

Christian Pruks
christian@avmag.com.br
A questão, que eu já vi mais de uma vez ser indagada nos círculos audiófilos na Internet, era – inicialmente – sobre como os desenvolvedores projetam seus equipamentos, ou pensam seus projetos, levando em conta as diferenças auditivas entre cada audiófilo.
Diferenças, não necessariamente deficiência.
Ou seja, a questão era voltada principalmente para aquele ponto de vista meio batido do “cada um ouve de um jeito diferente” – o que relativiza tudo e qualquer coisa sobre áudio, sobre Qualidade Sonora, como se tudo fosse reduzido ao “gosto pessoal”.
Aí entraram na conversa as pessoas que realmente têm deficiências auditivas ao ponto de precisarem de aparelhos de surdez – e, também, aqueles que não chegam a precisar: como os que sofreram alguns abusos em seus sistemas auditivos, de vários níveis, ao longo de uma vida, os que atingiram uma certa idade e isso implica e diminuições e perdas, e os que apenas se tocaram que cada um tem um perfil diferente, cada um ouve diferente…
“Mas, espera aí, Christian! Você não lutou sempre contra esse termo, contra essa definição?”
(Aparentemente eu, o Fernando Andrette e o ‘saudoso’ imperador romano Caio Júlio César, falamos de nós mesmos em nossos textos na Terceira Pessoa, rs!!)
Eu nunca fui contra essa definição, até porque cada um ouve ligeiramente diferente devido ao uso da audição ao longo da vida – e deficiências que possam ter ocorrido – e às diferenças entre formato de orelhas e afins, etc.
O que acontece é que a ‘Percepção Informada’, digamos assim, a interpretação do que ouvimos, é feita pelo cérebro. O aparelho auditivo capta, mas é o cérebro que interpreta tudo aqui e entende, e que desperta o emocional e o intelectual, aprendido, sobre aquilo que ouviu.
E é o cérebro que pode fazer uma série de compensações – algo que acontece com todos os nossos outros sentidos, e que pode ser por pequenas diferenças, assim como até por perdas de algum desses sentidos, onde se aguçam outros sentidos.

O que entende, melhor ou pior, a complicada língua chinesa (alguma das várias), por exemplo, é o cérebro – educado sobre ela – e não as diferenças de tamanho de orelha e formatos de parte do sistema auditivo.
O sistema auditivo físico é como um microfone – ele escuta ‘mais’ ou ‘menos’, ele é Quantitativo. As diferenças e deficiências (até certo nível), são compensadas pelo cérebro, que é um sistema Qualitativo, o qual tem seu próprio ‘room correction’ e faz a interpretação daquilo. Se o cérebro está treinado, ele distingue uma buzina automotiva de uma caixa acústica reproduzindo um trompete – se o cérebro não está treinado, ele pouco ou nada faz dessa distinção. É como
distinguir sua mãe gritando de outra mulher gritando – ou se o barulho do motor do carro envenenado é o do seu primo, que você conhece bem, ou se é qualquer outro carro envenenado.
Isso eu estou falando à grosso modo – mas temos inúmeros exemplos disso todos os dias, em nossa vida inteira.
Por quê? Porque temos, desenvolvemos, aprendemos e armazenamos REFERÊNCIA!
E, mesmo assim, inúmeros audiófilos não acham importante saber como é o som de um saxofone ou de uma percussão, por exemplo, para gastarem dinheiro e tempo e esforço para ouvirem saxofone e percussão em seus sistemas!
E assim cometem erros atrás de erros – e ainda mais erros – no setup, na sinergia, nas escolhas e nos upgrades.
Mas, mesmo assim, quando você tem essas diferenças, diminuições em frequências audíveis, mesmo que você ignore (ou não) que seu cérebro cria compensações, será que não valeria a pena alterar seu sistema para compensá-las? Como, por exemplo, se você tiver por causa da idade uma diminuição na audição de frequências mais altas, não vale a pena equalizá-las?
Eu diria que não – eu não faria isso jamais, como nunca o fiz. Eu nunca fui medir deficiências do meu sistema auditivo, mas tenho certeza que elas existem, até porque morei 46 anos em São Paulo, andando na rua, morando perto de avenidas barulhentas, utilizando o metrô, etc.
Mas, porque eu não faria essas correções jamais em meu sistema? Por dois motivos:
1) O cérebro trabalha muito bem compensando esses desgastes, deficiências e diferenças, não sendo necessário para a maioria das pessoas, corrigi-las artificialmente.
2) Porque essas compensações do cérebro permitem – para essa maioria de pessoas – a plena percepção da música acústica ao vivo, a Referência, a realidade e, portanto, também perceber a melhor cópia dela que pudermos ter em casa, compreender o que faz elas serem o que são, e porquê. E a música ao vivo não pode ser regulada, ajustada, equalizada, redefinida, para caber nas deficiências de nossas percepções.
E Referência, meu amigo, é como o pôr do sol ou a naturalidade do tom de verde das plantas: não importa se cada um vê ligeiramente diferente, pois quem viu e memorizou o Real, o mundo real, sabe ao olhar uma foto ou uma imagem em um vídeo, se está mais correto ou mais falso. Imagine isso em uma imagem inteira, que é mais do que 1000 palavras, ou mesmo a representação de uma peça musical em um bom equipamento de áudio, que seria mais do que 1000 imagens!

A única exceção à manipulação das deficiência auditivas são as pessoas que realmente têm sofrem de deficiências auditivas que necessitariam de alterações gigantescas em seus sistemas para ter uma mínima percepção da música, ou mesmo suas audições regrediram ao ponto da perda de audição quase completa ou grande em algumas frequências – pessoas que precisam de aparelhos de surdez.
Claro que o que o aparelho de surdez já cria compensações, não precisaria ser ainda mais alterado no sistema de som.
Inclusive há depoimentos de usuários de aparelhos de surdez de melhor qualidade, bastante bem ajustados, que dizem que conseguem até percepção de palco em um sistema de som. Não sei dizer até que ponto é verdade, mas impossível não é.
E ainda não é, que eu saiba, definitivo que algum aparelho de surdez permita uma pessoa perceber e usufruir com certa plenitude de um equipamento de som de alto nível. Mas, quem sabe não estamos próximos?
Agora, para o resto de todos nós, acho muito melhor nos adaptarmos ao mundo, do que esperar que ele se adapte à nós.