
Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br
Ouvi essa frase centenas de vezes ao longo da minha infância e adolescência. Era assim que meu pai me chamava quando queria compartilhar algo especial – um sistema que havia montado em casa ou alguma melhoria feita em equipamentos de seus clientes.
Era mais do que um convite. Era um ritual.
Sentávamos em silêncio. Ele posicionava cuidadosamente o braço do LP, ajustava o volume e, daquele silêncio quase solene, a música surgia. Havia ali uma presença plena, uma conexão rara – quase um ato litúrgico.
Ao longo dessas três décadas, a revista acompanhou transformações profundas que redefiniram a tecnologia. Vimos a transição do analógico para o digital e testemunhamos inúmeras promessas – algumas cumpridas, outras não.
Nesse percurso, nosso papel nunca foi apenas o de cronistas ou críticos. Fomos – e continuamos sendo – mediadores entre a tecnologia e a percepção.
Nosso objetivo sempre foi apresentar o que há de melhor em áudio e vídeo, não apenas em termos de desempenho, mas principalmente na formação de um olhar e de uma escuta mais apurados. Porque ouvir bem não é apenas ter bons equipamentos: é desenvolver critérios, referências, memória auditiva e sensibilidade musical.
Nessa trajetória, muitos produtos nos marcaram. Alguns foram além de sua excelência técnica: representaram verdadeiros pontos de inflexão, aproximando-se, ainda que de forma sutil, da experiência musical original.
No entanto, as mudanças mais significativas – na minha visão – não aconteceram nos equipamentos que testamos, mas nos nossos leitores.
Percebemos uma evolução na forma de encarar o hi-end: na escolha de upgrades, no cuidado com ajustes, na compreensão da importância de salas dedicadas e, sobretudo, na consciência de que um sistema só atinge seu pleno potencial quando seus pontos fracos são identificados e corrigidos.
Hoje, vemos uma nova geração surgindo. São pessoas com novos hábitos e comportamentos, que transitam entre diversas opções do mercado: streaming, fones de ouvido, som automotivo. Ainda assim, aos poucos, redescobrem o valor de um sistema de áudio voltado para uma escuta mais atenta, imersiva e emocional.
Essas reflexões trazem, ao mesmo tempo, incertezas e esperança sobre o futuro do hi-end como o conhecemos. Incertezas sobre os caminhos que serão seguidos, mas esperança de que a tecnologia continue nos aproximando daquilo que realmente importa: a música.
Por isso, o convite permanece o mesmo para todos que nos acompanham nessa longa e bela trajetória da Áudio & Vídeo Magazine: “SENTE E ESCUTE!”