

Christian Pruks
christian@avmag.com.br
Todo mês um LP com boa música & gravação
Gênero: Música Clássica
Formatos Interessantes: Vinil Importado Duplo
O universo da música clássica é cheio de coisas interessantes que vão muito mais além do que o repertório inofensivo tocado em elevadores e esperas telefônicas, e até muito além daquele que a vovó gosta de ouvir no domingo à tarde.
Acho que é por essa variedade e complexidade musical que eu sou aficionado do repertório sinfônico – influência de meu pai, claro, que adorava o poderio e as possibilidades de uma Orquestra Sinfônica completa!
E uma dessas obras, que eu ouvia em casa desde a juventude, é a gravação do Balé Gayaneh (muitas vezes grafado ‘Gayne’ ou ‘Gayane’) do compositor armênio-soviético Aram Khachaturian, executado pela National Philharmonic Orchestra sob a regência do maestro armênio-iraniano Loris Tjeknavorian.

Boa ‘sopa de letrinhas’, né?
Essa gravação, aliás, é considerada como ‘A’ referência para essa obra, dominando técnica e emocionalmente as danças, ritmos e percussões – como escritas por Khachaturian – como nenhuma outra gravação o fez.
Muitos devem estar pensando: um regente desconhecido, gravando uma obra desconhecida, de um compositor desconhecido, com uma orquestra desconhecida! Hehehe!
Não é bem assim…
Tjeknavorian, que hoje ainda rege aos 88 anos, dedica-se há muito tempo à uma orquestra armênia e ao trabalho como compositor, mas já foi considerado um dos melhores regentes de sua geração, estando prolificamente à frente de orquestras como London Symphony e London Philharmonic, Vienna Symphony e Vienna State Opera, e com mais de 60 discos gravados para selos como RCA, Philips e EMI. Seu filho, Emmanuel Tjkenavorian, nascido em 1995 na Áustria, é hoje um requisitado violinista e regente.

Khachaturian (1903 – 1978) nasceu na Geórgia, dentro do regime soviético – mas sendo de família armênia sempre dedicou-se ao nacionalismo armênio em sua música, além de influências do oriente médio e do Cáucaso. Foi um compositor prolífico, e várias de suas obras são bastante tocadas e relevantes no repertório erudito
internacional. Estudou música no prestigiado Conservatório de Moscou, e seu nome é constantemente citado junto com outros compositores soviéticos do século 20, como Dmitri Shostakovich e Sergei Prokofiev.
A National Philharmonic Orchestra – nome mais genérico impossível – foi iniciada em Londres em 1964, para gravação de discos para selos famosos como Decca, London, RCA e Columbia, com grandes regentes da época, operando pelos 35 anos seguintes e gravando mais de 350 discos! Até acertar o nome, a National começou como RCA Symphony e como London Promenade Orchestra, e isso usando músicos principalmente da célebre London Philharmonic
Orchestra. A National também gravou, em sua carreira, a música de perto de 80 filmes, muitos deles de nome conhecido, como Barry Lyndon (1975), Alien (1979), a trilogia A Profecia, e os filmes do Rambo – entre vários outros nomes famosos.

Gayaneh – na história original uma jovem armênia em conflito entre seus sentimentos românticos pelo marido e sua dedicação nacionalista – é um balé em 4 atos, cuja composição começou no fim da década de 1930, sendo revisada em 41 e 42 (e depois revisada de novo em 52 e 57!). A versão original teve libreto escrito pelo crítico teatral Konstantin Derzhavin e a coreografia de Nina Aleksandrovna Anisimova – que era esposa de Derzhavin – estreando em 9 de dezembro de 1942, com o célebre Balé Kirov.
Além da orquestra tradicional, a composição demanda dois oboés, sax alto, três flautas, três clarinetes e dois fagotes, mais celesta e piano. E, além de várias das percussões comuns de orquestra, adiciona o tambor indiano naghara e a percussão dafi do Oriente Médio.
O trecho mais célebre da obra é Sabre Dance (Dança do Sabre), muito famoso, e que todo mundo já ouviu mesmo sem saber o que era. Mas, a faixa Lezghinka é uma das minhas preferidas (link para o trecho no final desta matéria), e espelha perfeitamente a virtuosidade de Tjeknavorian com a National Philharmonic na preparação, regência e leitura dessa obra: Inigualada!
Tem um bocado que já foi falado, ao longo dos anos, sobre o libreto e sobre a relevância e análise da obra. Mas eu sempre achei essas coisas mais importantes para musicologistas e outros pesquisadores acadêmicos – preferindo simplesmente ouvir a música e perceber à que mundos ela me leva.

Para quem é esse disco? Para todos os fãs de música clássica orquestral, especialmente os que não temem ‘ir além’ dos compositores mais escutados. Suspeito que, apesar de não serem usadas em todas as faixas, as percussões aqui serão amplos atrativos para muitos melômanos modernos – assim como são ótimas para usufruir de sistemas de áudio mais dinâmicos.
Prensagens interessantes? As melhores são a britânica, a alemã e – claro! – a japonesa, todas RCA Red Seal, todas de 1977. A prensagem japonesa tem uma capa diferente das edições ocidentais. Não há prensagem atual moderna.
E que abril seja ainda mais cheio de música!