Playlists: GRAVAÇÕES ARTÍSTICA E TECNICAMENTE BEM-FEITAS

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Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br

Prezo muito pela oportunidade de ouvir os leitores em nossos eventos e descobrir, diretamente com vocês, o que ainda podemos aprimorar na revista para atender melhor suas expectativas.

Os pedidos são numerosos e bastante diversificados, mas meu maior interesse sempre foi saber se as seções existentes realmente ajudam cada leitor a ampliar seu repertório de informações e, principalmente, a evoluir no ajuste fino de seus sistemas.

Afinal, este sempre foi nosso principal objetivo: ajudá-los a caminhar com as próprias pernas e se sentirem seguros na hora de realizar ajustes e upgrades.

Por isso fico particularmente feliz quando converso com leitores – como aconteceu em nosso último Workshop em abril – e descubro que muitos acompanham e procuram ouvir todas as gravações indicadas nesta seção.

Faço essa coluna com enorme carinho.

E sei perfeitamente que jamais conseguirei agradar a todos, porque é extremamente difícil encontrar gravações que conciliam alto padrão artístico e excelência técnica.

Alguns leitores comentaram comigo que indico muita música clássica e jazz e pouco de outros gêneros musicais.

A esses procurei explicar que muitas gravações atuais de outros estilos sofrem com excesso de compressão dinâmica e apresentam imagens sonoras tão bidimensionais que se torna difícil recomendá-las como referência técnica realmente relevante.

Também procuro mostrar àqueles que não apreciam jazz ou música clássica que essas gravações não precisam necessariamente entrar para o repertório pessoal de ninguém.

Utilizem-nas apenas como ferramentas de análise.

Pensem nelas como instrumentos de ajuste fino do sistema ou parâmetros para avaliar o desempenho do setup dentro dos quesitos da nossa Metodologia.

Pois não tenho o menor interesse – e muito menos o direito – de tentar doutrinar alguém musicalmente.

E convenhamos: mesmo uma música fora do seu gosto pessoal continua sendo infinitamente mais agradável do que passar horas ouvindo ruído rosa.

Neste mês escolhi dois lançamentos que considero exemplares tanto artisticamente quanto tecnicamente.

Curiosamente, só depois percebi que ambos os artistas já ultrapassaram os oitenta anos de idade e continuam produzindo trabalhos belíssimos, relevantes e surpreendentemente criativos.

Acho maravilhoso ver cada vez mais pessoas chegando à terceira idade lúcidas, ativas e artisticamente inquietas.

Espero sinceramente que vocês escutem ambos os trabalhos em seus sistemas.

John McLaughlin – Music for Abandoned Heights (Impex Records, 2025)

Essa trilha sonora, disponível nas principais plataformas de streaming, e em CD e LP, funciona perfeitamente como música independente das imagens ou personagens.

Aliás, talvez esse seja justamente um de seus maiores méritos. É um disco que se sustenta sozinho.

Belíssimo trabalho de composição, músicos excepcionais, banda extremamente coesa e uma captação simplesmente impressionante.

Quer avaliar Equilíbrio Tonal e Corpo Harmônico do seu sistema? Comece pela faixa 2 – Malcolm Fitzgerald.

Sente-se confortavelmente, aumente o volume, certifique-se de que não será interrompido, e dê o play.

Se o sistema estiver corretamente ajustado, será fácil acompanhar a ‘cozinha’ – baixo e bateria – enquanto os solos se desenvolvem com naturalidade e coerência.

A região média do sistema precisará demonstrar inteligibilidade, organicidade e realismo.

Agora, quer avaliar o refinamento de Texturas? Vá para a faixa 4 – Elijah in DC.

Excelente gravação para quem aprecia guitarras limpas, com a quantidade exata de reverb, sustentadas por baixo e bateria extremamente afinados.

É daquelas faixas em que o cérebro relaxa naturalmente para mergulhar nos arranjos e nos solos de guitarra, teclado e saxofone.

Hora dos Transientes. Ouça a faixa 6 – DC Basketball.

Aqui o desafio fica sério. A bateria marca um andamento frenético, o baixo pulsa com velocidade e precisão, enquanto saxofone e guitarra cortam o palco sonoro com enorme energia.

Se os Transientes estiverem corretos, você jamais perderá a visão do conjunto. Mas se tudo começar a embolar, existe claramente algo errado na reprodução de velocidade e controle do sistema.

Pare e investigue.

Seu setup passou pelo teste? Então comemore ouvindo a faixa 11 – The Beat Goes On.

E aproveite para ouvir o álbum inteiro. Vale muito a pena.

Laurie Anderson With Sex Mob – Let X = X (Live) (Nonesuch, 2026)

Neste show, Laurie revisita momentos importantes de sua carreira com novos arranjos para seus maiores sucessos.

E já na abertura coloca qualquer sistema ‘dito’ hi-end à prova.

Prepare-se.

A faixa 1 – From the Air, chega com bumbo e contrabaixo elétrico extremamente poderosos, cercados por sintetizadores, vozes, coral e metais.

O grave do contrabaixo precisa ser limpo e articulado. Nada de embolar.

O bumbo deve surgir cirúrgico: rápido, encorpado e absolutamente controlado.

Quer continuar avaliando Corpo Harmônico, graves e Transientes? Então vá para a faixa 6 – Drum Solo. Curta, mas devastadora. Excelente para avaliar simultaneamente esses três quesitos.

Agora, se quiser investigar Equilíbrio Tonal e comportamento Dinâmico do sistema, coloque a faixa 9 – Gravity’s Angel. Aqui o desafio é brutal.

Existe enorme quantidade de informação entre médio-grave e médio-alto.

Atenção especial:

O som não pode endurecer.

A profundidade não pode desaparecer nas variações dinâmicas.

Os médio-graves não podem invadir e mascarar a região média.

E antes de abrir uma taça de vinho para comemorar, sugiro ouvir a faixa 17 – O Superman.

As Texturas das vozes sintetizadas de Laurie Anderson nesse novo arranjo estão ainda mais refinadas do que na gravação original.

É simplesmente arrepiante.

Bem, espero ter atendido aos leitores que pediram sugestões de gravações mais “agitadas” durante o Workshop.

E quem quiser compartilhar como esses discos soaram em seus sistemas – ou mesmo em seus fones de ouvido – fique totalmente à vontade.

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