo cérebro.
Sabemos que, assim que nosso sistema auditivo recebe a informação sonora, a cóclea, revestida de células nervosas e com formato de caracol, começa a processar e separar as diferentes frequências sonoras.
Seguindo até o cérebro, a informação chega ao córtex auditivo, responsável pelo processamento e reconhecimento desses estímulos sonoros. Inicia-se, então, o processo de interpretação e identificação do que estamos ouvindo.
É uma buzina de carro, um helicóptero, vozes distantes ou uma música?
Quanto mais complexa for a informação sonora, mais o cérebro se concentra no trabalho de identificá-la.
E, quando é uma música que conhecemos e de que gostamos, nosso sistema límbico entra em ação.
O sistema límbico é um conjunto de estruturas responsável pelo processamento de nossas emoções.
Ele pode desencadear sensações de prazer, tristeza ou felicidade e, junto a essas respostas, a liberação de substâncias como as endorfinas, relacionadas ao alívio da dor, quando determinada música nos causa tristeza, e a dopamina, quando a música que estamos ouvindo nos proporciona prazer e felicidade.
Ou seja, a música literalmente mexe conosco, tanto física quanto emocionalmente.
Mas o efeito da música em nosso corpo vai além. Segundo a neurociência, ela também pode ativar o córtex motor, responsável pelos nossos movimentos, fazendo-nos bater os pés, a cabeça e as mãos, marcando o ritmo da música que estamos escutando.
Isso ocorre porque nosso cérebro reage quando é estimulado a entender e organizar os padrões do que está acontecendo musicalmente, mostrando que captou com precisão o ritmo e consegue acompanhá-lo.
A região do cérebro com enorme concentração de neurônios responsável por decifrar o ritmo fica na parte posterior do cérebro e recebe o nome de cerebelo.
É ele que envia ao córtex motor as instruções sobre como reagir à marcação do ritmo.
O incrível é que toda essa codificação e o envio do sinal para que batamos os pés no tempo certo são disparados em milionésimos de segundo.
E, quanto maior for a sincronia entre a música e nossa marcação do ritmo, mais ativaremos outra região do cérebro, responsável pela memória.
E chegamos ao hipocampo, onde se encontram armazenadas nossas memórias de longo prazo.
A neurociência hoje sabe que o hipocampo e a música são importantes aliados no tratamento de pacientes com Alzheimer, pois a música é uma das últimas memórias a serem apagadas nesses pacientes.
A resposta a essa incrível constatação é que a música, por acionar muitas partes do nosso cérebro, consegue ser preservada quase até o final de nossas vidas.
Estudos consistentes realizados nos últimos vinte anos mostraram que, mesmo em pacientes com lesão cerebral que tenha afetado a linguagem e os movimentos, a música ainda está presente em sua memória.
Recentemente, um grupo de pesquisadores voltou a estudar a questão de saber se a música clássica nos deixa mais inteligentes, e as conclusões preliminares apontam que a música aumenta nosso campo de atenção e foco em algumas tarefas cognitivas.
Porém, foco e atenção não são a mesma coisa que QI.
Então, obviamente, ouvir música clássica ou outro estilo não o deixará mais inteligente.
No entanto, a boa notícia é que os novos estudos também observaram que, para ampliar o campo de atenção cognitiva, os estilos mais eficazes são realmente a música clássica e pequenos grupos instrumentais, em obras sem vozes.
No grupo de participantes do estudo, esses estilos reduziram a sensação de fadiga, aumentaram o interesse pela atividade proposta, desaceleraram os batimentos cardíacos e promoveram a liberação de dopamina quando os objetivos dos testes foram alcançados.
Se aplicarmos esse conjunto de conhecimentos descobertos pela neurociência em prol da melhora da nossa concentração e do relaxamento, do fortalecimento das sinapses cognitivas e da memória de longo prazo, isso já não seria argumento suficiente para a música estar presente em nossas vidas?
E não seria essa uma escolha mais eficaz e inteligente para vivermos de maneira equilibrada, saudável e empática em um mundo cada vez mais caótico e desumanizado?
Em nenhum momento da civilização humana tivemos à nossa disposição todo o acervo musical de séculos ao alcance de nossos dedos.
Que façamos bom uso dessa dádiva diariamente!