

Christian Pruks
christian@avmag.com.br
Todo mês um LP com boa música & gravação
Gênero: Rock Progressivo / Pop-rock
Formatos Interessantes: Vinil Nacional / Importado
O inglês Mike Oldfield chegou à fama mundial, e absurda quantidade de discos vendidos, logo em seu primeiro disco, Tubular Bells (Virgin, 1973) – que é ‘Discografia Básica’ para muitos apreciadores do rock, pop e progressivo, e onde ele (então com 19 anos de idade) toca praticamente todos os instrumentos no disco, e não são poucos.
Oldfield, hoje com 72 anos e aposentado, é um grande arranjador, compositor, multi-instrumentista, um pouco recluso, um pouco excêntrico, e que sempre fez as coisas de seu jeito próprio e particular – o que provavelmente é por ter um sucesso estrondoso logo no primeiro disco, ou porque tende a ‘tocar seu próprio tambor de seu próprio jeito’ sem ter preocupações de estrelato. E o dono da Virgin Records, o multimilionário Richard Branson, deve um bocado do alavancamento de seu império Virgin, ao sucesso de Tubular Bells – então ele não iria, até onde eu sei, interferir no trabalho de Oldfield.
Mesmo assim, e apesar de trabalhos brilhantes como Ommadawn e Hergest Ridge, uma boa parte do trabalho dele na década de 80 tende ao pop-rock – que não está nos meus preferidos. Acontece que Crises, oitavo disco de estúdio de Oldfield, é um ‘meia mussarela meia calabresa’, com o lado B ocupado por várias faixas pop-rock com vocalistas convidados, como Jon Anderson (do grupo Yes), Roger Chapman (do grupo de progressivo Family), e a escocesa Maggie Reilly.
E o lado A é ocupado por uma sensacional faixa ‘quase’ instrumental, de 20 minutos, que leva o nome do disco: Crises – e que, obviamente, vale o ingresso e, aliás, é uma das faixas favoritas do próprio Oldfield. Aqui, em vez dele querer tocar todos os instrumentos, mesmo sendo um disco de estúdio ele contratou uma série de bons músicos para acompanhá-lo.
Apesar de sua proficiência em vários tipos de instrumentos, a especialidade de Oldfield é em guitarras e violões – e, em segundo lugar, teclados. Neste disco ele toca guitarras elétricas, eletroacústicas e acústicas, e harpa, além do apoio de dois guitarristas: Rick Fenn e Anthony Glynne. E de seu arsenal de sintetizadores e teclados: Fairlight CMI, Roland string, Oberheim OB-Xa, piano, Farfisa, Prophet 5, e o sequenciador Oberheim DSX Digital.
Na bateria acompanha Simon Phillips, que também co-produziu o álbum – e diz a lenda que atuou como um dos engenheiros de gravação. É um dos mais prestigiosos bateristas de estúdio dos últimos 40 anos, tanto para rock quanto para jazz-fusion, tendo trabalhado com Toto, Phil Manzanera, Jeff Beck, Gary Moore, Jon Lord, Judas Priest, Mike Rutherford, Tears for Fears, Pete Townshend, Gil Evans, Hiromi, e muitos outros. Completa a ‘cozinha’ o baixista de estúdio Phil Spalding (Mick Jagger, Seal, Orchestral Manoeuvres in the Dark, Elton John, Ray Charles, Joe Cocker, Talk Talk, entre outros).
Michael Gordon Oldfield nasceu em Reading, na Inglaterra, em 1953, filho do médico Raymond Henry Oldfield e da enfermeira irlandesa Maureen. Frequentou a Hornchurch Grammar School onde já demonstrava ter talento musical, começando a tocar guitarra aos dez anos. Em 1968, com sua irmã Sally, formaram o duo folk Sallyangie, e em 1970 foi contratado para tocar baixo na banda Whole World, de Kevin Ayers do Soft Machine. Nesse período a banda gravou três álbuns nos estúdios Abbey Road, onde sua curiosidade o levou a familiarizar-se com instrumentos de percussão, piano, cravo e Mellotron.
Sua carreira deslanchou completamente com o lançamento de Tubular Bells, em 1973, gravado nos The Manor Studio, de propriedade do empreendedor Richard Branson – que, aliás, foi o álbum que fundou a Virgin Records, cuja marca ainda hoje ilustra todo o império criado por Branson em diversas áreas, incluindo a de aviação comercial.
CURIOSIDADES
Crises foi gravado na Inglaterra entre novembro de 1982 e abril de 1983, utilizando um gravador de fita magnética de 24 canais Ampex ATR-124, uma mesa de som NEVE 8108 com automação, e caixas acústicas monitores da Westlake. Sua masterização ocorreu nos Estúdios CBS, em Londres.
Oldfield tentou aprender notação musical, mas era um autodeclarado estudante ‘lento’, dizendo que se precisar escrever música, ele consegue, mas não gosta de fazê-lo.
Em maio de 1968, quando Oldfield completou quinze anos, o diretor de sua escola pediu que ele cortasse seu cabelo comprido – o que Oldfield recusou fazer, e por isso acabou deixando a escola e decidindo seguir a música profissionalmente, em tempo integral.
Quando perguntado como ele chegou em vocalistas como Jon Anderson e Roger Chapman, ele respondeu: “Frequentamos o mesmo bar”.
O primeiro single do álbum Crises, Moonlight Shadow, com Maggie Reilly nos vocais, tornou-se o single de maior sucesso da carreira do músico, chegando ao 4o. lugar no Reino Unido e 1o. lugar em nove países.
A arte da capa de Crises foi originalmente criada como uma ilustração para uma edição do livro The Drowned World, do autor J.G. Ballard – sendo que o verso cantado por Oldfield faz referência à obra: “O observador e a torre, esperando hora após hora”. Depois, Oldfield afirmou que “Eu sou o homem no canto, e a torre é a minha música”.
Para quem é esse disco? Para todos os fãs de Mike Oldfield, de rock progressivo, dos teclados e sintetizadores – e músicos de primeira linha – amplamente usados nos discos desse gênero musical.
Prensagens interessantes? No primeiro ano de lançamento, 1983, Crises foi editado mais de 50 vezes em todo o mundo, então não é um disco difícil de achar. Recomendo, claro, as prensagens britânica, alemã e a chamada ‘europeia’ – e depois alguma prensagem americana. E, como sempre, o ‘Santo Graal’ são as prensagens japonesas. Em 2013, na Europa, duas prensagens em 180g (que podem ser interessantes) foram feitas: uma ‘normal’, e outra ‘especial’ em vinil transparente.
E que março seja ainda mais cheio de música!