Espaço Aberto: REALIDADE MUSICAL OU HIPER-DETALHAMENTO IRREAL?

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Christian Pruks
christian@avmag.com.br

‘Musical’ ou ‘Analítico’, eis a questão!

Muitos de nós audiófilos somos obcecados com alguma coisa específica. “Ah, mas isso é geralmente uma questão de gosto pessoal, de assinatura sônica, não é?”

Não, nem sempre…

O que o Fernando Andrette fala bastante é sobre “ouvir o todo” em vez de obcecar pelo detalhe – até porque quando se foca em poucas coisas, o todo perde um pouco. Acho que a melhor exemplificação que me ocorreu é comparar com comida – e não precisa ser algo elaborado, pode ser um simples estrogonofe.

Minha mãe é uma pessoa que preferiria que o estrogonofe viesse todo separado: uma pilha de carne, outra de creme de leite, uma de champignon, e cada tempero em seu potinho… Segundo ela, quando mistura tudo, não dá para perceber e degustar cada coisa.

Acontece que não é para perceber e degustar cada coisa!

É essa a questão: a comida é o resultado químico da interação entre os vários ingredientes. Existem pratos na culinária mundial que levam facilmente 20 ou 30 ingredientes!

Um exemplo musical: em uma sinfonia composta para uma orquestra de mais de 100 músicos, exceto nos momentos em algum instrumento sola, ou recebe destaque, ou mesmo um naipe inteiro ‘vem’ para primeiro plano, a obra foi concebida pelo compositor para ser ‘ouvida como um todo’, como o resultado final do som de todos aqueles 100 músicos.

Claro que uma pessoa, como estudiosa de música – amadora (como eu) ou profissional – pode e deve querer entender como soam e funcionam cada naipe, cada instrumento, em vários estilos de música.

Mas isso é muito diferente de querer achar que pode e deve distinguir e perceber com precisão e clareza cada músico de uma orquestra, ou de um grupo médio ou grande de música instrumental, durante um concerto – por mais silencioso que o ambiente seja, e por melhor que seja a acústica.

Estudar e entender separadamente, engrandece a percepção e enriquece a experiência – mas na hora de ouvir a sinfonia ao vivo, é o Todo que deve ser ouvido, é o resultado final, é o estrogonofe como sendo um resultado mais rico e interessante que apenas suas partes separadas.

Isso me lembrou de audiófilos que preferiam ouvir música clássica em seus sistemas – porque conseguiam ouvir detalhes com mais clareza – do que presencialmente, ao vivo, nas melhores salas de concerto. E eu acho isso muito bizarro, como se a pessoa ficasse em casa pingando essência natural de baunilha da língua, alternando com um ovo e com leite condensado, e preferindo isso do que comer o pudim da vovó…

Entendo o porquê dessa busca – mas não faz sentido quando ela ultrapassa a realidade e entra em algum esquisito âmbito quase metafísico.

Transcender a realidade, como demonstrado diversas vezes e de diversas maneiras na história da humanidade, não é tão engrandecedor assim – e é, geralmente, algo falso.

Imagina que você seja fã de bacon – e um dia você de dedica a um hobby cuja razão de existência é achar, fazer e comer o bacon que parece o mais natural, o mais real possível, usando a melhor carne do melhor porco, com os melhores temperos e o melhor processo de defumação possível com as melhores madeiras – tudo para chegar do outro lado e achar que Baconzitos é uma experiência ‘Mais Bacon do que o Bacon Real’: melhor que a Realidade. E eu acho isso uma armadilha horrível, e na qual muitos caem.

Tem um bocado de audiófilos que desprezam a ideia de que é preciso ter uma Referência com música acústica real, ao vivo, com o som real dos instrumentos, para se poder escolher, acertar e regular um sistema de áudio de alta qualidade. E aqui me ocorre, novamente, coisas que eu ouvi em uma sala de concerto de nível internacional, ao final de um concerto de uma orquestra também de nível internacional:

Uma delas foi um sujeito dizendo “É muito bonito, mas o som é muito baixo” (não, meu amigo, é você que ouve seu sistema ou fone alto demais!). Outro disse que faltava agudo na sala de concerto (não, meu amigo, você que ouve música com agudo demais!). E por aí vai…

Eu vejo isso como aquele que experimentou suco de laranja natural pela primeira vez, e comenta que “tem pouco gosto de laranja”. Ou o que viu o pôr-do-sol pela primeira vez ao vivo, em vez de por foto, e declara “está meio escuro e precisa ser mais amarelo”.

Cada um com seu gosto – cada um com sua busca. Mas, afirmo, a busca pelo correto e pelo Real em seus sistemas de áudio, é muito mais engrandecedora e prazerosa que alternativas artificiais.

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