Espaço Analógico: POSIÇÃO HORIZONTAL DA AGULHA – O AJUSTE DO AZIMUTE PERPENDICULAR

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Charles Port

Apresentamos aqui um novo articulista para esta seção. Charles Port é um pesquisador, fuçador e esmiuçador de tudo que há no aspecto técnico da regulagem de braços e cápsulas – e que serão abordados nos próximos meses, com esta série de artigos.

Capítulo 1 de uma série sobre configuração e otimização de cápsulas e toca-discos
Az·i·muth [definição]
/ˈazəməTH/
Substantivo

Astronomia, Navegação: O arco do horizonte medido no sentido horário a partir do ponto sul, em astronomia, ou do ponto norte, em navegação, até o ponto onde um círculo vertical que passa por um determinado corpo celeste intercepta o horizonte.

Levantamento topográfico, artilharia: O ângulo de desvio horizontal, medido no sentido horário, de um rumo em relação a uma direção padrão, como o norte ou o sul.

A função da agulha de leitura em uma cápsula fonográfica, é traçar as ondulações das paredes do sulco com a maior precisão possível. Um ajuste crucial é determinar se os pontos de contato da agulha (as bordas da agulha) estão alinhados horizontalmente dentro das paredes do sulco.

Em uma cápsula fonográfica, esse ajuste (ironicamente) é feito por meio de alterações na perpendicularidade entre a agulha e o corpo da cápsula, observada pela frente do corpo da cápsula. Uma complicação adicional é que isso também depende do tipo de geometria da agulha utilizada pelo fabricante: cônica, elíptica, ou uma das muitas geometrias avançadas inspiradas no CD-4: Line-Contact / Fine-Line / Linear-Contact, Shibata, MicroLine / MicroRidge, Jico-SAS, Paratrace, van den Hul, Replicant 100, Fritz-Geiger.

Ao usar uma agulha cônica (ou elíptica), a cápsula tolera algum desalinhamento azimutal, mas se o design da sua agulha usar uma forma geométrica mais moderna, possivelmente derivada dos desenvolvimentos do CD-4 (“som surround”), as bordas polidas da agulha precisam ser orientadas de maneira mais precisa, pois a base ou área de contato da agulha precisa estar posicionada de forma que ambos lados da agulha toquem igualmente as paredes do sulco, com precisão.

A dificuldade reside no fato de não podermos medir diretamente (fisicamente) esse encaixe – ele é microscópico e fica obscurecido pela profundidade do sulco e pela própria haste da agulha, o que impede um exame visual direto. Temos duas estratégias, portanto:

  1. Confiar que o fabricante montou a agulha de forma que ela ficasse exatamente perpendicular não apenas à haste do cantilever, mas também ao corpo da cápsula e à superfície de montagem.
  2. Utilizar alguma técnica de medição – como a da diafonia, por exemplo – para determinar se o sinal da agulha está sendo modulado igualmente.

OPÇÃO 1 – FERRAMENTAS

Portanto, se você confia que o fabricante montou a agulha perpendicularmente tanto ao corpo do cantilever quanto à superfície de montagem da cápsula, então precisaremos de quatro ferramentas:

  • Uma lanterna em formato de caneta
  • Um espelho de ‘primeira superfície’, com a espessura aproximada de um disco de vinil (2.2 mm)
  • Uma lupa de 40x – ou óculos de aumento adequados.
  • Um celular com câmera HD

OPÇÃO 1 – PROCEDIMENTO

  • Nivele o prato da melhor maneira possível
  • Monte a cápsula no braço e regule-o
  • Aplique uma força de rastreio provisória – normalmente um grama é suficiente
  • Ajuste o VTA do braço para que, quando a agulha for pousada em um disco comum, ele fique na horizontal, paralelo

OPÇÃO 1 – ETAPAS DE CALIBRAÇÃO

  1. Coloque o espelho no prato do toca-discos, dentro do arco de leitura do braço pivotado
  2. Abaixe a ponta da agulha em direção ao espelho
  3. Use sua lanterna para iluminar o local onde a agulha está pousada
  4. Observe o reflexo “vertical” das pontas no espelho – ajuste o azimute (girando o headshell ou por outro meio de acordo com o braço) até que o reflexo, e o cantilever com a agulha de diamante, mostrem uma única linha vertical contínua
  5. Use um telefone ou outro meio para tirar uma foto em close do dispositivo, e amplie essa foto para verificar se você tem a melhor orientação, se está o mais reto possível
  6. Ao terminar, trave a regulagem nessa posição

OPÇÃO 2 – FERRAMENTAS

A segunda opção exige um investimento significativo em ferramentas, e é mais complexa. As ferramentas necessárias também são mais caras, embora (teoricamente) seja possível investir simplesmente na gravação de teste e usar o ouvido para perceber as diferenças de calibração.

FERRAMENTAS NECESSÁRIAS RECOMENDADAS:

  1. LP de testes: ou Analogue Productions Test Record AAPT-1, ou Ortofon Test Record
  2. Osciloscópio: ou Software ou com tela LCD (Virtins-Tech Multi-Instrument 3.9.9.6, ou HANMATEK 110mhz Bandwidth DOS1102 2 channel Digital Oscilloscope)
  3. Conversor Analógico para Digital (ADC): ou ART USB Phono Plus PS, ou RME ADI-2/4 Pro SE
  4. Pré de Phono com inversor RIAA para testes: Hagerman Audio iRIAA2 Inverse RIAA Filter, e o freeware ARTA Audio Real Time Analysis FFT/MLS, mais uma placa de som USB de boa qualidade como a Creative LIVE! AUDIO A3
  5. Cabos diversos, conectores, adaptadores e cabos USB

OPÇÃO 2 – PROCEDIMENTO

  • Nivele o prato da melhor maneira possível
  • Monte a cápsula no braço e regule-o
  • Aplique uma força de rastreio provisória – normalmente um grama é suficiente
  • Ajuste o VTA do braço para que, quando a agulha for pousada em um disco comum, ele fique na horizontal, paralelo

OPÇÃO 2 – ETAPAS DE CALIBRAÇÃO

  1. Configure a cadeia de dispositivos para permitir a reprodução do disco de testes (ver FIG. 3)
  2. Instale o software de osciloscópio sugerido no computador conectado via cabo USB
  3. Conecte o pré-amplificador de phono ART USB (que funciona como um conversor ADC) ao PC via cabo USB
  4. Conecte a saída do seu pré-amplificador de phono RIAA às entradas RCA de linha do ART USB
  5. Reproduza o disco Analogue Productions ‘Ultimate Test Record’, usando as faixas 1 a 3 – comece com a faixa 1 (sinal Mono L/R de 1KHz)
  6. Utilizando o software Virtins-Tech Multi-Instrument 3.9.9.6 (ver FIG. 4 – observe que usamos todas as configurações padrão), ajuste o azimute observando a caixa superior direita “Crosstalk A -> B” quanto à forma de onda senoidal de saída. Ajuste para que essa caixa mostre um valor abaixo de 0.1 dB (ou seja, 0.03 dB, como mostrado) e para que a onda senoidal de cada canal fique sobreposta à outra (amplitude igual).

Ao reproduzir o Lado A, Faixa 1, estamos analisando a saída das bobinas da cápsula (motor) amplificadas pelo seu pré-amplificador de phono RIAA. Como estamos usando um sinal de 1 kHz, estamos em uma faixa de frequência que não é ajustada pelo filtro RIAA, portanto, o sinal deve ser linear e livre de distorção. Este caixa mede o crosstalk entre os dois sinais – que é o vazamento de um sinal de um canal para o outro. Ela é definida quantitativamente como a relação, expressa em dB, entre a potência da frequência fundamental no canal sem o sinal de teste, e a potência no canal com o sinal de teste.

Testes adicionais usando o Lado A, Faixas 2 e 3 (apenas sinal de 1 kHz nos canal ‘esquerdo’ & ‘direito’) podem validar ainda mais a configuração – devemos observar (e ajustar para) a saída mínima do “canal oposto” – e se estiver reproduzindo um sinal do canal direito em mono, ajuste o Azimute para ouvir “a menor saída possível do alto-falante esquerdo”, e vice-versa.

POLÊMICAS

O célebre Peter Ledermann, da Soundsmith, afirmou que a otimização da saída elétrica deve ser secundária à obtenção de um bom assentamento da agulha dentro das paredes do sulco – pois esta é a “razão de ser” da agulha. Mas talvez F. V. Hunt tenha expressado este conceito da melhor forma: “O rastreamento perfeito é um critério necessário, mas não suficiente, da adequação de uma cápsula, enquanto o rastreamento imperfeito, mesmo com transdução ideal, é uma garantia certa de inadequação” (The Rational Design of Phonograph Pickups, JOURNAL OF THE AUDIO ENGINEERING SOCIETY OCTOBER 1962, VOLUME 10, NUMBER 40).

Mas, como de fato ‘ouvimos’ a saída elétrica da cápsula, e como pequenas variações no equilíbrio dos canais são facilmente observáveis, tendo a optar pela otimização da saída elétrica da mesma. Se você confia no fabricante da sua cápsula, pode usar a estratégia da ‘Opção Um’, acima, e deixar por isso mesmo.

MÉTODO ALTERNATIVO 1

Frequentemente vemos um indivíduo usando um canudo de plástico, grafite de lápis, ou até mesmo nível-bolha em miniatura para garantir que a superfície de montagem do cápsula fique ‘horizontal’. Outro dispositivo comum é o uso de um bloco de plexiglass com uma fina grade impressa na superfície. Todos esses métodos de alinhamento perpendicular, dependem das técnicas de fabricação da agulha e cápsula pelo fabricante e, na opinião deste autor, são maneiras pouco confiáveis ​​de ajustar o azimute, já que estão na terceira e até na quarta ordem de distância até o que a ponta da agulha está fazendo.

MÉTODOS ALTERNATIVOS 2

Uma ferramenta útil (embora cara: US$ 400) é o medidor de alcance azimutal Fozgometer V2, assim como a solução ‘Opção 2’ acima – dependendo dos módulos adquiridos e do pré-amplificador ART USB de US$ 99 – custa cerca de metade deste preço, e é muito mais flexível e intuitiva.

DEFINIÇÕES ÚTEIS

Espelho de primeira superfície – É um tipo de espelho usado para reflexos precisos, que não cria uma imagem com reflexões ‘fantasma’.

Equalização RIAA – É a usada na prensagem de LPs, que atenua as baixas frequências para evitar o corte de sulcos largos e a sobremodulação, enquanto reforça as altas frequências para melhorar a relação sinal-ruído, reduzindo o ruído de superfície.

RECURSOS

Edmund Optics: vendas@edmundoptics.com – (55) 11 3198-7294 (Brasil)

Spectrum Scientifics: Caixa Postal 30380 – Filadélfia, PA 19103 Telefone: (267) 297-0423 – sales@spectrum-scientifics.com

Virtins Technology: 6 Tao Ching Road #03-12 – Singapura 618723 – www.virtins.com – Tel.: (+65) 62580357

REFERÊNCIAS

Alexey Kornienkov, “Azimuth Adjustment Myths and Reality, Part I, II, III.” (Audio Blog), 21 August 2018, https://korfaudio.com/blog36 – Acessado em 14FEB26

Richard Brice, “Cartridge Balance & Azimuth” (Web), https://pspatialaudio.com/cart_compensation.htm – Acessado em 14FEB26

Peter Ledermann, “How Do I Set The Azimuth Adjustment On My Cartridge?” (Web),https://www.sound-smith.com/faq/how-do-i-set-azimuth-adjustment-my-cartridge – Acessado em 14FEB26

Charles F. Port é um audiófilo analógico, especializado na construção de pré-amplificadores de phono personalizados e em consultoria na configuração de toca-discos, cápsulas e braços, através de sua empresa Port Audio Consulting (PAC). Nascido em Pensacola, Flórida, Port mistura a paixão de uma vida pela música clássica e pela física do áudio.

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