

Wilson Caruso Junior
wcjrdesign@gmail.com
Para quem acompanha a Áudio e Vídeo Magazine, já sabe que o Workshop Hi-End Show não é apenas uma exposição de equipamentos. É também uma vitrine extremamente rica de escolhas musicais.
E este ano tive a oportunidade de percorrer todas as salas, captando imagens e, quase que naturalmente, captando também algo tão importante quanto: o repertório escolhido pelos expositores.
Diferente de uma curadoria formal, essa playlist nasce de forma orgânica. Ela é um retrato fiel do que cada sala quis demonstrar: seja impacto, refinamento, espacialidade ou simplesmente emoção.
E ao reunir todas essas faixas, o resultado é mais do que uma lista de músicas: é um verdadeiro painel das diferentes estéticas de gravação que convivem hoje e também de diferentes épocas.
Seguem os links para as Playlists com os destaques musicais utilizados no evento, pelos expositores:
QOBUZ – https://open.qobuz.com/playlist/63715095
TIDAL – https://tidal.com/playlist/4168e6d1-31a9-41ea-85c9-d55409b6b95b
Logo de início, ao ouvir faixas como “So What” de Miles Davis e “Tin Pan Alley” de Stevie Ray Vaughan, percebemos algo que continua sendo uma constante em sistemas hi-end bem ajustados: a facilidade de leitura do espaço.
No caso do jazz clássico, especialmente em gravações como So What, existe um equilíbrio quase didático entre os instrumentos, com uma sensação de ar e profundidade que permite “ver” a sala.
Já em Tin Pan Alley, há uma densidade maior, um grave mais presente e uma microdinâmica impressionante mas ainda assim com excelente inteligibilidade.
Isso mostra um ponto importante: não se trata apenas de época, mas de como a gravação foi pensada.
Esse contraste fica ainda mais evidente quando colocamos na sequência faixas como “Angel” do Massive Attack e “SOS” do Avicii.
Aqui entramos no território da produção moderna, onde há um uso intenso de compressão e processamento.
No caso de Angel, apesar da estética carregada e propositalmente densa, ainda existe uma construção de camadas muito bem definida. O grave é profundo, mas controlado, e o espaço é sugerido mais por textura do que por ambiência natural.
Já em produções mais contemporâneas como SOS, percebemos claramente a redução da folga dinâmica. Tudo está constantemente “à frente”, o que pode impressionar inicialmente, mas tende a cansar em audições mais longas.
E esse é um ponto crucial para quem avalia sistemas: quanto menos espaço dinâmico uma gravação tem, mais difícil fica perceber nuances do equipamento.
Se há um consenso entre as salas, ele aparece nas escolhas de vozes femininas. Faixas como “Temptation” e “From This Moment On” de Diana Krall, “Don’t Know Why” de Norah Jones e “Lost and Looking” de Lady Blackbird mostram por que esse tipo de gravação é tão recorrente em demonstrações hi-end.
A voz humana, quando bem gravada, é o instrumento mais fácil de reconhecer e também o mais difícil de reproduzir com naturalidade.
Especialmente em Don’t Know Why, há uma delicadeza na captação que permite avaliar microdinâmica e textura com enorme precisão.
Um dos pontos altos desta playlist é a presença consistente da música brasileira e não apenas como escolha estética, mas como referência técnica.
Faixas como “Água de Beber” com o Grupo Vira o Beco, “Três Apitos” com Rafael Rabello e Ney Matogrosso, e “Tim Tim por Tim Tim” com Luciana Souza e Toninho Horta mostram gravações com excelente equilíbrio tonal e espacialidade.
Mas talvez o momento mais emocional venha com “Canção da América” de Elis Regina e “Melodia Sentimental / Pátria Minha” de Maria Bethânia.
Aqui não se trata apenas de técnica, é a capacidade do sistema de transmitir intenção, interpretação e carga emocional.
E isso separa sistemas bons de sistemas realmente envolventes.
A presença de bandas como Genesis, Pink Floyd, Dire Straits e The Police mostra que muitos expositores continuam apostando em material mais complexo para avaliação.
Faixas como “Firth of Fifth”e “Goodbye Blue Sky” são excelentes para testar: separação de camadas controle de transientes e coerência em passagens densas.
Mas também evidenciam algo importante: nem todas essas gravações são tecnicamente impecáveis. E isso é ótimo. Porque um sistema realmente bem ajustado não “embelezará” a gravação. Ele mostrará exatamente o que está lá.
Mas nem tudo na produção atual sofre com excesso de processamento. Faixas como “Bubbles” de Yosi Horikawa são praticamente ferramentas de teste, com espacialidade tridimensional e posicionamento extremamente preciso.
Já “La Chanson d’Hélène” de Youn Sun Nah apresenta um equilíbrio admirável entre naturalidade e produção moderna.
E “Stand Up (And Be Strong)” de Keb’ Mo’ traz uma gravação orgânica, com ótimo corpo harmônico e excelente definição de instrumentos.
Essas faixas mostram que ainda há um caminho muito interessante sendo seguido, quando há critério.
As escolhas de música clássica também foram muito felizes.
Trechos como “The Firebird Suite” com a Minnesota Orchestra e “Theme from Superman” com a Cincinnati Pops Orchestra são fundamentais para avaliar escala sonora, macro dinâmica e a capacidade do sistema de “encher” o ambiente.
Já gravações mais intimistas como “Praeludium” com András Schiff trazem o oposto: foco absoluto, silêncio de fundo e controle de decaimento.
O que essa playlist de 2026 deixa claro é que, mais do que nunca, a escolha musical em um evento hi-end é parte essencial da demonstração.
Ela pode valorizar um sistema ou limitá-lo. Ela pode emocionar ou apenas impressionar. E principalmente: ela revela o nível de entendimento de quem está por trás da sala.
Para quem esteve presente, essa playlist é uma forma de revisitar o evento.
Para quem não pôde ir, é talvez o melhor resumo possível do que aconteceu ali dentro.
E para todos nós, continua sendo uma ferramenta poderosa de aprendizado.
Foi muito bom rever tantos amigos desse mercado, em mais um ano de evento. Já estou ansioso pelo próximo, então até 2027!