

Christian Pruks
christian@avmag.com.br
Uns dois anos atrás (na edição 301 de novembro de 2023), eu escrevi um artigo de Opinião chamado “O Áudio Hi-End Esqueceu-se do Futuro?”, onde eu falava sobre como as pessoas não entendem o que é evolução e inovação, e como muitos amam o aparecimento de novas ‘tecnologias’ em vez de perceber que evolução é melhora substancial em tecnologias existentes.
Procuram uma evolução que é mais Quantitativa, em vez de Qualitativa – porque muitas das tecnologias, como passar de ‘com fio’ para ‘sem fio’, são na verdade uma involução em matéria de qualidade.
Vira e mexe aparece alguém para dizer de boca cheia, especialmente sobre toca-discos de vinil, o quanto “a tecnologia é a mesma desde o Fred Flintstone” – e agora apareceu um fabricante ‘especialista’ para dizer que o toca-discos involuiu, que piorou em relação aos vintage, e isso na cola de gente na Internet que, sendo fãs de vintage, acham que os toca-discos atuais não fazem frente aos antigos, como já se disse de caixas acústicas, de amplificadores e de tudo o mais – sempre absolutamente errados.
Obviamente a maioria dessas pessoas não ouviu um amplificador, caixa ou toca-discos bom moderno tocando em um sistema moderno de qualidade sonora boa, para verem que estão completamente errados. Ou mesmo a maioria deles não têm Referência musical sonora nenhuma, que os faz não saberem a diferença de estarem bebendo água ou areia…
Já falei muitas vezes que alguma Referência e alguma Metodologia são necessárias para se perceber e distinguir Qualidade Sonora, a qual é muito mais complexa e completa do que apenas ‘Quantidade’ de graves, médios e agudos medidos pelos laboratórios dos objetivistas atuais – que é o mesmo que dizer que um livro é ‘bom’ após ler as especificações dos fabricantes do papel e da tinta que foram usados.
Acho que, na verdade, esse tipo de objetivista é um tremendo inseguro.
Enfim, um ‘especialista’ – puxando sardinha para o produto e até para a visão dele sobre as coisas – declarou que os toca-discos não só não evoluíram em 60 anos, como não resolveram problemas hoje que fabricantes já tinham dominado 50 e poucos anos atrás!
O meu problema não é realmente o sujeito ter uma opinião, e até entendo ele falar essa bobagem astronômica para promover o produto dele – porém existem ‘formadores de opinião’ dando validação a isso, divulgando. É aquela velha característica: dê aos seus leitores aquilo que eles querem (polêmica), em vez de informá-los e educá-los.
Mas, vamos à algumas ideias que foram proferidas:
TECNOLOGIA DE TOCA-DISCOS NÃO MUDOU EM 60 ANOS?
A questão é que o disco, desde que existe, é redondo, composto do mesmo tipo de sulco, precisa ser rodado em uma velocidade específica, e algo precisa ‘ler’ esse sulco. E esse método é, desde sempre, mecânico feito por uma agulha fina que penetra dentro desse sulco e transmite essas vibrações para um motor elétrico – que é uma cápsula – onde a vibração do magneto envolto em bobinas (ou vice-versa), gera uma pequena corrente elétrica que é transmitida ao amplificador.
Tirando uma tentativa, que não vingou comercialmente, de tração magnética, onde o prato levitava, a tração permanece sendo ainda ou ‘direta’ com motor acoplado ao pino central do prato, ou feita por um motor externo ao prato que o aciona por uma ‘correia’ de borracha, ou uma ‘polia’ de borracha conecta o motor à borda do prato (sistema menos usado).
E, tirando uma tentativa, que não vingou comercialmente, de leitura dos sulcos através de um conjunto de lasers (toca-discos Laser ELP), essa leitura permanece ainda sendo feita mecanicamente por uma fina agulha de diamante que trafega dentro do sulco, transmitindo as vibrações para uma bobina ou magneto.
Podiam combinar ambas tecnologias, fazendo um toca-discos ‘moderno’ de verdade, com uma tração por levitação magnética, e uma leitura dos sulcos por lasers – e assim, ‘resolver’ aquilo que não temos tanta certeza de que seja realmente um ‘problema’, já que existem toca-discos tradicionais que tocam maravilhosamente bem sem custar um rim. Mas, desconfio que encontrarão novos problemas…Estão sempre procurando…

Para todos os efeitos, o toca-discos de vinil é uma tecnologia antiga, sim, e que sobreviveu todo esse tempo causando esse alto impacto que causa agora no mercado, contra qualquer previsão de qualquer guru ou entendido.
Por que toca melhor hoje?
Porque os materiais usados evoluíram, existem vários motores de ambos tipos de tração que provêm velocidade estável de maneira silenciosa e com baixa vibração, mesmo em toca-discos mais ‘de entrada’.
Os braços aperfeiçoaram suas técnicas construtivas em cima dos braços de décadas anteriores (muitas vezes pelas mesmas empresas e mesmos engenheiros), tocando melhor do antes, além de ter fiação interna de qualidade infinitamente superior em seu resultado sonoro.
E as cápsulas – que usam a mesma ‘tecnologia’ base – têm inovação em construção, materiais e técnicas, ressonâncias, campos magnéticos, massa das bobinas e dos magnetos, e tipos de fios e de técnica de enrolamento, soando bem melhores também.
E, quer saber? Um bom vinil toca sensacionalmente bem. E, fora os colecionistas inveterados, é algo que a maioria dos audiófilos mantém porque soa bem, não por saudosismo.
O ANTIGO É MELHOR DO QUE O ATUAL?
A ideia de alguns parece ser de que a qualidade da engenharia dos toca-discos vintage é melhor que a dos atuais, que as tolerâncias mecânicas, precisão e controle de ressonâncias era superior neles do que os toca-discos produzidos em massa hoje.
Bom, os toca-discos feitos em massa – em escala industrial – são hoje tão fracos e feitos de plástico oco quanto os antigos. A questão é que não se começa uma discussão sobre qualidade de projeto e de engenharia de equipamentos que são voltados à um público com discernimento, focado em qualidade, e com capacidade de investimento um pouco mais alto para obtenção dessa qualidade, citando o que a indústria faz ou não com aparelhos baratos. Esses últimos sempre carregaram pouca inovação tecnológica, pois essa custa caro e não é necessária para o público ao qual se destinam.

Hoje vários toca-discos que custam aproximadamente 1000 dólares (preço no exterior), batem em Qualidade Sonora, no resultado que provêm, a maioria dos toca-discos de 20, 30 ou 40 anos atrás que custavam 5 vezes mais! Assim como caixas acústicas de 600 dólares são bastante melhores hoje que muitas de 2000 ou 3000 de décadas passadas, e amplificadores integrados de 5000 dólares hoje batem prés & powers de 10 ou 20 vezes esse valor, de 20 anos atrás.
O mundo gira, evolui e, como diz nosso editor Fernando Andrette: nunca áudio de alta Qualidade Sonora, o áudio hi-end, teve tamanha qualidade com preço tão mais baixo.
E eu concordo plenamente.
ENTÃO, O QUE FAZ TOCA-DISCOS HOJE SOAREM TÃO BEM?
Os toca-discos e braços de hoje em dia – os bons, os de bom nível e de boa qualidade – são feitos seguindo ambas reclamações do tal ‘especialista’: tolerância e precisão na mecânica, e o uso de materiais especiais e técnicas construtivas modernas.
Como eu disse, muitos dos fabricantes e projetistas são os mesmos bons de antigamente, e hoje a engenharia mecânica de precisão não é algo restrito a prestadores de serviço da NASA ou de fabricantes de relógios suíços – assim como seu maquinário é extremamente difundido e ligado à computadores para maior precisão ainda. Se bobear, a tolerância de muitas empresas hoje (inclusive a do tal ‘especialista’) é facilmente maior que das empresas de antigamente.
E os materiais e técnicas construtivas são, hoje, o maior diferencial na extração de um outro nível de qualidade sonora de toca-discos de vinil. As melhores performances hoje são extraídas de aparelhos que usam misturas de materiais – cada um à sua maneira – para ‘tratar’ das ressonâncias de um equipamento que é, mormente, mecânico.
E vejam que eu disse ‘tratar’ as ressonâncias e não, particularmente, tentar eliminá-las por completo com o uso de pesos gigantes e materiais ultra ‘mortos’ em ressonância, algo que tende a deixar o som seco, sem calor e sem vida.
O tratamento e a maneira de dissipar as vibrações é que é o negócio.

Algumas mecânicas (conjunto motor e prato) das antigas são muito boas e fazem muito bonito ainda hoje, mas as base hoje, assim como os sistemas de amortecimento das mesmas, são muito melhores. E entre os braços antigos existem vários excelentes, mas que necessitam de manutenção, como troca de toda fiação interna e a limpeza e a regulagem dos rolamentos.
E isso, falo, de coisas muito especiais – pois o resto é melhor deixar no passado, se sua busca for por alto desempenho sonoro em sistemas de alto nível.
Dúvidas sobre toca-discos de vinil e afins? Entre em contato pelo: christian@avmag.com.br.