

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br
Em 26 de maio de 1926, Miles Davis veio a este planeta.
Para comemorar o centenário de seu nascimento, diversos artigos foram escritos e inúmeras homenagens programadas em todos os continentes.
Eu preferi esperar a poeira baixar para escrever esta playlist, buscando atender principalmente ao nosso jovem leitor da Audiofone, que vive nos pedindo dicas de jazz e música clássica para conhecer e compartilhar com os amigos.
Aos que me abordaram em nosso último Workshop Hi-End Show, solicitando essas indicações, citei os artistas que foram essenciais na minha formação musical e que cresceram comigo enquanto meus amigos da mesma idade ouviam rock, blues e rock progressivo.
Foram eles: Miles Davis, Bill Evans, Ella Fitzgerald, Charles Mingus, John Coltrane e Duke Ellington.
Acredito que possuo praticamente a obra completa de todos eles, seja em LP ou em CD.
No entanto, preciso admitir que a tríade que me acompanha há pelo menos cinquenta anos é formada por Miles Davis, Bill Evans e Charles Mingus.
Os três impregnaram minha alma e minha mente com suas obras e, para mim, continuam soando absolutamente atemporais.
São os únicos artistas dos quais não consigo gostar mais de uma fase e menos de outra. Isso ocorre especialmente com Miles Davis.
Muitos admiradores de sua obra concentram suas audições apenas no período inicial de sua carreira, que vai dos anos 1950 ao início da década de 1960.
E é óbvio que o grande destaque dessa fase é o álbum Kind of Blue, lançado em 1959. e considerado por críticos e por grande parte do público de jazz como uma das gravações mais impactantes de todos os tempos.
Quando leitores e participantes de nossos Cursos de Percepção Auditiva me perguntam a razão de tamanho sucesso, costumo explicar que tudo começou com uma grande sacada de Miles: produzir um disco de jazz modal.
“O que vem a ser isso, Andrette?”
Trata-se de compor utilizando modos harmônicos em vez de progressões complexas de acordes, como as encontradas no bebop, estilo que dominou o cenário do jazz nas décadas de 1940 e 1950.
A crítica, sempre ávida por rotular tendências musicais, acabou batizando esse movimento de “Cool Jazz”.
Os temas foram apresentados por Miles ao grupo praticamente no momento da gravação, sem longos ensaios prévios ou extensas discussões sobre arranjos e andamento.
Não confundam isso com pura improvisação. Os modos harmônicos funcionaram como a espinha dorsal de todas as composições de Kind of Blue.
Então, meu jovem leitor, se deseja compreender um pouco da genialidade de Miles Davis, a primeira indicação desta playlist é, naturalmente, Kind of Blue (Columbia Records, 1959) – o disco de jazz mais vendido da história.

E, ainda hoje, soa tão fresco e surpreendente quanto no dia de seu lançamento.
Na década de 1960, enquanto as gravadoras ainda exploravam comercialmente o sucesso do Cool Jazz, Miles já preparava sua próxima revolução.
Em seu segundo grande quinteto, reuniu músicos jovens e talentosos, como Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams, apresentando ao mundo uma proposta musical muito mais aberta, baseada em composições livres e em um elevado grau de improvisação coletiva.
Cada músico contribuía diretamente para a construção da obra.
Para muitos críticos, essa fase serviu como preparação para o que surgiria daquela mente genial: o jazz fusion. Conta-se que sua segunda esposa, Betty Davis, admiradora de Jimi Hendrix, incentivava Miles a incorporar instrumentos elétricos em suas gravações.
Mas foi após assistir, por insistência de Joe Zawinul, a uma apresentação de John McLaughlin, que Miles se convenceu definitivamente de seguir esse caminho. A ideia era unir instrumentos elétricos a grooves repetitivos, quase hipnóticos, que funcionassem como mantras dentro das composições.
Os admiradores da fase Cool Jazz ficaram horrorizados com uma mudança tão radical.
Eu, no entanto, recebi essa nova fase com enorme entusiasmo. Ela me permitiu mostrar aos amigos que ouviam apenas rock, que existia uma ponte muito interessante entre o rock e o jazz.
O álbum In a Silent Way (Columbia Records, 1969) é minha segunda recomendação para você, que apreciou a fase cool, mas deseja adicionar um pouco mais de tempero à playlist. Nesse trabalho, Miles reuniu nomes como Joe Zawinul, Chick Corea, Herbie Hancock, John McLaughlin, Dave Holland, Wayne Shorter e manteve Tony Williams na bateria.

A crítica dividiu-se profundamente.
Os mais ferozes afirmaram que Miles havia jogado no lixo toda a extraordinária carreira construída na década anterior. Outros compreenderam sua proposta e a consideraram ousada, inovadora e extremamente válida.
Mas a grande diferença apareceu nos números. Miles deixou de tocar para plateias de 300 a 500 pessoas e passou a reunir mais de 10 mil espectadores em apresentações ao ar livre.
Com esse novo público, e um sucesso crescente em suas turnês, lançou a obra mais emblemática dessa fase: Bitches Brew (Columbia Records, 1970).

Já aviso aos jovens leitores: este é um disco divisor de águas. Ou se ama, ou se odeia. Não existe meio-termo.
Gostaria muito de receber o feedback daqueles que se aventurarem a incluí-lo em suas playlists.
A história conta que o projeto nasceu da ideia de uma possível colaboração entre Jimi Hendrix e Miles Davis, que infelizmente nunca se concretizou. Ainda assim, quem teve papel fundamental em toda a gravação foi John McLaughlin.
Para os críticos favoráveis ao álbum, Bitches Brew representou a quebra definitiva das fronteiras entre jazz e rock.
Os anos 1970 foram marcados por períodos de afastamento seu devido ao abuso de drogas pesadas, especialmente heroína, alternados por retornos ocasionais ao estúdio.
Somente nos anos 1980 voltamos a encontrar Miles plenamente ativo. Dessa fase final, destacaria dois trabalhos fundamentais.
O primeiro é Tutu (Warner Records, 1986), homenagem ao ativista sul-africano Desmond Tutu, com arranjos do contrabaixista Marcus Miller.

O segundo é Siesta (Warner Records, 1987), trilha sonora do filme dirigido por Mary Lambert, novamente em parceria com Marcus Miller.

Acredito que esses cinco trabalhos sejam capazes de oferecer uma excelente visão geral da brilhante trajetória de Miles Davis.
Na minha humilde opinião, além de músico extraordinário e visionário de novas tendências e linguagens musicais, Miles possuía um talento raro para descobrir, incentivar e lançar grandes músicos, ao longo de mais de meio século de carreira.
A lista de artistas que passaram por sua trajetória é imensa, e todo amante do jazz certamente aprecia muitos deles.
E a melhor maneira de homenagear Miles Davis continua sendo a mais simples de todas: ouvi-lo.
Lista dos discos: