

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br
A Piega é um fabricante suíço de caixas acústicas, com cujos produtos tenho grande familiaridade, pois tive a oportunidade de testar vários modelos, desde o tempo em que a Alpha Áudio & Vídeo era a distribuidora oficial.
Agora ela volta a ser revendida no Brasil pela Impel, e esteve presente no nosso último Workshop, tanto em nossa sala na apresentação do Curso de Percepção Auditiva, como na própria sala da Mediagear/Impel.
Trata-se de uma caixa imponente, com seus 63 kg, mais de 1 metro de altura, quatro woofers de 8.7 polegadas (sendo dois radiadores passivos, pois a 811 é uma caixa selada) e seu famoso conjunto de médios e tweeter tipo ribbon – produzido pela própria Piega – no qual o tweeter se encontra no centro do falante de médios, daí o nome Coax.
Suas membranas têm a espessura de alguns fios de cabelo (0.02 mm) e pesam apenas uma fração de grama. O modelo utilizado na Coax 811 é o C212+, que passa a trabalhar a partir de 450 Hz.
O imponente gabinete de alumínio, com 1.20 m de altura, é ligeiramente curvado, formando um desenho oval, em que a traseira é muito mais estreita que a frente.
Esse novo gabinete foi projetado pelo arquiteto e designer suíço Stephan Hürlemann – e como na maioria dos projetos da Piega, existem dois pares de bornes para o usuário biamplificar ou bicablar, se assim desejar. E a Coax 811 vem de fábrica com um conjunto de jumpers.
Para evitar que o gabinete de alumínio vibre, foi desenvolvido um sistema de fixação composto por 10 trilhos verticais, que travam o gabinete. Esse processo, batizado de TIM2, exerce tensão tanto nas paredes internas quanto nas paredes externas. Tudo para aumentar a rigidez e eliminar qualquer tipo de vibração.
Além de todo esse cuidado com os trilhos, foram colocadas lâminas de amortecimento viscoelástico no interior do gabinete para eliminar ressonâncias de baixa frequência.
A tela de proteção dos falantes também possui uma estrutura lateral muito fina, para o encaixe no trilho metálico, e só pode ser retirada sem danificar as unhas ou a própria tela, utilizando o poderoso ímã que a Piega envia juntamente com as caixas.
Com ele, em poucos segundos, você retira a tela sem nenhum risco.
As principais especificações são: sensibilidade de 92 dB, impedância de 4 ohms e resposta de frequência de 22 Hz a 50 kHz.
Ainda que tenha utilizado vários amplificadores integrados que estavam em teste ou à disposição para o nosso Workshop deste ano (Moonriver Reference 404, Soulnote A-2 Versão 2, Norma Audio Revo IPA-140 e Accuphase E-5000), o fechamento das notas foi realizado com o nosso Sistema de Referência (lista ao final do teste).
A Coax 811 (permita-me abreviar) veio com algumas horas de amaciamento. Então, como sempre, fizemos as primeiras audições com as gravações produzidas por nós, realizamos as anotações iniciais e a deixamos em amaciamento por mais 100 horas antes de iniciar efetivamente os testes.
O impacto inicial da qualidade dos graves foi bastante grande. Eu não esperava tamanha precisão, deslocamento de ar e energia para uma caixa selada. Ela desce tranquilamente, com autoridade, aos 22 Hz.
Mas ficou claro, nesse primeiro contato, que ainda faltavam um pouco mais de extensão nas altas frequências e um melhor encaixe da região média com os graves. Com 100 horas de uso, tudo se encaixou perfeitamente.
Tanto que fiz algo que sempre deixo para o final, antes de iniciar uma avaliação de caixas: definir sua posição ideal na sala.
Senti-me confortável com o que estava ouvindo para fazer esse ajuste antes de iniciar as primeiras faixas de cada quesito da nossa Metodologia.
A Coax 811 é bastante exigente quanto ao posicionamento, necessitando de espaço tanto entre as caixas quanto em relação às paredes.
E, se o ouvinte quiser extrair seu grande diferencial – foco, recorte e planos sonoros – precisará munir-se de paciência, pois, como sua topologia utiliza um falante de médios com o tweeter em seu centro, o ângulo perfeito em relação ao ouvinte precisará ser ajustado milimetricamente.
A notícia não é tão boa para quem estiver fora do triângulo equilátero, pois não terá os planos e a profundidade tão bem definidos. Se a sala permitir, uma forma de atenuar um pouco essa perda será aumentar a distância entre as caixas. Aqui as posicionei com 4 metros entre elas, 1.20 m das paredes laterais e 3 metros da parede atrás das caixas. Com um ângulo de 25 graus voltado para o ponto ideal de audição.
Nessa posição final, o foco e o recorte foram absolutamente impressionantes. Assim como a imagem 3D, com planos e mais planos em profundidade, ampla largura, ultrapassando mais de 1 metro além das caixas, e altura perfeita.
Para quem tem na música clássica sua prioridade, a materialização do acontecimento musical à sua frente é contagiante. É possível, em termos de ambiência, ouvir os rebatimentos nas paredes ou a quantidade de reverberação digital utilizada na gravação.
Iniciei falando do quesito soundstage antes do equilíbrio tonal, justamente por ter ficado tão impressionado com ele.
Mas voltemos ao primeiro e mais importante quesito da nossa Metodologia. Os graves são simplesmente soberbos em qualquer estilo musical, com um controle e uma autoridade que deixam inúmeras caixas muito mais caras em dificuldade para justificar seu preço.
Além disso, são articulados, velozes e possuem um decaimento corretíssimo. Ouvi inúmeros solos de contrabaixo acústico e elétrico, e não se perde uma nota, por mais complexo que seja o solo.
Bumbos farão o ouvinte arrepiar os pelos dos braços e sentir aquela pressão no peito que tantos apreciam. No entanto, meu amigo, será preciso que sua sala esteja preparada para reproduzir frequências de 22 Hz sem colorações, justificando plenamente o investimento.
Fechei as observações sobre os graves com duas gravações de órgão de tubos.
Primorosas!
Foi o melhor adjetivo que meu cérebro encontrou para definir o que escutei.
A região média é corretíssima, com um grau de naturalidade e realismo que nos faz, imediatamente, parar de analisar e simplesmente ouvir e apreciar a música.
Os agudos apresentam o mesmo nível de naturalidade, acrescido de duas características fundamentais: velocidade e corpo.
Os pratos de condução possuem excelente precisão e permanecem soando como nuvens pairando à nossa frente.
Não há qualquer excesso de brilho nos agudos, o que permite reproduzir violinos, saxofone soprano, flautim, vibrafone e a última oitava da mão direita do piano sem aquele indesejável ‘som de vidro’.
Ou seja: conforto auditivo absoluto.
As texturas, naturalmente, acompanham esse excelente equilíbrio tonal e são igualmente exuberantes. Os timbres possuem uma riqueza impressionante, permitindo reconhecer imediatamente as qualidades do instrumento, do músico e até mesmo do engenheiro de gravação, tanto pela escolha dos microfones quanto pelo seu posicionamento.
Os transientes também apresentam elevado grau de precisão na marcação do tempo e do ritmo, permitindo que a música flua com energia e absoluta ausência de sensação de letargia. É um convite irresistível para acompanhar o andamento da música com os pés.
A Coax 811 tem ‘bainha’ suficiente para encarar qualquer desafio de macrodinâmica, desde que a eletrônica esteja no mesmo nível, evidentemente. Nem mesmo tiros de canhão são capazes de desestabilizá-la. Quem precisará tomar cuidado será o ouvinte, para não levar um belo susto, rs.
Já a microdinâmica é reproduzida de maneira exemplar.
Outro enorme desafio para inúmeras caixas concorrentes – independentemente de custarem mais ou menos – será igualar sua reprodução do corpo harmônico. Quer alguns exemplos? Órgão de tubos, piano, bateria, tímpanos, contrabaixo, fagote e clarone.
Se o engenheiro de gravação foi competente em captar corretamente o tamanho desses instrumentos, prepare-se. O resultado é tão primoroso que seu cérebro, caso possua a referência desses instrumentos ao vivo, reconhecerá imediatamente a qualidade do corpo harmônico reproduzido.
Some esses seis quesitos nesse elevado grau de qualidade e coerência, e terá aquela tão desejada sensação de materialização do acontecimento musical à sua frente.
Na nossa Metodologia, organicidade e musicalidade representam justamente o reconhecimento de que todo o investimento realizado em um sistema hi-end valeu a pena.
É quando, ao final da audição, nosso cérebro resume toda a experiência com um simples: UAU!!!
A Coax 811, corretamente ajustada e plenamente integrada à sala, à elétrica e ao restante do sistema, proporcionará momentos em que os músicos parecerão estar ali, à sua frente, realizando uma apresentação inesquecível.
Momentos capazes de gerar dopamina suficiente para renovar as energias e enfrentar o mundo lá fora com um sorriso no rosto.
É justamente por isso que, na minha opinião, faz sentido investir durante anos na construção de um sistema hi-end. Para tornar nossa vida um pouco mais rica, significativa e cheia de esperança.
CONCLUSÃO
A Coax 811 é, sem dúvida, uma caixa definitiva.
Ir além dela significará gastar quase o dobro – ou muito mais.
É necessário? Essa resposta somente você e sua conta bancária poderão dar.
Em termos de correção, precisão e refinamento, foi uma enorme surpresa descobrir que a Piega possui uma caixa tão competente em seu catálogo.
Na minha opinião, trata-se de um projeto capaz de atender perfeitamente aqueles que desejam finalmente encerrar a interminável busca pelo sonofletor dos sonhos.
Atributos não lhe faltam, e seu elevado grau de compatibilidade surpreendeu até mesmo quando utilizada com amplificadores integrados, muito abaixo de todo o seu potencial. Imagine, então, quando ligada à eletrônicas do mesmo nível.
Se você possui uma sala com mais de 40m², aprecia diferentes estilos musicais e procura uma caixa com enorme controle, autoridade e refinamento, deixar de ouvir a Coax 811 em seu sistema será um equívoco e tanto, meu amigo.
EQUIPAMENTOS UTILIZADOS NO TESTE
PONTOS POSITIVOS
Uma torre Estado da Arte afinadíssima.
PONTOS NEGATIVOS
Necessita de salas com, no mínimo, 40m² para entregar todo o seu potencial.
ESPECIFICAÇÕES
| Tipo de Sistema | Torre de 3 vias com radiadores passivos |
| Driver Coaxial | 1x Driver ribbon coaxial C212+ (médios e agudos no mesmo eixo) |
| Woofers Ativos | 2x Drivers UHQD de 220 mm (8.7 polegadas) |
| Radiadores Passivos | 2 x Radiadores UHQD de 220 mm (8.7 polegadas) |
| Gabinete | Alumínio extrudado com tecnologia TIM2 (Tension Improve Module) |
| Resposta de Frequência | 22 Hz a 50 kHz |
| Sensibilidade | 92 dB/W/m |
| Impedância Nominal | 4 Ohms |
| Potência Recomendada do Amplificador | 20W a 250W |
| Estrutura | Chassi de alumínio sem costuras com amortecimento interno de alta densidade |
| Tecnologia de Tensão | Módulos TIM2 para controle de ressonância do gabinete |
| Terminais de Entrada | Conectores Piega Multi-Connect para fiação simples ou bi-cablagem |
| Base | Placa de suporte estável com pontas de desacoplamento ajustáveis |
| Dimensões (L x A x P) | 29 x 124 x 42 cm |
| Peso Líquido | 63 kg por unidade |