

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br
Todo audiófilo ‘de carteirinha’ usa uma parte do seu tempo para esmiuçar novidades do mercado, ler testes, entrar em fóruns para saber a opinião de outros, e visitar eventos para ouvir os lançamentos.
Se somarmos todas essas atividades, boa parte do seu dia estará bem movimentado.
Então, não deve ser nenhuma novidade o nome Wadax, para boa parte de vocês leitores assíduos da AV Magazine.
No entanto, como a revista é online desde 2015, e temos uma legião de novos leitores diários, temos que também dar a esses informações que permitam saberem o que essas novas marcas, que estão chegando ao nosso mercado, representam em termos mundiais.
A Wadax é uma empresa espanhola, fundada por Angel Guadalajara, engenheiro com formação em acústica, eletrônica e processamento de sinais, e sua paixão desde a adolescência levou-o a ser um dos mais bem-sucedidos distribuidores de equipamentos de alta fidelidade na Espanha.
Paralelamente a esse trabalho, ele continuou nas horas vagas a pesquisa de tecnologias na área de acústica e processamento de sinais, junto com seu filho Javier Guadalajara.
Em 2004, a Wadax começou a tomar forma e iniciou o desenvolvimento do seu chip musiC, uma aplicação exclusiva de correção de erros para eletrônica digital, com tecnologia feed-forward. Após seis anos de pesquisa e aprimoramento, a Wadax iniciou a produção em 2010 deste chip.
Em 2011, lançou seu primeiro produto: o Pre 1 Phono, um produto que era ao mesmo tempo também DAC, Streamer, Phono e Pré de Linha. E conseguiu atravessar o Atlântico, chegar aos Estados Unidos, ser avaliado pela revista Stereophile e ser componente do ano naquela publicação.
O pontapé inicial havia sido dado.
Em 2012, a Wadax lançou a caixa acústica ativa digital La Passion, mostrando seu total domínio tecnológico e o potencial para voos ainda mais ambiciosos.
Sete anos após o lançamento do chip musiC, em 2016, sai a segunda geração dessa tecnologia exclusiva baseada em circuitos integrados, estabelecendo um novo padrão de referência para reprodução de áudio digital.
Em 2017, a Wadax apresentou na feira de Munique a linha completa Atlantis, composta por um DAC, servidor e transporte. E dois anos depois, lançou o Atlantis Reference DAC, o produto até aquele momento mais ambicioso da Wadax, e que teve uma repercussão mundial imediata, com muitas publicações especializadas afirmando se tratar de um avanço substancial em relação aos DACs existentes no mercado.
E, em 2020, foi apresentado o servidor de referência Atlantis. E desde então a linha de produtos foi se tornando maior e mais expressiva.
O problema é que a linha Reference é para milionários, o que faz com que a grande maioria de audiófilos só possa ouví-la em eventos, ou apenas sonhar com esses produtos.
Talvez por isso a Wadax, ano passado, apresentou ao mercado o Studio Player: um CD-Player que reproduz também SACD e é
Streamer.
Ainda é para poucos, mas bem mais ‘pé no chão’.
O fabricante afirma que o Studio Player utiliza a mesma placa DAC com o mesmo sistema de correção de erros feed-forward musiC existente no Atlantis Reference, de maneira que a Wadax garante ao consumidor que ele estará levando o mesmo DNA sonoro da linha principal.
Pois ambos os Wadax apresentam seu exclusivo processo musiC, que se trata de um sofisticado sistema de correção de erros, que opera no domínio do tempo. E, ao mapear os mecanismos de erro de um chip DAC, a Wadax desenvolveu um algoritmo que examina o sinal de entrada e calcula o erro induzido (tanto linear, quanto não linear) resultante. Com isso o sistema musiC da empresa corrige erros de tempo e fase em tempo real.
Mas, para fazer isso de forma prática e funcional, se exige um grande poder de processamento numérico e uma considerável transferência de dados, podendo chegar até a 12.8 gigabytes por segundo! Para tanto é necessária uma resolução interna de 128 bits para renderizar a saída com extrema precisão, e gerar as menores correções possíveis.
O usuário tem essa mesma topologia, seja no Atlantis Reference como no DAC do Studio Player.
Seu streamer é objetivo e certeiro, na minha opinião, pois em vez de criar um aplicativo Wadax, optou pelo acesso aos Tidal Connect e Qobuz Connect já existentes – plataformas de streaming que são controladas a partir dos celulares e tablets via rede. E durante o teste se mostrou impressionantemente fácil de usar, e sem travar nenhuma vez.
O Studio Player possui uma conexão Ethernet, uma para fonte de alimentação externa, e duas BNC para clock externo. A saída analógica é apenas XLR, e se o audiófilo desejar usá-lo como pré de linha, poderá fazê-lo.
Particularmente jamais vi DAC algum, independente do preço, soar melhor direto no power, que com um pré de linha de alto nível. Realmente ainda nenhum me convenceu, mas para os audiófilos minimalistas, essa opção existe.
O que me agradou muito no Studio Player foram os ajustes de voltagem de saída com três níveis, para ajustar sua saída com o pré de linha, e suas múltiplas configurações de impedância – possibilitando o ajuste fino preciso, para se extrair o melhor resultado da sua conexão com um pré de linha ou integrado.
Isso faz uma diferença enorme, meu amigo.
Se duvidar, basta fazer os ajustes, iniciando pela voltagem de saída mais baixa, assim como a de impedância, e ir aumentando.
Você irá se surpreender como a macro e micro-dinâmica, assim como o corpo harmônico, podem ser alterados, com o ajuste preciso.
Antes de iniciar o teste, não posso me furtar a falar de sua construção impecável e de seus mais de 30 kg, que exigirá ajuda se você deseja manter sua coluna saudável.
E como seu display com toques suaves é funcional e extremamente fácil de memorizar e fazer os ajustes finos.
Li que alguns revisores acharam sua gaveta pouco silenciosa. A mim não incomodou, absolutamente.
Para o teste utilizamos nosso Sistema de Referência, variando apenas o pré de linha, que utilizamos o Nagra Classic (clique aqui) e o Soulnote P-3 (clique aqui). Os powers foram os Nagra HD e o Boulder 1151 (leia teste edição de junho 2026). Caixas acústicas: Ø Audio Frigg 02 (leia teste edição de abril de 2026), Monitor Audio Platinum 100 (teste no primeiro semestre de 2026), e Estelon X Diamond MkII (clique aqui).
O Wadax Studio Player chegou com apenas 50 horas de amaciamento, então fizemos aquela ‘Primeira Impressão’, apenas com os discos gravados pela Cavi Records (CDs e SACDs), e depois o colocamos para amaciar por mais 100 horas.
A boa notícia é que o produto sai tocando em alto nível, ou seja, o felizardo poderá ir amaciando e curtindo seu belo upgrade.
Quando nos nossos eventos, os leitores me abordam sobre as diferenças entre os DACs Estado da Arte atuais, eu sempre os tranquilizo afirmando que o digital chegou finalmente a sua maturidade em termos de correções e performance, que nosso trabalho é o de apenas escolher o que mais nos agrada e cabe em nosso orçamento.
Foi-se o tempo em que o audiófilo gastava uma fortuna em seu DAC e se frustrava ao constatar que ele ainda era rigorosamente seletivo na escolha de nossos discos preferidos.
Atualmente, os melhores DACs, aqueles que se destacam da concorrência, possuem a qualidade de nos proporcionar ‘folga’ suficiente para, em volumes corretos, resgatarmos toda a nossa coleção novamente.
Nesse quesito, o Studio Player se mostrou muito competente.
Às vezes ainda olho, quando me sobra tempo, os comentários em sites objetivistas, que afirmam com ‘autoridade’ que os DACs acima de 2000 dólares já são tão bons que gastar algo acima disso é total perda de tempo e puro placebo!
Minha experiência com inúmeros desses DACs de 2 mil dólares é que realmente evoluíram muito, mas continuam tendo audíveis restrições, tanto na reprodução de gravações com muita compressão, quanto na qualidade da reprodução dos graves e agudos.
Se os objetivistas se contentam apenas com energia nos graves, esses DACs atendem a essas expectativas, mas se os graves, além de energia, precisam reproduzir harmônicos, corpo correto, texturas que nos permitam observar a qualidade do instrumento, do microfone utilizado e o grau de virtuosidade do músico, sinto dizer mas não conheço nenhum DAC de menos de 5000 dólares que consiga fazer tudo isso ainda com maestria.
Chegaremos lá? Acredito que sim, mas não com apenas melhorias na relação sinal/ruído ou senoidais cada vez mais perfeitas.
Pois a questão não se resume a números cada vez melhores em um teste de bancada!
E quando escutamos essas características em um produto como esse Wadax, nas condições corretas, entendemos o motivo de existirem produtos como este, e compradores para eles.
Seu equilíbrio tonal é impecável! Graves corretos, sem coloração, sem compressão, com corpo harmônico exemplar, deslocamento de ar e velocidade.
Como sabemos isso? Ouvindo nossas gravações – principalmente a faixa de contrabaixo tocada em arco no nosso CD Timbres. Poucas vezes escutei os três microfones utilizados nessa faixa, mostrarem com tanta fidelidade as diferenças entre eles.
A região média é absurdamente orgânica e natural. Seja para vozes, instrumentos acústicos ou eletrônicos. A sensação de prazer auditivo e zero de fadiga é instantânea – seu cérebro relaxa às primeiras notas.
E os agudos possuem a extensão exata para nos apresentar a ambiência das gravações, e até mesmo os exageros atuais no uso de reverberação digital para vozes femininas limitadas e instrumentos de sopro.
Se você é um amante de soundstage, prepare-se para palcos sonoros amplos, tanto em largura, quanto profundidade e altura! Foco e recorte cirúrgico dos solistas e vozes, e planos e mais planos de orquestras bem gravadas.
Com este grau de refinamento na apresentação do equilíbrio tonal, some-se a reprodução de texturas e o ouvinte entenderá o que pode fazer uma fonte Estado da Arte!
A riqueza dos timbres na apresentação de instrumentos acústicos é tão natural que nos permite perceber sem esforço a qualidade dos instrumentos e dos músicos, sem nos perdermos de ouvir o todo. É um grau de imersão no acontecimento musical, intenso, muito intenso – se assim desejar o ouvinte.
O domínio do tempo deste Studio Player é referencial! Apaixonados por tempo, andamento e ritmo, acharam seu porto seguro! Os transientes são absurdamente precisos, e nossos maiores exemplos para análise deste quesito foram reproduzidos impecavelmente.
E chegamos, então, à grande questão que apenas quando ouvimos os melhores DACs, entendemos o que separa os bons dos excelentes: a macro-dinâmica!
Não adianta reproduzir os fortíssimos, e não os sustentá-los, chegando no meio sem fôlego, ou deixando a imagem sonora bidimensional, ou com aquela sensação de compressão.
Dou sempre como exemplo a famosa Abertura 1812, de Tchaikovsky (Telarc Records) com os tiros de canhão. Quer saber com precisão o nível de seu DAC, escute os tiros e veja se sua fonte digital suporta mostrá-los mantendo audível a orquestra, e não comprimir o sinal, tirando a profundidade da imagem e fazendo tudo soar dentro das caixas.
Reproduzir essa gravação exige folga e autoridade, simultaneamente, meu amigo!
Não adianta ter autoridade sem fôlego!
Entende?
Lembram quando eu explicava que os CD-Players do início deste século e DACs, para ‘burlar’ o problema da macro-dinâmica, se utilizavam do expediente de estarem sempre com a ‘faca entre os dentes’? Fazendo com que nosso cérebro sempre estivesse atento, sem nunca poder relaxar? Ocasionando alta fadiga auditiva após poucas horas de audição?
Engana-se quem tem a ilusão que os DACs de 2 mil dólares ultrapassaram esse obstáculo!
Eu ouvi, com os dois powers (Nagra e Boulder) essa gravação da 1812, e o Studio Player não passa sufoco algum em continuar mantendo os planos da orquestra enquanto soam os canhões.
Se o resto da eletrônica o acompanhar, nada será abalado!
E a micro-dinâmica, no Wadax, é como saborear uma ameixa no ponto! Graças ao seu silêncio de fundo, tudo que foi registrado na gravação, até mesmo o mais sutil, será apresentado. Mas sem o risco de deixar o som analítico ou ultra-transparente!
Já cantei a bola, parágrafos acima, sobre sua qualidade da reprodução do corpo harmônico. Realmente impressiona ouvir o tamanho quase real dos instrumentos à nossa frente, e o efeito que isso tem no nosso cérebro (com referência real de música acústica ao vivo), nos levando a ficar ainda mais atentos e imersos na música.
E os que desejam fazer audições diárias com os músicos em suas salas, para performances exclusivas, esse deleite será cumprido à risca com o Wadax!
CONCLUSÃO
Existe ainda hoje mercado para CD-Players?
Se não existisse meu amigo, nenhum fabricante perderia seu tempo em desenvolver players cada vez melhores.
E o Studio Player é mais que um CD-Player, pois seu streamer é de altíssimo nível também. Para mim essa foi a grande sacada da Wadax, ao colocar no mercado esse novo produto, pois atingiu dois objetivos: um CD-Player e um streamer, ambos de Referência.
Capaz de atender ao mais exigente audiófilo que deseja a melhor performance sem gastar muito mais do que deseja ou pode!
Aos interessados, minha sugestão: não deixem de escutar esse belo produto no Workshop Hi-End Show 2026, no final de abril próximo.
Não tenho dúvida que este será um dos grandes destaques do evento!
Escutem e me digam se fui feliz em minha avaliação!
PONTOS POSITIVOS
Um CD-Player e Streamer de nível Estado da Arte.
PONTOS NEGATIVOS
O preço, para nossa realidade.
ESPECIFICAÇÕES
| Tipo | CD/SACD-Player e Streamer |
| Suporte remoto e atualização OTA | Software atualizável pela internet – é necessária conexão com a Internet com largura de banda mínima de 20 Mbps |
| Nível de Saída Selecionável | 1V / 2V / 4V |
| Impedância de Saída Selecionável | 0,4 / 7,4 / 7,5 / 8,2 / 8,3 / 8,7 / 8,82 / 9,84 / 10 / 28,57 / 30 / 46,15 / 50 / 66,67 / 75 / 600 ohms |
| Saídas Digitais | SPDIF RCA, SPDIF BNC, AES-EBU (todas 32KHz-192KHz, 16-24 bits) |
| Padrões de disco suportados | Red Book (CD) e Scarlett Book (SACD) |
| Serviços de streaming suportados | Spotify, Tidal HiFi, Qobuz Connect, Audirvana, uPnP, com certificação MQA e Roon |
| Interface do usuário | Tela sensível ao toque capacitiva colorida de 5 polegadas (800×480) |
| Conexões | Conector DC Wadax Akasa (para a fonte de alimentação externa opcional) 2 conectores de entrada BNC (para o clock externo opcional) 1 conector Ethernet (para rede) |
| Saída de áudio | 1 par de conectores XLR |
| Dimensões (L x A x P) | 48 x 20 x 35 cm |
| Peso líquido | 32 kg (só o aparelho) 55 kg (com embalagem e pallet de transporte com 80 x 50 x 58,5 cm) |