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6 de julho de 2026

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br

“Quando as pessoas ouvem a mesma música, nossos corações e nossa atividade cerebral se sincronizam.”

Segundo o neuropsiquiatra e escritor mexicano Jesús Ramírez Bermúdez, quando você ouve suas músicas preferidas junto com outra pessoa, seus neurônios passam a se sincronizar com os neurônios dela, assim como a atividade cardíaca de ambos os ouvintes.

Ramírez Bermúdez chegou a essa conclusão após extensos estudos clínicos realizados na Unidade de Neuropsiquiatria do Instituto Nacional de Neurologia e Neurocirurgia do México.

Em seu mais recente livro, A Melancolia Criativa, ele descreve esse fenômeno em detalhes.

O Conectoma Humano é uma importante linha de pesquisa da neurociência que estuda a forma como nossos cerca de 100 bilhões de neurônios se comunicam e se integram para criar uma experiência unificada de consciência.

O objetivo de Ramírez é compreender como essa sincronização entre neurônios e corações pode ser estabelecida por meio das artes.

O que mais chamou sua atenção foi observar que essa sincronização somente ocorre quando ambos os participantes estão em estado de atenção plena e ativa, ou seja, conscientes e verdadeiramente dispostos a viver aquela experiência em comum.

Ele cita como exemplo os grandes shows musicais, nos quais essa sincronização acontece quando milhares de pessoas cantam juntas ou acompanham a música com palmas no mesmo ritmo.

É o que conhecemos como catarse coletiva.

Segundo o pesquisador, essas manifestações espontâneas favorecem o desenvolvimento da empatia e ajudam a reduzir preconceitos.

A música tem essa extraordinária capacidade de sincronizar pessoas em uma grande experiência coletiva.

Nesses eventos, cada participante transforma aquele momento em um espaço de prazer, pertencimento e reconciliação com o mundo.

A descrição dessas observações feita por Ramírez Bermúdez em seu novo livro despertou em mim lembranças muito antigas das audições coletivas que realizávamos em minha sala, logo depois que saí da casa dos meus pais – e que, de certa forma, continuam vivas em nossos eventos até hoje.

Esses encontros aconteciam aos sábados, no final da tarde, logo após nossas tradicionais visitas às lojas de discos do centro de São Paulo. Cada um, dentro das possibilidades do próprio orçamento, comprava o LP que tanto aguardava e seguia para nossa sessão de audição.

Em nossos rituais coletivos, todos os discos novos eram ouvidos do começo ao fim, em um respeito quase solene por aquele momento tão especial.

Havia pessoas sentadas pela sala inteira e até mesmo no corredor que ligava os demais cômodos da casa. Bastava a agulha tocar o sulco do disco para que um silêncio absoluto se instalasse no ambiente.

Posso afirmar a todos vocês que vivi inúmeras audições inesquecíveis, repletas de memórias afetivas e sensoriais que permanecem vívidas até hoje, mesmo passados quase cinquenta anos daqueles encontros.

Por isso compreendo, de forma muito concreta, o que a neurociência atualmente chama de Conectoma Humano.

Experimentei essa ‘mágica’ de sincronizar coração e mente coletivamente centenas de vezes.

E ainda hoje tenho o privilégio de testemunhar esse mesmo fenômeno em nossos Cursos de Percepção Auditiva, nos Workshops e em nossa sala de audição.

Posso afirmar, sem receio, que ouvir música coletivamente continua sendo uma das maneiras mais eficientes de nos reconectarmos àquilo que há de mais essencial em nossa humanidade.

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