

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br
Quando recebi as primeiras informações sobre o novo pré-amplificador de linha da Nagra, imaginei que ele viria substituir o Pré Classic, que tão bem conheço, já que o utilizo há cinco anos.
Mas, depois que as informações foram oficialmente divulgadas no site da empresa, entendi que essa nova linha, batizada de Série II, irá se posicionar entre a linha Classic e a HD.
CONSTRUÇÃO & CONCEITO
E o primeiro componente da Série II é o PREAMP II-S, cujo nome em letras maiúsculas se inspira no primeiro produto de áudio doméstico da Nagra: o pré PL-P, lançado em 1998.
Da linha Classic, o novo II-S possui o mesmo gabinete, porém com muitas transformações visuais e internas.
Visualmente, ganhou um novo modulômetro, maior e mais fácil de visualizar mesmo a médias distâncias, muito similar ao usado no gravador de fita de rolo IV-S. Segundo o fabricante, esse oferece maior precisão na exibição em dB e volts entre os canais, tendo um funcionamento mais parecido com um osciloscópio.
O usuário continua tendo a opção de ganho em zero dB ou mais 6 dB. Com o aumento de ganho para 6 dB, a faixa dinâmica supera 125 dB, com um nível de ruído ainda mais baixo que no modelo Classic.
Outras diferenças significativas em relação ao Classic são que, agora, não existe mais a opção de ligar o pré sem fonte externa, e não existe mais a opção de amplificador de fones de ouvido embutido (algo que lamento, pois era de alto nível).
Além disso, houveram mudanças internas de componentes e nas válvulas, que agora são Genelex, com um par de 12AX7 e uma válvula 12AT7.
Na tampa superior, outra mudança é que não existem mais os furos para respiro das válvulas. A princípio, fiquei ‘encanado’, mas depois de muitas horas de uso, vi que o II-S sequer fica morno.
O fabricante afirma que as maiores mudanças estão na sua sonoridade em relação ao Classic (falarei das minhas impressões adiante).
O SISTEMA UTILIZADO
Para o teste, utilizei tanto a fonte indicada pelo fabricante, quanto a nossa PSU – a qual também utilizo no Nagra TUBE DAC.
Em termos de conexões, os dois modelos são idênticos: uma entrada XLR, quatro RCA, duas saídas XLR e uma RCA.
Fiz um longo A/B entre o Classic e o II-S e, para essas comparações, utilizei sempre nosso Sistema de Referência (com substituições apenas no DAC, já que tive à disposição nesse período o Weiss Helios e o NADAC D e C, cujo teste sairá na próxima edição).
E as únicas caixas utilizadas em todo esse período, foram: Estelon X Diamond MkII e Piega Coax 811 – cujo teste farei no segundo semestre.
O II-S chegou lacrado, então fizemos o de sempre: ligamos, ouvimos as gravações realizadas por nós, fizemos algumas anotações e o deixamos em repeat por 100 horas.
Ele pode, assim que instalado, ser ouvido sem nenhum sobressalto. As mudanças com o amaciamento foram bastante pontuais: melhora na extensão dos agudos, ampliação da imagem 3D (principalmente em profundidade e largura), melhora significativa no foco, recorte e ambiência, além de maior riqueza e refinamento na apresentação das paletas de cores dos instrumentos.
Nada que impeça o feliz comprador de desfrutar imediatamente do upgrade realizado.
Então, vamos às comparações com o Nagra Classic, que é minha referência nos últimos cinco anos.
COMPARAÇÕES COM O PREAMP CLASSIC
A primeira consequência com a troca do pré foi perceber o quanto os powers HD cresceram em nível de performance e silêncio de fundo.
Como nunca consegui ouvir os powers HD com o pré HD em nossa sala, tenho dificuldade em mensurar o quanto o novo PREAMP II-S se aproxima do pré HD, mas é audível o quanto os powers HD se beneficiaram de estarem tocando com o II-S.
Maior folga, melhor resolução na micro e macro-dinâmica, equilíbrio tonal ainda mais refinado, transientes mais precisos, planos, recorte e foco na construção da imagem, o que nos faz ‘ver’ o que estamos ouvindo, resultando em um conforto auditivo sublime.
É importante registrar que esse teste A/B foi feito com o nosso Sistema de Referência, e só depois de avaliarmos todas as melhorias é que entraram os dois DACs e, no final, o regenerador StromTank (leia o Teste 2 nesta edição), para fecharmos a nota e entendermos o ‘teto’ de performance do II-S.
À medida que fui me familiarizando com suas virtudes, comecei a achar muito mais semelhanças com a assinatura sônica do pré HD, que sempre considerei muito superior ao pré Classic em todos os quesitos de nossa Metodologia.
Como sempre digo nos nossos Cursos e escrevo aqui: cinco pontos de diferença em produtos Estado da Arte Superlativo significam uma assinatura sônica muito mais fidedigna à gravação, e não uma reprodução pirotécnica.
A IMPORTÂNCIA DA MEMÓRIA AUDITIVA
Muitos leitores não compreendem essa afirmação até terem a oportunidade de assistir aos nossos Workshops e constatarem como a mesma música, em sistemas com dois ou mais pontos de diferença – em setups acima de 100 pontos – soa mais organizada, natural e confortável auditivamente.
Faça uma analogia com o branco: imagine termos um branco como referência até que, um dia, nos deparamos com um branco ainda mais intenso em relação àquele que achávamos ser perfeito.
O branco que era nossa referência não deixou de ser branco; apenas agora sabemos que ele não é o branco final (se é que isso existe, rs).
O que estou querendo dizer é que as faixas que usamos para avaliar e dar a nota final de cada um dos oito quesitos da Metodologia não sofreram transformações intensas ao passarmos do Classic para o II-S. Elas apenas ganharam maior folga e inteligibilidade, permitindo ouvir o todo sem se perder nas partes, com um grau de realismo superior.
E esse conjunto de melhorias o nosso cérebro interpreta prolongando as audições e se envolvendo de maneira mais intensa com o acontecimento musical, o que leva muitos audiófilos a chamarem esse ‘fenômeno’ de maior musicalidade.
Nos Workshops, procuro mostrar aos participantes que a interpretação que nosso cérebro faz depende muito do referencial auditivo de cada um em relação aos instrumentos reais, pois se tivermos registrado em nosso hipocampo uma rica memória auditiva, será muito mais fácil reconhecermos e apreciarmos os saltos que nosso sistema dá em um upgrade correto.
Pois, em sistemas acima de 100 pontos pela nossa Metodologia, não se trata mais de uma melhoria pontual em um quesito isolado, e sim de um upgrade no todo.
Seja ele mais sutil ou mais audível.
E o II-S é um salto muito consistente em relação ao pré Classic em todas as frentes. Tanto que, depois de ouvir todas as faixas que escutei no teste do pré HD, fiquei com a sensação de que subestimei a nota dada ao HD (na ocasião do teste eu estava com os powers da linha Classic), pois o PREAMP II-S se aproximou demais, em termos de notas finais, do pré HD.
E, conhecendo tão bem a eletrônica Nagra e a filosofia da empresa, não creio que a diferença do II-S para o HD seja de apenas um ponto.
Agora só saberei se esse meu raciocínio está correto se algum dia conseguir ouvir novamente o pré HD com seus respectivos pares, os powers HD.
O PAPEL DOS DACS
Outra constatação óbvia foi que o Nagra TUBE DAC também não está à altura do II-S, o que me leva a crer que os engenheiros da Nagra devem estar projetando, em breve, um DAC para a Série II.
Pois, quando ligamos o exuberante Weiss Helios, ficou ainda mais audível as virtudes do PREAMP II-S em relação ao Classic.
O equilíbrio tonal nas duas pontas simplesmente ganhou mais extensão, mais definição e uma naturalidade estonteante.
O 3D da imagem sonora ganhou maior profundidade e largura, e os planos ganharam mais foco e recorte.
Com isso, as texturas ficaram ainda mais sublimes, com uma facilidade maior em acompanhar as intencionalidades e observar, sem esforço, as virtudes e os erros na escolha de microfones, qualidade dos instrumentos e técnica dos músicos.
Outra diferença foi na materialização do acontecimento musical. Essa, sim, foi a que mais me lembrou essa qualidade no pré HD: o famoso ‘ver’ o que estamos ouvindo. E nos transportar para as salas de gravação ou trazer os músicos para a nossa sala de audição, como mágica.
Com o DAC NADAC e seu clock, todas essas diferenças foram audíveis, mas com algumas características distintas que, para não causar spoiler, peço que aguardem o teste na próxima edição.
O que estou tentando descrever é que, sem a ajuda desses dois incríveis DACs que, por sorte, estavam conosco em teste, eu provavelmente não teria a oportunidade de observar nem extrair o sumo do sumo deste novo pré de linha da Nagra.
CONCLUSÃO
Para os que possuem os powers HD deste fabricante mas, como eu, só podem sonhar com o pré de linha HD e optaram pelo pré Classic, essa é sua maior oportunidade de extrair dos powers HD um pouco mais do que eles têm a oferecer.
Como diria meu pai: “Não é o céu, mas subir alguns degraus nos deixa mais perto”.
É exatamente assim que o PREAMP II-S se comporta dentro da extensa linha de produtos da Nagra: um pouco mais perto de seus HD.
Se é isso que você deseja e pode investir para desfrutar ainda mais da sua música, essa possibilidade agora existe.
Para mim, esses são os degraus que posso ousar subir – e certamente o farei.
EQUIPAMENTOS UTILIZADOS NO TESTE
PONTOS POSITIVOS
Preciso e muito refinado.
PONTOS NEGATIVOS
Preço.
ESPECIFICAÇÕES
| Impedância de saída | 18 Ω – Seletor de ganho a +6 dB 9 Ω – Seletor de ganho a 0 dB |
| Resposta em frequência | 10 Hz a 50 kHz (+0 / -0.5 dB) |
| Faixa dinâmica | 125 dB (Chave seletora de ganho @ +6 dB) |
| Nível de entrada para atingir 0 dB (modulômetro) | 1 V rms (Ganho a +12 dB) (Chave seletora de ganho a 0 dB, potenciômetro de volume a 0 dB) |
| Distorção harmônica total (THD) | <0.01% a 1 kHz, 1 V rms de saída, sem carga |
| Crosstalk | 85 dB a 1 kHz, 1 V rms de saída, sem carga |
| Válvulas (selecionadas pela Nagra) | 2 válvulas 12AX7/ECC83 e 1 válvula 12AT7/ECC81 |
| Consumo de energia | MAX 12,6 W |
| Fonte de energia | 12 a 12,6 V DC / 1 A |
| Temperatura de operação | +15°C a +35°C em modo de espera <1 W |
| Ambiente operacional | Apenas para uso interno, em clima moderado. |
| Entradas | XLR RCA 1 a 4 |
| Saídas | 2 x XLR 1 x RCA |