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Christian Pruks
christian@avmag.com.br

Polarizações são o que manda no mundo hoje – absolutamente tudo é dividido por opiniões quase que diametralmente opostas ou, pelo menos, diversas em matéria de crenças.

A maior de todas, no áudio, é a dos ‘Tecnológicos’ versus ‘Auditivos’. E aqui em gente que não consegue ouvir diferenças, não consegue avaliar sistemas e upgrades e ajustes, e acaba indo seguir a cartilha dos Tecnológicos, onde especificações, medições e tecnologias mandam.

Tem uma certa lógica pois, por exemplo, apesar de acharem que eu sou um subjetivista total, eu não só procuro estudar e entender tecnologia de áudio, como já trabalhei durante muitos anos como parte do desenvolvimento de equipamentos e acessórios para áudio. E aí é que a coisa ‘pega’, já que “Na Prática, a Teoria é Outra”, onde o resultado final, sonoro, no mundo real, é que diz como amplificador ou DAC tocam, e não toda a teoria e tecnologia embarcada neles – essas duas últimas características são fortes indicativos, mas não são definidores.

Por exemplo, em um dos vários grupos e comunidades que discutem e promovem audiofilia, dos quais eu faço parte, um sujeito perguntou sobre uma cápsula específica, uma Moving Magnet de alto nível, se a agulha destacável dela serviria no modelo acima, e se o corpo do modelo acima seria diferente e, portanto, daria um resultado sonoro diferente – e uma das considerações foi que a resposta teria que ser dada em um ambiente científico cuidadosamente controlado… Ô loco! Esse cara acho que não consegue almoçar nuggets de frango sem uma régua na mão!

Caramba! Ignorando o fato de que podiam simplesmente perguntar para o fabricante, por exemplo, ou procurar alguma documentação sobre o assunto, fica me parecendo uma pessoa que acha que uma banana só pode ser igual à outra se fizerem teste de laboratório provando…

Baita introdução chata, para irmos – finalmente – ao assunto: Este artigo é ‘Minha Opinião’ sobre o estado atual da música via serviços de streaming, e é 100% baseado no resultado final – ou seja, ‘como toca’, e não é centrado nem em testes de laboratório, nem em medições e nem na teoria. E, claro, é centrado nos únicos dois serviços de alta qualidade sonora, ‘para audiófilos’ do mercado: Tidal e Qobuz – e ambos sendo usados em configurações de ‘CD-Quality’ ou ‘Hi-Res’.

Em julho de 2021, escrevi um artigo de Opinião sobre o caos técnico que são os serviços de streaming de música na questão da qualidade sonora e da coerência de nível de qualidade da música lá disponibilizada – ou seja, problemas que não são necessariamente culpa dos serviços de streaming.

Hoje, quase cinco anos depois, parece que o streaming, como resultado final sonoro, melhorou bastante, especialmente no acesso aos aparelhos reprodutores, os streamers, music servers e afins na qualidade de seus circuitos e software.

Algo que é previsível e natural, até pela alta demanda. E, para muitos, o streamer hoje é a principal fonte de música dentro de nossos sistemas, em nossos celulares, computadores e tablets, em nossas TVs e home-theaters – e até em nossos carros.

Mas será que o caos melhorou? Será que os problemas foram resolvidos?

Será que os serviços de streaming de música, propriamente ditos, melhoraram?

Vamos entender um pouco dos vários fatores que formam a cadeia do streaming de música. E, veja, a transparência sobre esses fatores é, muitas vezes, nível ‘Água Barrenta de Riacho’… rs…

Primeiro, vejamos a cadeia que leva a obra do músico até seu ouvido – A música é captada com microfones por um profissional, e aí vai ser mixada e finalizada para estéreo geralmente por outro profissional, e vai para as mãos do engenheiro de masterização, que a adequa aos standards do mercado e do tipo de mídia na qual será disponibilizada. Agora, uma terceira pessoa vai pegar essa música e inseri-la nas plataformas de streaming, nos vários formatos e níveis de resolução que são por elas disponibilizados.

Claro que haverá uma masterização para CD e outra para Vinil – se a tal música for vendida em mídia física.

Mas, o que interessa aqui é o streaming – e esse é uma ‘sopa de letrinha’ cheia de conceitos e tecnicidades:

LOSSLESS

Significa ‘sem perdas’, só que os conceitos são ‘discutíveis’ já que inicialmente o “CD-Quality” (16-bits/44kHz) era considerado o padrão ‘sem perdas’, mas há anos muitos discos são gravados em 24-bits/96kHz (que já configura-se Hi-Res), então argumentam que esse seria o padrão de reprodução ‘sem perdas’. Para muitos, se tal disco moderno sai em CD, então ele já estaria tendo perdas em relação à gravação original.

É uma discussão longa e infrutífera – pois ser Hi-Res não significa por si só maior qualidade sonora, e sim essa qualidade é muito mais ditada por quão bem feita a gravação é. Um disco bem gravado toca melhor em CD do que um disco mal gravado toca em Hi-Res.

Então, estando seu streamer configurado para algo como “CD-Quality” ou “Hi-Res”, já está em um bom padrão, e é o que podemos fazer no momento.

MQA & FLAC

O MQA foi uma ideia estranha de ‘comprimir’ informações ‘sem perdas’ em arquivos de áudio, e que acabou sendo demonstrado com um padrão técnico onde havia, sim, perdas, e que também não chegou a agregar qualidade sonora no resultado final, já que quando a plataforma Tidal migrou do MQA para o Flac, a qualidade sonora deles melhorou bastante.

O Flac é um tipo de arquivo de áudio (assim como o MP3 é um tipo), que comprime os dados resultando em um arquivo menor para ser transferido via Internet, sem ‘comprimir’ a música, sem alterar seu conteúdo – e é, portanto, Lossless, e é o formato usado tanto pelo Tidal quanto pelo Qobuz, hoje, para conteúdo.

DE ONDE VEM O MASTER USADO

Até onde eu consegui entender, muitos dos serviços de streaming permitem que, se você é um artista independente, faça a inserção de sua música, ou contrate um dos vários serviços online que cobram um valor para fazer isso por você em uma ou em múltiplas plataformas. O Tidal permite os dois jeitos, e o Qobuz só permite através de um serviço terceirizado.

Tanto uma maneira, quanto outra, aceita arquivos de vários tipos, de vários formatos – e obviamente os serviços terceirizados fazem conversão desses arquivos de maneiras que não são necessariamente ‘audiófilas’, nem na razão da conversão em si, e nem nas ferramentas utilizadas – que no caso deles deve ser alguma ferramenta automatizada que converte lotes de arquivos. Vejam bem, o software que você usa para conversão de formatos e de definição dos arquivos de áudio – e quais das numerosas configurações – fazem diferença enorme na qualidade final. Se eu pegar um arquivo tirado de um CD e converter para MP3 com um software simples e na configuração padrão, ou usar um software selecionado de alta qualidade (e bem lento) e usando configurações selecionadas especiais, este segundo MP3 tocará com qualidade bem melhor.

Então, esses serviços são extremamente duvidosos, pois não é impossível que se entregue na mão deles um arquivo em definição de CD, e eles o convertam para 24/96 (upsampling) para que o mesmo vire ‘Hi-Res’ (no caso, o arquivo seria Hi-Res, mas não seu conteúdo).

Já com os arquivos entregues aos serviços terceirizados, apesar dos múltiplos formatos aceitos, tanto Tidal quanto Qobuz dizem que só fazem conversão para Flac (que é o formato final deles), sem mexer na resolução nominal do arquivo. OK…

A quantidade de erros e perdas que ocorrem (e que podem ocorrer) durante esse processo todo com várias pessoas mexendo e com intermediários, me lembra quando me contaram que um LP foi prensado usando o CD do artista sendo reproduzido em um CD-Player portátil (ofensas demais acumuladas), ou sobre um CD que foi prensado a partir de arquivos MP3!

Tudo pode acontecer, para inserir ou causar perdas de qualidade sonora nessa cadeia!

MASTER, REMASTER & ‘QUAL MASTER?’

Um Master é a mídia contendo a melhor forma – e forma final – da gravação, do álbum. É ele que será usado para prensagem de discos, usado para inserção nos melhores serviços de streaming, e é ele que será disponibilizado para download em sites que vendem as faixas e os discos, estes geralmente em alta-definição.

Até à virada da década de 80, praticamente todas as Master eram uma fita magnética analógica de gravador de rolo – mas nessa década a gravação digital entrou em voga, e pouco tempo depois começou a aparecer o CD, o qual virou o padrão invicto com o mundo parar de produzir vinil comercialmente, para o mainstream, na década de 90.

Todo o conteúdo que iria ter disco prensado nessa época, ou era coisa nova que já estava em digital, ou era ‘catálogo’ analógico: tudo que já tinha sido gravado nas décadas anteriores, em analógico, e precisava ser Masterizado para digital.

Desde então, e até agora, o que mais dá dinheiro para as gravadoras é o chamado ‘Catálogo’ (inclusive no streaming), não os lançamentos famosos de cada mês da atualidade.

Com esse conhecimento, entende-se o porquê das grandes gravadoras, dos grandes selos, ficarem relançando repetidamente, a cada ‘x’ anos, a discografia completa de um monte de artistas, em CDs comemorativos, caixas de discos de vinil com poster em anexo, com faixas extras encontradas nas Master originais – e, também, a cada alguns anos, novos Remaster aparecem, de uma infinidade de discos, no acervo dos serviços de streaming. Tudo para promover aquilo que é a ‘árvore que dá dinheiro’ deles (afinal, os direitos pertencem a eles).

Até aí, tudo bem. Tem sempre quem quer edições comemorativas e caixas completas. O meu problema está na qualidade das masterizações. Por exemplo: tenho o LP nacional do final da década de 70, do primeiro disco do Dire Straits, prensado no Brasil em vinil fininho e barulhento, a partir de Master original analógica. E tenho o mesmo disco 180g, em Remaster recente e prensagem europeia de 3 anos atrás – e o som deste é todo chapado e sem vida, perdendo forte em Qualidade de Som para a prensagem brasileira!

As gravadoras grandes todas têm uma infraestrutura técnica para fazerem eles mesmos, in-house, as Remasterizações. O problema é que são ruins a maioria esmagadora dessas Remasterizações. E desnecessárias, pois se o caso é rock/pop, as feitas no começo dos anos 2000 são suficientemente boas, ou mesmo muitos dos discos das décadas de 70, 80 e começo de 90, simplesmente não precisam de Remaster! Já tocam bem!

Agora, digamos que eu queira ouvir a Master original dos discos da banda inglesa Marillion, no streaming. Eu acho a Master original? Não? A de 21-bits do começo dos anos 2000 (que é boa!)? Também não. Eu só acho alguma Remaster atual, algo que mexeram sem precisar, e sem melhorar.

E isso é terrível!

O STREAMING DE MÚSICA MELHOROU?

Tidal e Qobuz reinam absolutos no mercado em Qualidade Sonora, sendo que o Tidal adotou o mesmo formato do concorrente, o Flac – após abandonar o MQA – o que para mim foi um avanço em sonoridade.

Quem dita quais as Remasterizações dos discos serão disponibilizadas, sempre serão as gravadoras – assim como também é a qualidade dos Master enviados por gravadoras menores e por artistas independentes – porém seria melhor selecionar muito bem qual será o serviço de publicação terceirizado que irá por seu conteúdo nas plataformas, e assim eliminar o melhor possível as perdas que ocorrem nesse estágio.

Nem todo mundo tem consciência da importância da Qualidade Sonora – assim como os audiófilos propriamente ditos continuam sendo uma parcela muito pequena dos usuários desses serviços.

A resposta, então, é: “Depende de que tipo de música você ouve”. E isso é o que leva muita gente ainda a manter seus CDs (copiados para dentro de seu computador) e/ou arquivos de música comprados nos vários serviços que os vendem (ou vendiam) ao longo das duas últimas décadas – para usufruir de gravações e masterizações mais interessantes do que muitas que hoje são disponibilizadas.

Ou, fazem como eu: Streaming + Música guardada no computador + Vinil! Só não tenho o Gravador de Rolo, ainda.

Não se esqueçam: quaisquer dúvidas ou críticas, entrem em contato pelo meu e-mail – christian@avmag.com.br.

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