

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br
Quando soube, por meio de Fábio Storelli da German Audio, que faríamos o primeiro teste mundial desse produto, pensei: “Ok, vamos para mais esse desafio”.
Claro que nos honra ter este privilégio, mas, junto com ele, vem aquela enorme responsabilidade. Afinal, não se trata de mais um produto deste fabricante suíço, e sim de sua nova linha, acima da consagrada série HD.
Como testamos toda a linha HD antes de recebermos o Reference, fui reler minhas anotações pessoais – e como são úteis nesses momentos! – e repassar o teste, para relembrar os detalhes mais marcantes.
Sugiro a todos que não tiveram interesse, na época, em ler minha avaliação do Pré HD, que o façam (clique aqui), pois conseguirão ter uma ideia consistente do que significa já ter um produto de nível superlativo e, ainda assim, existir espaço para novos saltos qualitativos.
Ao reler o teste do Preamp HD da Nagra, passou pela minha cabeça: “O que diabos os engenheiros da Nagra acharam necessário aprimorar?”.
Quando revi minhas anotações pessoais, constatei que o pré HD foi lançado em 2017, ou seja, já tem quase uma década de vida. Com essa informação em mente, entendi o motivo de a Nagra querer dar um novo salto.
Segundo o fabricante, as mudanças foram significativas, com a introdução de novos capacitores customizados, feitos sob medida, elevando o refinamento do sinal em relação ao HD.
Novas fontes de alimentação de alta tensão, com uma impressionante tensão de grade de 200V DC.
Há ainda a possibilidade de upgrade para fonte dupla, transformando o Reference em dual mono, para uma separação do sinal de áudio ainda mais realista.
Nova fonte de alimentação com o uso de supercapacitores (super-caps), garantindo uma reserva de energia ainda mais estável e livre de ruídos.
Novo isolamento contra ruído, com a utilização de uma camada interna de resina fenólica sob a tampa superior de alumínio, para aprimorar o amortecimento mecânico contra vibrações espúrias.
Em relação ao gabinete, visualmente, a única diferença em relação ao HD é o logo REF, posicionado logo acima do modulômetro da Nagra.
As válvulas utilizadas são duas E88CC NOS, testadas e selecionadas rigorosamente pela própria Nagra.
O painel frontal é idêntico ao do pré HD, com seus botões de volume individuais. O controle de volume é feito por transformadores acionados por motores de alta precisão, mantendo os potenciômetros fora do caminho direto do sinal de áudio.
Igualmente o painel traseiro, com seu arsenal de entradas RCA e XLR – como na versão HD.
Para o teste, foi-nos enviado o produto com apenas uma fonte. Ao término da avaliação, fiquei me perguntando: o que ainda poderia ser mais ‘refinado’ com duas fontes?
Vamos direto às audições…
Para o teste, utilizamos apenas nosso Sistema de Referência (leia o box ao final do teste).
E, para fechar a nota do Reference, ouvimos as mesmas 80 faixas da Metodologia utilizada em nosso pré-amplificador Nagra II-S (clique aqui).
Já detalhei, em outros testes de produtos da Nagra, que a participação da equipe de engenheiros é integral, com todos tendo a oportunidade de ouvir os protótipos e dar suas opiniões antes de o produto ser finalizado. O material utilizado nas audições por todos são as centenas de masters produzidas pela Nagra, gravadas no Festival de Jazz de Montreux.
No staff de desenvolvimento também há músicos e engenheiros de gravação.
Como sempre defendemos editorialmente, sem conhecimento técnico, Metodologia, e referências de música ao vivo não amplificada, não se atingem patamares de excelência auditiva.
Tendo a felicidade de testar praticamente 90% de todos os produtos da Nagra lançados nesses últimos 10 anos, não tinha nenhum motivo para duvidar de que a linha Reference seria superior à série HD.
A questão era, então, mensurar o quanto de melhorias audíveis eu perceberia.
Fizemos o ritual utilizado em todo produto que nos chega para avaliação. Montamos o equipamento e passamos nossas gravações para as primeiras impressões.
Aí se segue o processo de amaciamento que, dependendo do nível de performance inicial, pode ser de apenas 50 horas a 250 horas.
Acostumado com os produtos da Nagra que, em sua topologia, utilizam válvulas – caso dos pré-amplificadores – antes das primeiras impressões deixamos as válvulas estabilizarem termicamente por uma hora.
Ter nossas gravações, pelas quais fui responsável por todas as etapas – desde a escolha dos microfones e o posicionamento dos instrumentos na sala de gravação até a mixagem e a masterização -, permite-me reconhecer qualidades e limitações do produto em teste de maneira muito mais segura do que utilizar excelentes gravações que eu não tenho a menor ideia de como foram produzidas, ainda que meu cérebro as aprove auditivamente.
E, de imediato, nas primeiras impressões, a primeira frase que anotei em meu diário foi: “Realismo holográfico impressionante!”.
A faixa 5 – Água de Beber, do CD Genuinamente Brasileiro, volume 2, com as seis vozes à frente do palco, perfiladas, e com o percussionista e o violonista atrás das vozes, materializou-se com uma imagem sonora 3D que levou meu cérebro a ver o que estava ouvindo, como no dia da gravação no Teatro Alfa.
A mesma sensação de realismo ocorreu na faixa 12 do Genuinamente Brasileiro, volume 2, com o distanciamento ‘real’ entre o pianista e o violista, ao centro do palco, e o violinista no canal esquerdo. Essa faixa, em excelentes sistemas, nos dá uma ideia aproximada da distância em que coloquei os três músicos, para que os microfones de cada instrumento não vazassem para o instrumento ao lado, e a uma distância que lhes permitisse ouvir-se e olhar-se, sem o uso de fones de ouvido, já que tudo foi feito em tempo real.
Eu tive que repetir os primeiros dois minutos dessa faixa para meu cérebro entender como as distâncias se tornaram muito mais próximas da gravação.
Óbvio que, com esses dois exemplos, já tive uma ideia do que me esperaria ao ouvir os exemplos de faixas com muitos instrumentos, como os usados para avaliação de foco, recorte, planos e macrodinâmica.
A idade é uma bênção, pois, se tivesse este produto em teste aos quarenta anos de idade, tenho certeza de que a ‘ansiedade’ de já ouvir todos os exemplos para saber como soariam me faria atropelar a avaliação e deixar de saborear cada momento em seu devido tempo.
Coloquei o Reference para amaciar por 50 horas e, depois, iniciei os testes.
Em termos de equilíbrio tonal, sua assinatura sônica faz jus ao seu nome: referencial em todas as circunstâncias.
Graves com uma solidez capaz de nos fazer repensar como aceitamos menos que isso e, ainda assim, achamos, antes de comparar com o Reference, que temos graves excelentes.
O deslocamento de ar é impressionante. Se quiser ter uma ideia de sua solidez, nem indico bumbo de bateria ou tímpano – indico algo mais complexo, como a mão esquerda do pianista Chucho
Valdés, a “patada de urso”, e garanto que você irá se assustar com a quantidade de harmônicos e peso que sua mão esquerda possui.
Aí, você pode ouvir seus bumbos preferidos, tímpanos, tambores japoneses e afins.
A região média é a mais favorecida pelo grau de realismo holográfico deste pré-amplificador.
Vozes soam tão orgânicas e materializadas que você percebe nuances que outros prés excepcionais nem sequer permitem perceber, como se esse detalhe estivesse na gravação.
Não falo de detalhes que emergem pelo seu silêncio de fundo excepcional, e sim pela ‘magia’ alcançada com seu realismo holográfico.
Se tem uma voz que conheço muito bem, é a da querida amiga Jane Duboc, que participou do Genuinamente Brasileiro, volume 2 — faixa 3. Nos dois takes que fizemos, eu estava a apenas 3 metros dela, de olhos fechados, ouvindo-a acompanhada pelo amigo e pianista Emilio Mendonça. Lembro-me de que, após o primeiro take, pedi que ambos não se preocupassem tanto com o andamento e focassem em “expressar” a letra.
Parece algo tão subjetivo de se pedir, mas, principalmente os cantores, entendem perfeitamente o que isso significa.
Ouvindo o take que escolhemos no meu pré Nagra II-S, essa observação intencional solicitada não é tão evidente.
Já ao reproduzi-la no Reference, é audível o quanto ambos estão intimamente sintonizados em expressar a letra.
E Jane Duboc faz isso de maneira magistral, dando maior ênfase às palavras-chave, que exprimem o sentimento de descoberta de uma emoção que brota depois de um amor desfeito e sofrido.
Outro belo exemplo do grau de realismo nos médios foi ouvir a faixa 10 da cantora Rachelle Ferrell, em sua apresentação ao vivo no Festival de Montreux, em 1997.
A sustentação nos agudos e sua técnica vocal, reproduzidas no Reference, são de arrepiar os pelos do braço, meu amigo.
Tudo na região média seu cérebro interpretará como mais preciso, mais detalhado e mais rico em informação e presença.
E aí vamos para os agudos: Se algum audiófilo tem dificuldade em compreender o que significa plena extensão e decaimento suave e natural, garanto que, ao ouvir pratos e ambiência de salas de concerto devidamente captadas, nunca mais esquecerá como essas características soam em um pré de nível superlativo, como o Nagra Reference.
Novamente, tive que recorrer à comparação com o Nagra II-S, e as diferenças são muito significativas. Principalmente na sustentação das extensões dos pratos de condução que, no pré Reference, soam com maior realismo e mais naturalidade.
O soundstage é outro ponto fora da curva, pois a imagem sonora 3D nos coloca em outro patamar de referência em relação a este quesito da Metodologia.
Tudo possui maior arejamento, maior silêncio entre os instrumentos, melhor plano na apresentação de naipes de uma orquestra, foco sólido e quase palpável e uma precisão no recorte capaz de nos deixar atônitos!
Você não só vê o que está à sua frente – seu cérebro acredita que aquela holografia sonora é muito realista.
Faça uma analogia com a imagem: a sensação é de que estamos vendo uma paisagem com maior proximidade, maior detalhamento e melhor contraste entre os objetos.
Isso faz com que seu cérebro, ao interpretar aquela informação auditiva, diga a si mesmo: “Agora sim! Demorou, mas finalmente chegamos a algo acima do que era apresentado”.
Em uma sala em que a música possa transpirar e se materializar, o soundstage será absolutamente impressionante!
À medida que fui anotando e ouvindo todas as características excepcionais dos primeiros dois quesitos, preparei-me devidamente para o impacto que seria avaliar texturas neste pré-amplificador.
E, por mais que tenha me preparado, o choque ocorreu inevitavelmente.
Não foi a riqueza de cores para a formação do timbre o que mais impressionou e emocionou. Foram as “entrelinhas”, a intencionalidade, que me fizeram entender o quanto o pré-amplificador é, irrefutavelmente, o cérebro de todo sistema hi-end.
Desculpem os que têm a ilusão de que podemos renunciar a um pré-amplificador em nossos sistemas, pois isso ainda não é possível.
Principalmente nos sistemas Estado da Arte.
Se algum audiófilo nutre essa ilusão, sugiro que ouça o Reference em seu “Estado da Arte” e assimile o que está perdendo ao eliminar essa peça de um setup impecavelmente ajustado.
Você deseja entender emocionalmente o que o faz gostar de uma obra tocada pelo pianista A em vez do pianista C?
Ou uma sinfonia que você tanto admira e da qual tem seis ou mais gravações, com diferentes orquestras e maestros, e não consegue definir qual delas lhe toca a alma?
Garanto que a resposta a essa dúvida musical será sanada assim que você ouvir as ‘intencionalidades’ neste pré-amplificador e, claro, souber exatamente o que o compositor tinha em mente ao escrevê-la.
Peguei uma obra de fácil entendimento intencional, o Bolero, de Maurice Ravel, composta por encomenda da amiga, bailarina e atriz russa Ida Rubinstein.
A intencionalidade de Ravel foi criar uma melodia única, com frases repetitivas, forte inspiração na música espanhola e forte apelo rítmico em ostinato (padrão rítmico constante). Ao compor a obra, ele imaginou um crescendo lento, porém constante, até o fortíssimo do final.
Peguei quatro gravações que possuo dessa obra e as ouvi no Reference.
Não direi quais são as minhas duas preferidas, porém nunca consegui escolher de qual gostava mais entre essas duas opções. Pois, em termos de intencionalidade, o Reference não deixou nenhuma margem de dúvida sobre qual era a melhor.
Também peguei este exemplo para avaliar transientes, já que, ritmicamente, é um excelente exemplo para avaliarmos precisão e marcação de tempo.
O Reference deixou claro que duas das versões que usei pareciam ter um pouco de letargia na marcação do tempo, enquanto as duas preferidas apresentavam o contrário: precisão cronometrada e forte impacto à medida que a obra vai ganhando em dinâmica.
No meu pré de referência, consigo facilmente ver as diferenças entre a qualidade dos transientes nas quatro gravações, mas escolher a melhor em termos de intencionalidade entre as duas, não.
Macrodinâmica, ligada aos powers HD: meu sistema deu um salto considerável, pois o Reference tem muito mais folga nos fortíssimos que meu pré Nagra II-S.
Muito mais mesmo!
E a microdinâmica? Seu silêncio de fundo é essencial para a riqueza de informações que emergem no pano de fundo de um pianíssimo.
O corpo harmônico é tão exuberante quanto seu soundstage. Ouvi pianos solo – inteiros – em nossa sala, assim como órgão de tubos, contrabaixos, clarones e corais.
Seu cérebro, depois de ouvir este quesito no Reference, ficará muito mal-acostumado. Este é o problema!
E chegamos à materialização física do acontecimento musical à nossa frente: organicidade.
O leitor atento certamente irá reparar que, neste quesito, sempre faço um adendo ao lembrar que o efeito de materialização sonora só ocorrerá com gravações tecnicamente primorosas, certo?
O Reference amplia esse leque de opções para gravações de boa qualidade técnica. Algo inédito até o momento em nossas observações auditivas de milhares de produtos testados nesses 30 anos da revista.
Ouvi gravações nas quais jamais havia materializado à minha frente o cantor ou o solista. Exemplos: Sade, Peter Gabriel, Paul Simon, João Bosco etc.
Gravações que aprecio musicalmente, porém nas quais meu cérebro jamais se enganou, achando que aquela reprodução estava fisicamente na sala.
E, com o Reference, isso ocorreu com todos esses cantores. Deixando de ser um “espectro de voz” para se tornar uma voz holograficamente presente na sala.
CONCLUSÃO
Em 75 anos de existência, a Nagra não precisa provar mais nada ao mercado em termos de competência, seriedade e capacidade de se manter na linha de frente no segmento Estado da Arte.
Quem não souber reconhecer essa sua virtuosidade provavelmente nunca a ouviu em condições ideais.
São produtos icônicos que continuam referenciando o mais alto nível de performance a ser objetivamente alcançado no mercado hi-end.
O Nagra Reference Preamp é o mais impressionante pré de linha por nós já avaliado até o momento.
Se você tiver capital e disposição para possuir um pré de linha para um sistema Estado da Arte superlativo, minha sugestão é que o coloque na sua lista de opções como prioridade.
EQUIPAMENTOS UTILIZADOS NO TESTE
PONTOS POSITIVOS
O mais impressionante e impactante pré de linha já testado pela revista.
PONTOS NEGATIVOS
Preço, para o poder aquisitivo do audiófilo brasileiro.
ESPECIFICAÇÕES
| Impedância de entrada | 50kOhms |
| Impedância de saída | < 0,2ohms (Volume em -15dB) < 40ohms (Volume em 0dB) |
| Faixa dinâmica | 150 dB (Volume em -15dB) |
| Nível de entrada para 0dB (no modulômetro) | – Baixo: 1,0Vrms (Volume em 0dB) – Alto: 2,0Vrms (Volume em 0dB) – Estúdio: 10Vrms (Volume em 0dB) |
| Crosstalk | > -130dB 1Vrms 1kHz > -110dB 1Vrms 20kHz |
| Válvulas | 2x E88CC NOS selecionadas e testadas pela Nagra |
| Dimensões (L x A x P) | 438 x 396 x 121 mm |
| Peso | 30kg – pré-amplificador e fonte de alimentação |
| NAGRA REFERENCE PREAMP | ||||
|---|---|---|---|---|
| Equilíbrio Tonal | 15,0 | |||
| Soundstage | 15,0 | |||
| Textura | 15,0 | |||
| Transientes | 14,0 | |||
| Dinâmica | 14,0 | |||
| Corpo Harmônico | 14,0 | |||
| Organicidade | 15,0 | |||
| Musicalidade | 15,0 | |||
| Total | 117,0 | |||
| VOCAL | ||||||||||
| ROCK, POP | ||||||||||
| JAZZ, BLUES | ||||||||||
| MÚSICA DE CÂMARA | ||||||||||
| SINFÔNICA |


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