

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br
Essa é uma pergunta cada vez mais recorrente feita pelo público mais novo que começou a nos ler, depois da criação do caderno Audiofone.
A vontade dessa garotada acertar na escolha de seus fones, está me surpreendendo, pois eles querem realmente valorizar ao máximo seu investimento.
E aqueles que começam a ler a AVMAG, enveredam por nos questionar se o mais importante na escolha de uma caixa acústica não seria antes de decidir o que ouvir, avaliar as fichas técnicas dos produtos que interessam?
Essa é uma excelente pergunta! Pois certamente evitaria muitas dores de cabeças e frustrações.
Eu uso esse método em todas as novas consultorias, buscando separar o sonho da realidade, pois se tem uma tribo que voa no imaginário, esses são os audiófilos.
Se contar os desejos iniciais de boa parte das consultorias que fiz ao longo desses 30 anos da revista, muitos irão achar que estou exagerando.
A ilusão mais comum de todas é acreditar que uma coluna, que responde de 28 Hz a 30 kHz, soará decentemente em um espaço de 12m2 sem nenhum tipo de tratamento acústico.
E isso é mais comum acontecer do que se pensa.
Já vi salas em que as colunas ficam grudadas nas paredes atrás delas, com menos de um palmo de distância – ou caixas separadas entre elas por apenas 1m, e a poltrona de audição a apenas 1.2m das caixas.
E estou falando de caixas imponentes, com pelo menos 1m de altura!
Resultado, um grau de fadiga auditiva enorme e uma frustração ainda maior!
Todos esses dissabores poderiam ser evitados com uma consulta à ficha técnica dessas caixas antes de as ouvirmos.
Simples e objetivo – e custo zero!
A segunda ilusão é achar que aquele amplificador de 8 Watts irá casar bem com sua caixa de 89 dB de eficiência, como se apenas essa informação fosse o suficiente, não levando em consideração outro dado importantíssimo: como é a curva de impedância da caixa?
A resposta dos que cometem esse erro é acharem que a eficiência e o tamanho da sala, e seu gosto musical mais simples, permitiriam a escolha feita.
E, por fim, uma informação objetiva muitas vezes esquecida que é o corte de frequência da caixa que estamos namorando. Pois dependendo, por exemplo, se a caixa escolhida o corte para os agudos se der muito baixo (por volta de 1.8 kHz), e estivermos sentados a menos de 2m das caixas, imagine a quantidade de informação direcional que iremos receber entre 1.8 kHz e 20 kHz, por exemplo?
Resultado? Fadiga auditiva, mesmo em volumes moderados.
Dei apenas três exemplos básicos de dados objetivos que precisam ser levados em consideração na hora de escolhermos nossa caixa acústica.
Mas existem outros, como entender que caixas que respondem abaixo de 60 Hz em ambientes com menos de 16m2, precisarão de tratamento acústico para que os graves sejam inteligíveis e não ‘sujem’ todo o espectro audível.
E que, quanto mais a caixa escolhida descer, mais importante será o uso de armadilha de graves para o investimento dessa caixa dos sonhos valer a pena.
E aí entramos na segunda etapa da escolha de uma caixa acústica: sua assinatura sônica. E aí, meu amigo, para você não se perder em um labirinto de informações e opiniões, você necessitará de duas ferramentas: Referência e Metodologia!
Se não tiver essas duas ferramentas, toda a primeira etapa objetiva na seleção das caixas vai pelo ralo, literalmente.
Pois os dados objetivos só te levam a uma parte da busca – a outra metade é por sua conta e seu grau de conhecimento do que deseja e consegue observar de diferenças entre as várias assinaturas sônicas existentes no mercado.
Em toda nova consultoria, a pergunta crucial que faço é: “o que você mais deseja de seu sistema?”
E a resposta que mais escuto é: “musicalidade”.
Percebe o quanto essa resposta é vaga e inconsistente meu amigo? Pois o que pode para você soar “musical”, para o outro pode soar o oposto.
Já imaginando essa resposta, peço para escutar o sistema, reproduzindo seus discos de referência – raramente o que ouço soa perto do que eles têm ou desejam.
Interessante que a maioria desses audiófilos que estão com seus sistemas desajustados, tem pouca familiaridade com instrumentos acústicos ao vivo não-amplificados.
E muitos sequer têm o hábito de ouvir estilos musicais com instrumentos acústicos ao vivo.
As estatísticas que levantei nas últimas duas décadas, ouvindo sistemas dos nossos leitores, é que mais de 70% dos sistemas poderiam evoluir muito. E esse é um dado preocupante, pois mostra que a esmagadora maioria não está fazendo o ‘dever de casa’ – que é aprimorar seu grau de Referência, para poder detectar erros comuns como desequilíbrio tonal, apresentação de texturas pobres (o que compromete os timbres dos instrumentos), soundstage sem apresentação de planos e com foco e recorte difusos, problemas na reprodução de macro-dinâmica, e a apresentação do corpo dos instrumentos muito menores do que soam ao vivo.
E, convenhamos, investir tanto tempo e dinheiro para resultados tão frustrantes, é inadmissível!
O conselho que dou a todos os nossos jovens leitores, se querem iniciar essa jornada, é que busquem entender os dados das avaliações objetivas que permitem nos ajudar a direcionar nossas escolhas, e ampliem sua Percepção Auditiva escutando frequentemente música ao vivo não-amplificada, e buscando uma Metodologia que lhe oriente do que é preciso observar auditivamente para escolher com segurança cada componente dos seu futuro sistema.
E, para os audiófilos que estão a mais tempo nessa estrada, mas continuam cometendo erros e alimentando frustrações, sejam humildes e busquem aprimorar seu conhecimento, e ampliem seu grau de Percepção Auditiva – ou o recalibre, se estiver há muito tempo sem novos referenciais.
Garanto que essas duas iniciativas, quando aplicadas com esmero, sempre dão bons resultados.
Pelo menos vinte e poucos por cento de nossos leitores, dos quais tive a oportunidade de escutar seus sistemas ao longo desses trinta anos da revista, chegaram lá!
Da nossa parte, continuamos com o mesmo objetivo inicial desta publicação: dar ferramentas seguras a todos que desejam caminhar com suas próprias pernas e realizar o sonho de transformar seus discos em audições inesquecíveis!
Aos que desejam ampliar sua Percepção Auditiva, o convite para participar do nosso Workshop Hi-End Show, no último fim de semana de abril, está de pé!