Influência Vintage: AMPLIFICADORES SHARP DELTA SIGMA 1-BIT (1999)

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Christian Pruks
christian@avmag.com.br

Equipamentos Vintage que fazem parte da história do Áudio

O termo Vintage tem a ver com ‘qualidade’, mais do que ‘ser antigo’. Vem do francês ‘vendange’, safra, sobre uma safra de um vinho que resultou excepcional. ‘Vintage’ quer dizer algo de qualidade excepcional – apesar de ser muito usado para designar apenas algo antigo.

MADE IN JAPAN BY ENGINEERS

O domínio do Japão sobre o mercado de áudio mundial do começo da década de 70 até a virada para a década de 90, foi espelhado na importância que o aparelho de som tinha (muito maior que hoje) na vida das pessoas, em todos os níveis de qualidade, sendo quase um eletrodoméstico padrão.

E, mesmo nesse cenário, vale sempre lembrar que alguns equipamentos e marcas japonesas faziam parte muito frequente dos racks audiófilos – talvez só não dos mais hiper-puristas. Até porque o Japão produziu vários equipamentos de altíssimo nível, em várias categorias.

Frequentemente essas corporações se dedicaram a produtos obviamente bem mais caros, e mais ‘de nicho’ que a linha consumer da mesma empresa – às vezes abertamente Audiófilos.

Uma dessas corporações é a Sharp – que já foi bem mais relevante e ativa na criação de tecnologia, como atesta essa linha de amplificadores.

OS AMPLIFICADORES DELTA SIGMA 1-BIT DA SHARP

No final da década de 90, a Sony e a Philips apresentaram o SACD – Super Audio CD – como evolução do CD, utilizando o Direct Stream Digital (DSD) em vez do PCM, com características como usar apenas 1-Bit (contra os 16-bits do CD) mas com uma taxa de amostragem altíssima de 2.8224MHz (contra os 44.1kHz do CD).

Traseira

O SACD não vingou comercialmente, mas o formato que ele usa, o DSD, ainda é usado principalmente nos estúdios de gravação – mas não conseguiu superar o PCM na era do streaming por causa de seus tamanhos de arquivo enormes.

SM-SX1

Voltando a 1999, a Sharp resolveu não só pegar essa tecnologia de 1-Bit/2.8MHz do DSD e fazer um player de discos SACD, como também desenvolveu e lançou uma série de amplificadores digitais ‘classe D’ (3 integrados e alguns microsystems) que trabalhavam o sinal o tempo todo no âmbito digital em 1-Bit/2.8MHz, e apenas o convertiam para analógico na saída, após amplificado. Ou seja, todo sinal digital que você alimentasse pelas entradas digitais desses amplificadores, era logo convertido em DSD – assim como todo sinal analógico!

SM-SX10

Ou seja, bem avançadinho! E não foram únicos em parte de sua criatividade: tem outros amplificadores feitos ao longo dos últimos 25 anos, que tratam todo o sinal no âmbito digital, só convertendo-o para analógico na saída – mas eu acho que os Sharp foram os únicos em que esse âmbito digital é DSD, sendo o resto tudo PCM (inclusive um de meus amplificadores atuais, o Aiyima D03).

Até onde eu sei, o primeiro, e o mais recheado de aspectos e acabamentos audiófilos, dos amplificadores 1-Bit da Sharp, foi o belíssimo, e construído como um tanque de guerra, SM-SX100 (de 1999), cuja foto abre esta matéria, e que provia 100W por canal em 4 ou 8 ohms – selecionáveis por uma chave no painel traseiro.

O segundo, e com design bastante interessante também, foi o SM-SX1 (de 2000), com 50W por canal 4/8 ohms. E, finalmente, o mais simples dos três, o SM-SX10 (de 2005), com 50W em 8 ohms e 100W em 4.

A Sharp também filtrou a tecnologia de amplificação para a linha de micro-systems, como o SD-EX220. Até onde eu sei, todos esses foram fabricados apenas no Japão, e comercializados mais por lá do que pelo resto do mundo.

Interessante é que o SACD-Player da Sharp da época, o DX-SX1, podia ser conectado com um cabo proprietário de 13 pinos diretamente aos modelos SM-SX100 e SM-SX1 – uma conexão DSD pura! Em 1999!

MODELOS SEMELHANTES

A ideia de classe D, como tecnologia, é bem antiga – porém só foi aplicada em amplificadores de áudio em tempos mais recentes, como na década de 90.

Agora, poucos, mesmo hoje em dia, são “Pure-Digital” – sendo que o primeiro a fazê-lo foi Peter Lyngdorf da TacT Audio com o modelo Millennium, em 1998/99, com a tecnologia Equibit, e que o próprio projetista usa ainda hoje (em versão atualizada) na Lyngdorf Audio.

Poucos anos depois, em 2002, vieram os receivers Pure-Digital da Panasonic, sendo o primeiro de vários o SA-XR10.

Hoje em dia, além do Lyngdorf, acho que os amplificadores atuais da Technics, que usam a tecnologia JENO Engine, são os únicos Pure-Digital, junto com alguns chineses: o Aiyima D03 (citado acima) e o SMSL AD18, que usam chips da Texas Instruments, e alguns modelos da FX Audio e da Arylic, que usam chips da STMicroelectronics.

Aiyima D03
TacT Millennium
Panasonic XR10

Claro que existem outros Pure-Digital, mas nem os fabricantes dos chips e nem os ditos amplificadores integrados, fazem um bom trabalho de marketing divulgando isso. E o mercado audiófilo tem seu nicho em algumas poucas tecnologias de classe D, e pouquíssimo interesse no resto – enquanto isso, os baratos e bons amplificadores chineses ‘comem pelas beiradas’.

E, mesmo assim, nenhum outro amplificador classe D Pure-Digital que eu tenha ouvido falar, em todos os tempos, trabalha o sinal em DSD como os Sharp 1-Bit!

COMO TOCAM OS SHARP 1-BIT

Os amplificadores 1-Bit da Sharp sofriam do mesmo problema da maioria dos amplificadores classe D das duas primeiras décadas de existência deles no mercado audiófilo: soam hiper-detalhados, mas magros e extremamente secos de graves, quase assépticos, e podendo ser muito fatigantes e artificiais.

Os receivers Panasonic que vieram na sequência dos Sharp, não eram muito diferentes sonicamente – e até hoje a queixa e desgosto de muitos sobre essa tecnologia de amplificação, é essa mesma!

Claro que os classe D estão evoluindo paulatinamente, assim como já existem alguns no mercado que não têm esses problemas de sonoridade.

SOBRE A SHARP

Fundada em Tóquio, em 1912, por Tokuji Hayakawa, seu nome deriva da lapiseira mecânica Ever-Sharp que ele inventou.

Ao longo das décadas, foi evoluindo para uma gigante global da eletrônica, com o primeiro rádio de cristal em 1925, a primeira fábrica de televisores no Japão em 53, a primeira calculadora eletrônica transistorizada em 64, e a primeira calculadora LCD do mundo em 73.

Nas décadas de 80 e 90 foi pioneira na tecnologia de telas de cristal líquido LCD mas, nas décadas seguintes, com seu mercado em declínio, a Sharp passou por dificuldades financeiras, e acabou sendo adquirida pela fabricante de eletrônicos Foxconn, de Taiwan, em 2016.

Um bom julho – e não deixem a música parar!

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