

Christian Pruks
christian@avmag.com.br
O mercado – do lado do audiófilo sério e também do lado dos profissionais da área – carece de discussão e divulgação sobre o real nível de Qualidade, Fidelidade e Satisfação Sonora dos equipamentos de baixo custo, os chamados ‘de entrada’.
É um dos motivos pelos quais muita gente têm a impressão constante de que você só poderá ouvir música com prazer, a partir de um sistema extremamente caro, com uma sala dedicada, com elétrica dedicada, e com todos os acessórios – ou seja, ouvir música de maneira audiófila, sendo ‘hi-end’.
Como o ser humano parece ser ‘oito ou oitenta’ com uma série de coisas, ele também aplica errado a ideia da Lei dos Retornos Diminuídos – que demonstra que algo que custa o dobro do preço não provê o dobro de performance ou de qualidade, e que quanto mais caro, menos melhora ou retorno provê. E isso é verdade, mas como é que os ‘8-80’ aí de cima aplicam essa lei? Acham que não se deve comprar nada, evoluir nada, fazer nenhum upgrade – apenas compre algo decente, ouça música e, talvez, procure outro hobby. Ou seja, acham que você deve desistir porque o único patamar que valeria a pena seria o ‘topo’.
E isso é um ponto de vista bobo – porque com algum trabalho e dedicação, você consegue montar um sistema, ainda que minimalista, que toca muito bem, e de maneira bastante correta.
Muita gente se queixa que a maioria do mercado e da mídia especializada se focam em sistemas e equipamentos de alto calibre e, portanto, que demandam um alto investimento de dinheiro – o qual não é acessível à maioria dos audiófilos. Porém, a audiofilia é um hobby voltado à alta performance, é aí que ela vai se focar mesmo!
A audiofilia, o áudio hi-end, estão para o áudio ‘consumer’ do mesmo jeito que uma Ferrari ou Porsche estão para o carro popular!
A questão é que o prazer de dirigir, de apreciar um carro, e de apreciar o projeto, a engenharia, a mecânica, também podem estar – e estão! – presentes em carros bastante mais simples, e até antigos.
Mas, existem sistemas de áudio decentes e baratos?
Sim, que vão desde fones de ouvido corretos e prazerosos para seu celular, notebook ou tablet, passando por bons fones de ouvido com amplificadores dedicados, por caixas bookshelf ativas com conexão por Bluetooth, até chegar em sistemas compostos por um amplificador, um streamer e um par de caixas (e estes últimos sistemas começam, soando musicais, honestos e decentemente corretos, com 10 mil reais de investimento).
Mas aí é que vêm as atenuantes, para ambos lados:
Sempre vai haver coisa melhor que esses sistemas baratos do parágrafo acima – e sempre vai haver coisa melhor do que praticamente qualquer equipamento que se consiga comprar na face da Terra, nem que seja simplesmente porque a cada alguns anos, a qualidade vai evoluindo, por conta dos projetos, soluções e componentes. A eletrônica não para.
Você vai desistir de ouvir música com alta qualidade sonora simplesmente porque não consegue ir até o topo da escala evolucionária? Eu não.
Acontece que, em eras de tudo de eletrônico de consumo, de eletrônico até um certo nível de preço e performance, ser vendido via Internet direto ao consumidor, a estrutura que permite a audição, a avaliação in loco de equipamentos e componentes de bom preço, do áudio ‘de entrada’, que serviria à um número muito grande de pessoas, não existe mais.
Então, a análise, a pesquisa, o boca-a-boca, os amigos, e uma série de tentativas e erros, são o caminho hoje para o audiófilo iniciante e de menor poder aquisitivo.
Mas, muitos audiófilos são levados a pensar que ter esses sistemas mais simples, significa perda de status – afinal todos querem ser admirados por suas escolhas, mas o que o mercado hi-end normalmente olha são ‘Porsche’ e ‘Bentley’. Ao mesmo tempo, a perda de status também vem de dentro do indivíduo, ao cobiçar a Porsche e o Bentley, e achar que seu carro mais ‘normal’ é desinteressante.
Eu, se pudesse, por ser um cara que não nasceu com meios, e também não os conquistei à esse nível em minha trajetória, um dia faria uma publicação chamada de Áudiopobre – para ajudar as pessoas a reconhecerem performance e musicalidade nas possibilidades mais simples (ou bem perto disso): o equivalente do áudio de como transformar o feijão de hoje no tutu de amanhã.
Até junho!