

Christian Pruks
christian@avmag.com.br
Há décadas que alguns fabricantes de cápsulas para toca-discos de vinil investem em cápsulas MM – Moving Magnet – com bobinas e magnetos melhores, e com agulhas de perfil especial, como as excelentes ADC, que na década de 70 tinha modelos como a XLM e ZLM, com agulhas com diamante com corte Shibata – inventada pela JVC, aliás, para ‘ler’ as informações extras que haviam em discos Quadrifônicos, e que muitos acabaram por usar em cápsulas MC de alto nível, devido à sua capacidade de resgatar detalhamento dos discos.
A questão é que – como acontece com uma infinidade de coisas tecnológicas – os materiais usados, como fabricá-los e como utilizá-los, técnicas, são coisas em constante evolução. Então as cápsulas estão ficando cada vez melhores, e vários fabricantes voltaram, nos últimos 15 anos, a fazer cápsulas MM com agulhas, cantilevers, magnetos e bobinas melhores.
“Mas, por quê? Não é mais fácil ir direto para uma Moving Coil?”
Essa é uma boa pergunta. Acontece que uma MM de alto nível é altamente compatível com prés de phono em equipamentos de todos os tipos, desde os atuais até os receivers e amplificadores da década de 60 – sem precisar de ajustes mais complexos no pré de phono, como acontece com as MC.
Outro fator – importante para mim e para muita gente – tem a ver com a assinatura sônica de uma cápsula MM, que é mais ‘generosa’ nos graves e médios-graves, aumentando sua compatibilidade sonora com com numerosos toca-discos e sistemas mais simples, ‘de entrada’ e até intermediários. Muitos pulam de uma cápsula MM para uma MC de entrada, e recebem – junto com maior definição e detalhamento – um som muito enxuto em graves e médios-graves, que não é ideal para muita gente, e que pede por um sistema com mais folga do que os sistemas que estão usando. MC pede por um sistema melhor.
E é aí que também entra uma MM de alto nível, com sua ampla compatibilidade técnica, que traz também a sonoridade da junção do calor e graves ‘grandes’ da MM com uma definição bem mais alta, graças à usar melhores bobinas e magnetos mas, principalmente, por usar um conjunto de cantilever e diamante com perfil sofisticado normalmente encontrado só em excelentes cápsulas MC.
Uma dessas Super-Moving-Magnet – um tipo que eu gosto tanto – é a Nagaoka MP-500.
A Nagaoka foi fundada no Japão em 1940, produzindo para indústrias médicas e científicas, começando a fazer agulhas de diamante em 47. E, na década de 60, lançaram cápsulas e agulhas de toca-discos com tecnologia de ponta e rigorosa construção – o que continuam fazendo até hoje.
As cápsulas da marca não são exatamente ‘Moving Magnet, e sim são MI – Moving Iron. À grosso modo, as cápsulas Moving Magnet têm um magneto se movendo dentro do campo de um par de bobinas de fio, como um motor elétrico. O sistema topo, bem mais caro, de cápsulas superiores, o Moving Coil, é uma inversão disso: tem bobinas muito pequenas se movendo dentro do campo de um magneto, como um ‘motor invertido’ em relação ao da MM.
O sistema Moving Iron já tem tanto o magneto quanto as bobinas fixas dentro da cápsula, mas o movimento é feito por um ‘ferro’, uma peça de metal magnetizado de baixa massa, inserido no campo magnético desse motor. Muitos fabricantes antigos usavam o sistema MI, e vários hoje ainda usam, como a Grado, a Soundsmith e a Goldring – e o sistema tem um bocado de fãs mundo afora, por sua musicalidade com bom detalhamento.
Além disso, a Nagaoka ainda usa um ‘ferro’ superior, o Permalloy – material maleável de uma liga de níquel-ferro, que é altamente eficiente dentro de campos magnéticos. E ela chama suas cápsulas, portanto, de MP – Moving Permalloy. O Moving Permalloy da Nagaoka é um tipo de Moving Iron que, na verdade, é 100% compatível com o que chamamos de Moving Magnet.
Parece confuso, talvez? Não é, pois na prática, para o usuário, ela é altamente compatível – e é apenas uma questão de nomenclatura.
SISTEMA
O sistema usado para os testes inclui os amplificadores Gold Note IS-1000 MkII e Aiyima D03, com cabo de força Transparent PowerLink MM, ligados com cabos de caixa modelo Storm Trançado da VR Cables, em um par de caixas MoFi SourcePoint 8. O pré de phono é um Lehmann Black Cube II, e os toca-discos são um MoFi StudioDeck e um Technics SL-Q303. Tudo com cabos RCA e de força variados.
SETUP
A montagem das cápsulas da Nagaoka ainda usa porcas junto com os parafusos, o que complica e aumenta o risco durante a instalação – apesar de que ela permite, também, a retirada da agulha, que é destacável, o que tira o medo de quebrá-la durante o processo de instalação – além de vir com um protetor para a mesma.
O alinhamento foi feito com gabaritos padrão de mercado, e o acerto do peso fiz com minha balança digital, mantendo o peso máximo sugerido de 1.8g durante todo o processo de amaciamento, que foi de 40 horas (o fabricante recomenda 30 horas).
O peso ideal de tracionamento, com todas as melhores características sonoras de equilíbrio, palco, descongestionamento e transientes, ficou em 1.65g. E a Nagaoka com sua agulha de perfil super-fine-line, demandou uma precisão tremenda, onde 1.67g já não dava o mesmo nível de qualidade de 1.65g. A regulagem do pré ficou como demandado: MM com 47kOhms padrão, como em todos os prés desse tipo, inclusive os que vem dentro de integrados, receivers e alguns modelos de caixas ativas.
O tracionamento da MP-500 é preciso em discos bons, mas por ser tão fina a agulha super-fine-live e o cantilever de boro, ela não é fã de discos sujos, ou em estado duvidoso, ou muito usados. Mas isso também acontece em MCs que usam perfis de agulha desse tipo.
A MP-500 não ‘inventa’ o que não está no disco – o que pode resultar em tocar mal um disco que seja mal gravado – mas também significa som correto e mais neutro, com menos colorações. Essa sua sutileza me permitiu apreciar bastante alguns discos comprimidos de rock/pop da década de 80, mostrando vários detalhes que muitas vezes passam despercebidos – contanto que você não abuse do volume, pois essa sutileza permite esse detalhamento, mas não ‘amansa’ e nem ‘enche’ o som.
COMO TOCA
Em poucas palavras? Sutil, detalhada, articulada, natural – mas um bocado exigente, o que faz com que seus melhores resultados transpareçam com gravações e prensagens boas.
Equilíbrio Tonal – Tem uma levíssima tendência para o lado do agudo, do detalhe, mas muito longe de soar fria ou seca. A qualidade desse equilíbrio, espelhada pelo nível de suas texturas, resulta em cada timbre e cor soarem naturais e ausentes de fadiga.
Soundstage – Cada coisa brota no palco, até lá no fundo preto, bem recortada, sem parecer que está cada ‘camada’ enfileirada, mas sim como se cada instrumento fosse sua própria camada. Sempre com naturalidade e delicadeza. Um disco antigo do Frank Sinatra, onde com cápsulas mais simples o fundo da orquestra sempre soa um pouco chapado, como se o Sinatra fosse 3D mas a orquestra ao fundo, não – com a MP-500, a mesma gravação tem nuances, camadas e 3D na orquestra, lá no fundo! Quem nunca ouviu um desses discos com uma cápsula desse nível, se sentirá como se fosse a primeira audição! A ambiência é incrível, e parte integrante do 3D da formação do palco.
Textura – A naturalidade e limpeza com que estas são apresentadas, parece que dá quase para dizer se o flautista – que solta apenas uma única frase, lá no fundo do palco, em uma faixa – estava em um dia feliz ou não! Intencionalidades top!
Transientes – Velocidade de ataque é natural, e depois decaem corretamente, limpíssimos – porém ‘vivacidade’ e ‘pulsação’ aqui não são a palavra de ordem da MP-500: ela parece mais alemã do que japonesa, na sua busca de precisão com naturalidade.
Dinâmica – Com esses transientes acima, os crescendos de dinâmica não sujam, não embolam e não sobrepõem nada. E a micro-dinâmica permite perceber detalhes e nuances de cada naipe de uma orquestra, sem esses ‘atrapalharem’ um ao outro. Um show de detalhes.
Corpo Harmônico – É muito correto, e decentemente realista, porém é de um tipo enxuto, que eu acho que em um sistema ou um setup analógico que seja limítrofe em corpo harmônico, poderá soar ligeiramente seco. Mas com pares (pré de phono e sistema) que tenham folga de corpo, este soará muito bem. Não é uma cápsula para sistemas limítrofes, ou seja, se ela tiver com que trabalhar, responde à contento.
Organicidade – A MP-500 faz os músicos se materializarem bastante bem em seu efeito de palco, em sua sala de som. Mas somente discos muito especiais farão a conexão que lhe levará a sentir o cheiro de uísque e a fumaça do cigarro dos jazz clubs das décadas de 50 e 60, por exemplo. Acredito que ela tem um bocado de folga nesse sentido, quanto melhor for o toca-discos que a abrigar.
Musicalidade – É um produto bem equilibrado em todas suas notas, o que significa que reproduz bem os vários aspectos qualitativos inerentes à música.
CONCLUSÃO
A Nagaoka MP-500 é uma cápsula de alto nível, em todos os sentidos. Mas, ao trafegar no limite entre a assinatura sônica de MM e a de MC, ela acaba me lembrando bastante aqueles tipos de amplificadores que, ao unirem válvula com transistor, em vez de trazerem fortemente ambas características sonoras, na verdade resultam em dosar bem ambos mundos.
Explico melhor: ela não usa todo o calor da MM com toda a definição da MC – ela, na verdade, se equilibra entre ambos, faz uma transição entre os dois mundos. Uns podem preferir que ela fosse mais quente, e outros podem preferir que ela fosse mais aberta e detalhada.
E eu mesmo? O que acho? Acho ela orgânica, neutra e musical – e um deleite para amantes de palco.
PONTOS POSITIVOS
Detalhamento, articulação e precisão sonora com um tempero de calor. Um deleite para fãs de palco quando em um setup analógico de alto nível.
PONTOS NEGATIVOS
Ter que usar porcas para prender os parafusos. E seu preço ser de cápsula MC.
ESPECIFICAÇÕES
| Tipo | MI Moving Iron (compatível MM) |
| Cantilever | Boro de alta resistência |
| Tipo de diamante | Superfine Line Contact |
| Tensão de saída a 1kHz, 5cm/s | 3mV |
| Resposta de frequência | 20Hz a 25kHz |
| Equilíbrio de canais a 1 kHz | 1 dB |
| Separação de canais a 1 kHz | 27 dB |
| Impedância recomendada | 47k ohms |
| Complacência dinâmica | 8,5 x 10-6 cm/dina |
| Peso de rastreamento | de 1,3 a 1,8g (1,65g recomendado) |
| Peso | 8 g |
| Período de amaciamento | 30 horas |
| Agulha de substituição | Nagaoka JN-P500 |