

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br
Cassandra Wilson nos deixou cedo demais.
Aos 70 anos, ainda tinha muito a nos oferecer com sua voz de contralto, que transitou com maestria pelo jazz, blues, folk e pop.
Vencedora de dois prêmios Grammy, foi escolhida pela revista Time, em 2001, como a melhor cantora dos Estados Unidos.
Nascida no Mississippi, iniciou seus estudos musicais na infância, primeiro ao piano. E, na adolescência, escolheu o violão como instrumento para compor e cantar.
Os músicos que tiveram a oportunidade de tocar com ela sempre destacaram seu timbre marcante e sua maneira de interpretar. Mesmo ao cantar standards de jazz e blues, incorporava elementos da música folclórica e de improvisação aos arranjos.
Foi preciso deixar o Mississippi e se mudar para Nova York para começar a conquistar o reconhecimento da crítica, na década de 1980. Trabalhou em bares noturnos até lançar, em 1988, seu terceiro álbum, Blue Skies, pelo pequeno selo alemão JMT Records.
O relativo sucesso de vendas desse trabalho abriu-lhe as portas da gravadora Blue Note. Seu primeiro álbum pelo selo, Blue Light ‘Til Dawn, foi lançado em 1993.

A gravação também lhe rendeu convites para se apresentar em importantes festivais de jazz na Europa e na Ásia.
Em 1995, lançou seu disco mais emblemático: New Moon Daughter, vencedor do Grammy de melhor álbum vocal de jazz.

O segundo Grammy veio em 2008, com Loverly, na mesma categoria.
Seu talento como cantora, compositora e arranjadora a levou a colaborar com Steve Coleman, Greg Osby, Luther Vandross,
Regina Carter, Angélique Kidjo, John Legend e Ravi Coltrane. Também realizou uma longa turnê, de quase um ano, com a Count Basie Orchestra.
Em 1997, foi convidada para ser a voz principal do oratório Blood on the Fields, de Wynton Marsalis, a primeira obra de jazz a receber o Prêmio Pulitzer de Música.
E em 2020, participou do grupo Dopamine ao lado de Elvis Costello, DJ Premier, T-Bone e Nathaniel Rateliff.
Wilson, em 2022, recebeu o título de Jazz Master da National Endowment for the Arts, uma das mais importantes distinções concedidas a músicos de jazz nos Estados Unidos.
Acredito que a maioria dos leitores desta seção Playlist, conheça o trabalho de Cassandra Wilson. Já indiquei três dos discos citados acima, e recomendei seu uso na análise de sistemas, graças à excelente qualidade técnica das gravações.
Eles são especialmente úteis para avaliar Equilíbrio Tonal, Textura, Transientes e Corpo Harmônico – as gravações da Blue Note têm um nível técnico excepcional.
Quando essa qualidade se une à artística, o resultado são verdadeiras obras-primas.
Para os leitores que ainda não pensaram em usar esses discos no ajuste fino de seus sistemas, esta é uma ótima oportunidade.
Nesta homenagem, porém, vou substituir Loverly por Traveling Miles, de 1999, uma bela homenagem a Miles Davis.

Comece por Blue Light ’Til Dawn – gravado em tempo real, com todos os músicos tocando juntos, o álbum revela a versatilidade de Cassandra Wilson em arranjos minimalistas, complexos e criativos.
Um deleite para os ouvidos!
Na sequência, ouça o belíssimo New Moon Daughter. Se me permite uma sugestão, comece pela segunda faixa, Love Is
Blindness, uma interpretação primorosa da canção do U2 que apresentou Cassandra a um público mais amplo, jovem e pouco familiarizado com o jazz.
Essa sua versão de Love Is Blindness chegou a tocar em inúmeras emissoras FM pelo mundo. Esse trabalho levou Cassandra Wilson a outro patamar.
O disco está repleto de belas melodias.
Por último, deixo Traveling Miles para os ouvidos mais ecléticos. Nele, Cassandra não se contentou em cantar obras consagradas pelo trompetista: também compôs e reescreveu temas, dando-lhes sua interpretação pessoal.
É um disco menos acessível? Talvez, se você não for grande fã de jazz ou se apreciar a obra de Miles apenas na chamada fase cool.
Desejo que, em seu sistema, esses três trabalhos soem como foram concebidos e o emocionem profundamente.
Não consigo imaginar homenagem mais singela do que ouvir
Cassandra Wilson com toda a atenção, como se ela estivesse ali, ao alcance de nossas mãos e de nossos olhos.