Ponto e Contraponto: OBJETIVIDADE X SUBJETIVIDADE

AUDIOFONE – Editorial: DAC DONGLE: VOCÊ AINDA VAI TER UM
6 de julho de 2026
Influência Vintage: AMPLIFICADORES SHARP DELTA SIGMA 1-BIT (1999)
6 de julho de 2026

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br

No Workshop deste ano, fui convidado pela Audio Prime para conceder uma entrevista sobre diversos temas relacionados ao universo Hi-End.

Para quem tiver interesse em assistir à entrevista na íntegra, basta clicar no vídeo que coloquei na abertura deste Ponto e Contraponto.

Os conteúdos produzidos pela Audio Prime são muito interessantes, trazendo dicas de equipamentos, projetos completos de home theater e automação e, agora, também entrevistas com profissionais desse amplo mercado de áudio e vídeo.

Gostaria de agradecer à incrível equipe da Audio Prime pela oportunidade de falar com um público que, certamente, ainda não conhece o nosso trabalho.

Ao ler as mensagens de quem assistiu ao vídeo, percebi que, além das pessoas que apreciaram o conteúdo apresentado, houve críticas à forma como defini o Hi-End e à questão do chamado “efeito placebo” que, para muitos objetivistas, poderia ser facilmente comprovado por meio de um teste cego AxB.

Minha preocupação, ao responder às perguntas feitas pelo apresentador, foi evitar respostas excessivamente longas e cansativas.

No entanto, considerei essas críticas tão pertinentes que decidi escrever este artigo. Não como uma resposta aos que me criticaram, mas por acreditar que o tema merece uma reflexão mais aprofundada.

Vamos começar pela questão: cabos fazem diferença ou são apenas placebo?

Minha experiência prática – e não teórica – com cabos começou em 1982.

Na época, eu ainda recomendava equipamentos para amigos e familiares, além de trocar muitas informações com meu pai sobre as observações que ele fazia nos sistemas de seus clientes.

Praticamente todos os sistemas utilizavam o famoso cabo ‘flamenguinho’ para as caixas acústicas ou o tradicional ‘fio de campainha’, aquele cabo branco que muitos preferiam por possuir bitola maior.

Eram as opções disponíveis durante o período da reserva de mercado. Aliás, somente o brasileiro seria capaz de batizar de ‘flamenguinho’ um cabo preto e vermelho. No país do futebol, isso faz todo sentido.

Meu pai, entretanto, começou a relatar que alguns clientes haviam lido artigos técnicos afirmando que trançar o fio de campainha proporcionava um ganho perceptível de graves em determinadas caixas acústicas de suspensão acústica.

Não me lembro de ter realizado essa experiência em meu próprio sistema, pois tive a sorte, graças a um amigo, de receber quatro metros de um cabo japonês da Furukawa que, segundo o fabricante, era o primeiro cabo de cobre OFC do mundo.

Lembro-me de medir aqueles quatro metros duas vezes antes de cortá-los ao meio, garantindo dois metros exatos para cada lado.

Meu pai estanhou as pontas e, quando instalei o cabo no sistema, experimentei um dos upgrades mais consistentes que havia realizado até então.

Minha caixa acústica, que apresentava graves tímidos e magros, ganhou peso e velocidade. A região média tornou-se muito mais definida, recuperando detalhes de microdinâmica e camadas de informação que antes passavam despercebidas.

Nos agudos, a sensação era semelhante à de retirar um chumaço de algodão da frente do tweeter.

Por isso, para mim, a questão de cabos produzirem diferenças audíveis quando adequados e sinérgicos ao sistema é um fato observado desde 1982, e não um simples efeito placebo.

Minha segunda experiência marcante com cabos ocorreu no final dos anos 1980, quando trabalhava em um estúdio de gravação.

Nas poucas horas vagas que tinha, costumava estudar o comportamento dos microfones disponíveis. Montei uma tabela pessoal relacionando a resposta de frequência dos instrumentos musicais à resposta dos microfones, procurando entender qual combinação seria mais adequada para cada gravação.

O que me intrigava era que, no dia a dia, pouca diferença parecia existir entre utilizar o microfone A ou o microfone B. Quando perguntava ao engenheiro responsável qual microfone deveria ser usado em determinada sessão, a resposta quase sempre era a mesma.

Até que o proprietário do estúdio retornou de uma viagem trazendo dois carretéis de um cabo que fazia enorme sucesso no exterior.

Foram montados dez cabos de dez metros para substituir os antigos cabos utilizados desde os anos 1970.

Novamente, as melhorias foram tão significativas que todos perceberam que agora fazia sentido escolher cuidadosamente o microfone mais adequado para cada instrumento ou voz.

A terceira experiência ocorreu durante a produção dos álbuns

Genuinamente Brasileiros e Timbres.

Utilizamos cabos do fabricante holandês van den Hul, e chegamos a deixar os técnicos do Teatro Alfa e do Estúdio Comep intrigados ao recusarmos os cabos Mogami disponíveis, para utilizar os nossos próprios cabos.

Como demonstração, gravei a faixa 4 do Genuinamente Brasileiros Vol. 1 – um duo de violino e violão captado por microfones B&K 4006 – utilizando primeiro o cabo Mogami e depois o van den Hul.

Ao ouvirem as gravações, tanto os técnicos quanto os músicos não tiveram dúvidas sobre a superioridade do cabo holandês.

Afirmo que, se tivéssemos utilizado os cabos padrão do estúdio durante a gravação do CD Timbres, a diferença tímbrica entre os três microfones empregados teria sido muito menor.

Por isso, sempre faço uma pergunta aos objetivistas mais ortodoxos: quantos deles tiveram a disposição e o interesse de realizar experiências práticas semelhantes às que acabei de relatar?

Muitas vezes, observo pessoas repetindo que “cabos são placebo” porque um teste cego supostamente prova isso, sem jamais terem conduzido investigações práticas mais profundas.

Existe ainda outra questão que costumo levantar: a omissão dos objetivistas durante o lançamento do CD-Player em 1984.

Sempre que abordo esse tema, a resposta costuma ser um silêncio desconfortável.

Quem não viveu aquele tempo pode consultar revistas especializadas da época. A nova tecnologia era frequentemente apresentada como um salto quase revolucionário na reprodução sonora.

E isso nos leva a outra discussão: Hi-Fi versus Hi-End.

Para muitos saudosistas, a era de ouro da alta fidelidade ocorreu nos anos 1970 e 1980, enquanto o Hi-End seria apenas uma construção mercadológica sem fundamento técnico.

Os objetivistas abraçaram a chegada do CD-Player como a concretização definitiva da perfeição sonora.

Os números impressionavam: baixíssima distorção harmônica total (THD), excelente relação sinal-ruído e ampla faixa dinâmica.

Sob a ótica das medições, parecia que a indústria havia alcançado o ápice da reprodução sonora.

Mas a pergunta que sempre faço é simples: ninguém percebeu que havia algo profundamente errado com a sonoridade daqueles primeiros CD-Players?

As respostas normalmente são vagas, evasivas e, às vezes, até risíveis.

Minha pergunta seguinte é inevitável: será que nenhum engenheiro da Sony ou da Philips percebeu esses problemas durante o desenvolvimento?

Se percebeu, foi voto vencido? Ou suas observações simplesmente não foram consideradas?

Tudo leva a crer que, durante as diversas etapas do projeto, prevaleceram exclusivamente critérios objetivistas.

E então surge outra pergunta fundamental: quem levantou a mão para dizer que existiam problemas audíveis? Quem se dedicou a entendê-los e corrigi-los?

A resposta não pode ser ignorada.

Foram os subjetivistas e os fabricantes de produtos Hi-End da década de 1990 que arregaçaram as mangas e trabalharam para corrigir, uma a uma, as limitações da reprodução digital.

Passadas décadas, vemos novamente o mesmo discurso surgir.

Hoje, muitos objetivistas afirmam categoricamente que os DACs modernos atingiram um nível tal de perfeição que não haveria mais nada a melhorar e que um conversor de mil dólares soa exatamente igual a outro de dez mil dólares.

Percebem o padrão?

Os objetivistas ortodoxos jamais fizeram uma autocrítica consistente e continuam operando sob os mesmos pressupostos de sempre.

Da mesma forma, muitos saudosistas que consideram o hi-fi tradicional o ponto máximo da indústria raramente se perguntam por que Sony e Philips não adiaram o lançamento do CD até que seus problemas fossem devidamente solucionados.

A resposta é simples.

A indústria hi-fi sempre foi orientada por volume de vendas. Adiar lançamentos para aperfeiçoar produtos significa aumentar custos e correr o risco de perder mercado para a concorrência.

Quem ocupou esse espaço?

O fabricante de Hi-End.

Portanto, meu amigo saudosista, goste ou não, o Hi-End representa a continuidade natural do hi-fi.

Se não fosse esse segmento, capaz de reunir conhecimento técnico, objetividade e subjetividade em seus projetos, onde estaríamos hoje?

Talvez ainda ouvindo o trompete de Miles Davis na faixa-título de Tutu, soar como uma broca de dentista perfurando nossos tímpanos.

Aliás, só consegui ouvir essa gravação de forma verdadeiramente convincente em um CD-Player já no início do século XXI.

E o mais curioso é que nenhum objetivista ortodoxo pareceu perceber que havia algo profundamente errado naquela reprodução.

Na bancada tudo parecia perfeito, principalmente aquela senoide na tela do osciloscópio.

Fernando Andrette

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *