

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br
Posso me considerar uma pessoa com muita sorte!
Pois tenho amigos que mantenho próximos, e que os conheci quando ainda nem era adolescente.
Quando nos mudamos para um sobrado em uma rua de terra batida, e sem iluminação pública, em que a única linha de ônibus passava de duas em duas horas, aquela paisagem foi devastadora para mim. Afinal, havia passado minha primeira infância dentro do Campo de Marte, em que podíamos andar de bicicleta, carrinho de rolimã, jogar bola, usar a quadra de basquete e pescar no fim da pista do campo de aviação. Ou atravessar a rua e pescar no imenso lago, que vi virar o estacionamento do pavilhão Anhembi e se tornar o mais importante polo de feiras, como o Salão do Automóvel e a famosa UD (Feira de Utilidades Domésticas).
Meu ‘boas-vindas’ para minha nova realidade, foi um sábado pela manhã indo buscar pão na única padaria daquele bairro, passar em frente a uma casa um pouco à frente da minha, e ouvir Led Zeppelin em alto e bom som vindo de uma casa de dois andares.
Pensei comigo: “preciso saber quem mora nessa casa o mais rápido possível”. E naquele final de semana mesmo, fiquei espreitando para ver se alguém aparecia, para poder me apresentar.
Foram dias sem nenhum contato, mas não desisti. Até que soube pela minha mãe, que naquela casa havia dois filhos e que o mais novo também estudava no Colégio Gonçalves Dias. Ele se chamava Eli, e ficamos amigos, graças à paixão comum pela música e pelos livros de ficção científica.

Passamos a frequentar a casa um do outro e, às vezes, esbarrávamos com o seu irmão mais velho, o Eron, que era quatro anos mais velho que nós dois.
Ele havia se mudado para a garagem da casa, e lá ele mantinha seu espaço onde – como com todo adolescente – era absolutamente impossível achar qualquer coisa, exceto seu contrabaixo, seu violão e o amplificador.
Tinham semelhanças físicas o suficiente para qualquer um saber que eram parentes, porém personalidades muito distintas.
Enquanto o Eli era mais fechado e discreto, o Eron era expansivo, sorriso largo no rosto e um semblante sempre curioso em aprender coisas novas.
Ambos tinham uma inteligência fora do comum: o Eli se tornou geólogo, uma de suas paixões de infância, e o Eron se formou em Letras e falava fluentemente inglês e, como ele dizia, dava para o gasto em alemão, italiano, espanhol e hebraico.
O Eli nos deixou muito cedo, com apenas 32 anos, e sua morte foi devastadora tanto para os pais deles como para o Eron.
Eu me tornei amigo de ambos, e mesmo tendo saído de casa aos 18 anos, quando ia visitar meus pais, passava para dar um abraço nos pais deles.
Interessante que, a partir de minha saída de casa para morar sozinho, o Eron foi o que mais frequentou minha casa. Ele me dizia que seu interesse era em ouvir minhas aquisições musicais semanais, pois elas não se limitavam apenas a rock progressivo.
Sim, nesta fase, o jazz, o clássico e a música instrumental brasileira já eram a maior parte de minha coleção.
Passávamos os finais de semana mergulhados em audições de muitas horas, às vezes duas ou três pessoas, às vezes uma dezena de ouvintes – entre casais e solteiros.
O mais interessante era a troca de informações, entre todos, e como o gosto de cada um era respeitado.
Lembro-me nitidamente como o Eron se emocionou ao ouvir pela primeira vez Ma Mère L’Oye, de Maurice Ravel, que originalmente era uma suíte para piano a quatro mãos e que, com o enorme sucesso, Ravel a transcreveu para orquestra em 1911.
Mostrei a versão orquestrada, e ele a ouviu no mais profundo silêncio. E foi tão impactante que, por anos, ele descreveu aquele momento como um divisor de águas em sua formação musical.
Ele sempre foi daqueles amigos de infância de sumir por temporadas e depois reaparecer. Não sei dizer com exatidão quantos anos entre meu primeiro casamento e o segundo, ficamos sem nos ver.
Na minha memória de sexagenário, não lembro dele me visitando em meu primeiro casamento.
As lembranças do seu retorno se dão em uma manhã de domingo, em que estou saindo de casa e vejo um cara agachado com uma flanela na mão, mexendo no motor de uma moto, que parecia estar com vazamento. Eu o reconheci imediatamente, mesmo de costas.
E ao chamá-lo, ele virou surpreso e abriu aquele largo sorriso que era sua marca registrada. Foi um reencontro saudado por um almoço, para ele conhecer minha segunda esposa.
Ele também já estava em seu segundo casamento, e suas paixões continuavam sendo a música, seu contrabaixo e sua moto.
Ele foi funcionário de carreira por longos anos no Banco do Brasil, e detestava aquilo. E eu fui um dos maiores incentivadores para ele largar a mão e buscar fazer o que o fizesse feliz. Com seu conhecimento, sua inteligência, não faltaria mercado jamais.
E, finalmente, um dia ele me liga radiante para contar que havia conseguido emprego em um distribuidor de instrumentos musicais, e que iria cuidar da tradução de todos os manuais deles.
Era serviço a não acabar mais, pois essa distribuidora representava 36 marcas de instrumentos no Brasil.
Quando saiu desta distribuidora, foi ser sócio na AC Organizer, foi nosso colaborador por mais de 9 anos, e os leitores que possuem nossos discos da Cavi Records, se pegarem os encartes verão que foi ele que fez a tradução para o inglês.
Trabalhou um tempo na Ferrari Technologies, e depois deu uma guinada em sua vida, de 180 graus, ao conseguir ser contratado pela fabricante de alto-falantes Morel e ir morar com a família em Israel.

Voltou de lá quando sua esposa morreu, e veio cuidar da mãe, que já estava muito debilitada e necessitando de cuidados.
Quando ele ainda morava em Israel, sua esposa Janete, mandou-me dois bonecos que achou em uma loja de artesanato, com o seguinte bilhete: “Eles representam a amizade eterna de vocês dois”.
Com ele em Serra Negra e eu em São Roque, nos últimos anos, nos reunimos pouquíssimas vezes, mas nos falávamos sempre.
Sua saúde já andava debilitada após o falecimento de sua mãe, mas acho que a distância dos filhos, que ficaram em Israel, e a falta de apoio para fazê-lo se alimentar e tomar os medicamentos, agravou ainda mais seu quadro.
A última vez que nos falamos foi em 5 de junho.
Ele me mandou uma mensagem de áudio, tocando a parte do contrabaixo da música Loro de Egberto Gismonti e, ao término da gravação, acrescentou: “demorei, mas finalmente tirei meu amigo, receba esse presente”.
Foi nosso último contato.
Ele ainda viu a revista de julho, mas não comentou nada.
Comecei a me preocupar e tentar contato – mas como ele mantinha o hábito de sumir às vezes, tentei esperar ele me ligar.
Os meses se passaram, até que no início de novembro, tive a confirmação de seu óbito no dia 07.07.2025.
Não é fácil perder dois amigos tão próximos no mesmo ano (leia a seção Playlist nesta edição).
Pessoas queridas, que fizeram parte de momentos tão significativos da minha história. Sabemos que a morte é nosso fim inevitável, mas saibamos celebrar e agradecer a vida por ter nos propiciado amigos incríveis.
Pois agraciados são os que os guardam por toda a vida!
