

Christian Pruks
christian@avmag.com.br
Ter Referência de Qualidade Sonora – algo que eu considero fundamental para o hobby da audiofilia – é mais do que os aspectos qualitativos do som musical, como timbre, textura, corpo harmônico, transientes, palco, etc.
É também sobre ‘ouvir certo’ – e isso quer dizer: Equilíbrio Tonal do ‘tipo correto’, com pelos menos uma quantidade de graves, agudos e médios que tenha a ver o melhor possível com a realidade. E ouvir dentro de volumes realistas – de acordo com gravações de música acústica, ou seja, de acordo com a Realidade do acontecimento musical acústico.
Um exemplo? Um violoncelo não se ouve em volumes altos que doem nos ouvidos, e nem suas cordas mais graves fazem a estante de livros da sala vibrar!
Um amigo, migrando do som automotivo, home-theater e outros, para a audiofilia, me disse uma vez que a primeira coisa foi ‘desintoxicar’ a necessidade de graves fortíssimos, exagerados. E eu
sempre achei esse ponto de vista muito interessante, pois eu mesmo não tenho uma memória clara de ter feito isso – pois mesmo sendo filho e neto de audiófilos, eu sempre ouvi minha música mais querida que, durante, muitos anos, foi rock e pop (e por um tempo heavy metal) em sistemas de som da década de 80 com woofer enormes, e tudo muito equalizado.
Mas eu tenho uma vaga lembrança de primeiros contatos com audiofilia moderna, mais de 30 anos atrás, quando começou a proliferação de caixas tipo bookshelf que davam um grave preciso, claro, recortado e incisivo que, mesmo não tendo o peso gigantesco e tamanho providos pelo ‘som popular’, para mim ficou instantaneamente claro que aquilo era superior em qualidade, e batia com aquilo que eu considerava como Referência.
E, vejam bem: não, som de show ao vivo de rock, pop e afins, que for amplificado, com um volume sonoro muito alto, que tiver um sistema de PA (aquelas pilhas de caixas profissionais amplificadas dos lados do palco), não serve como Referência sonora de nada. Talvez só como ponto de referência geográfica, se forem muito grandes.
Repito frequentemente, há anos, que a melhor Referência sonora possível é uma Orquestra Sinfônica, pois cobre a maioria das frequências com seus instrumentos, e é intensamente rica em texturas, timbres, corpo harmônico e transientes – e é o que há de mais correto em matéria de sonoridade, volume e musicalidade. Mas, a maior parte disso você obtém também do som acústico não amplificado de uma longa série de instrumentos e gêneros musicais.
É como ver o pôr do sol, longamente, em vários lugares, em várias épocas do ano, em vários climas e locais – e assim analisar se o pôr do sol, em suas várias características visuais de tonalidades e intensidades de cor e luz, está correto ou não em fotos e filmagens quando reproduzidas em monitores de computador, em TVs e em projetores, mundo afora.
Mas esse é apenas um exemplo, um dos vários aspectos, para que possa-se compreender o que é Referência.
Meu pai costumava dizer, quando eu era jovem, que: “Nada desse rock com meia-dúzia de caras tocando bate o impacto, peso e grandiosidade sonora de uma orquestra sinfônica com 100 músicos tocando ao mesmo tempo”. Ele não usava a gíria “caras”, mas o resto está correto… rs! Acontece que eu já sentava e ouvia junto com ele o repertório sinfônico e orquestral, mesmo antes dos 10 anos de idade. Meu ouvido já estava sendo educado.
Eu perdi a conta de quantas vezes, na minha ‘vida adulta’ (a qual já passa de três décadas e meia), eu fui ver orquestras sinfônicas, conjuntos de câmara, conjuntos de worldmusic, de MPB, de percussão, de Tango Nuevo (iniciado pelo Piazzolla), de jazz e blues – todos ao vivo e acústicos. Cidades grandes facilitam isso – mas mesmo morando no interior, com uma certa dedicação, e paixão, é possível obter-se um bom treinamento (e prazer musical auditivo), com uma frequência razoável, e assim manter os ouvidos regulados.
Aqui eu sempre me lembro de coisas que eu mesmo testemunhei, que me deixam de cabelo em pé, como ouvir dois amigos saíndo no intervalo de uma apresentação de orquestra, e um perguntando para o outro: “E aí, gostou?”, e o outro respondendo “Sim, mas achei o som muito baixo…”
Caramba! A orquestra é uma das manifestações da realidade musical – do mundo real – então não é ela que soa baixo para você! É você que ouve alto demais! rs…
Outra foi, também em um concerto, em um auditório com acústica de nível internacional, onde uma pessoa disse que “falta agudo no som”…
Não, amigo(a), é você que ouve seu sistema de som (ou fones de ouvido) com agudos demais, o que deixou seu ouvido dessensibilizado!
Então, não são só graves e volumes sonoros errados que precisam de ‘desintoxicação’ e educação – agudos exagerados também.
E por que essa ‘intoxicação’ acontece? É só por causa da falta de educação auditiva? Não, pois inclui também equipamentos de som ruins, vícios de regulagem dos mesmos e vícios de audição que vêm de anos. Conheço gente que ouve o volume da TV muito alto até hoje, porque se acostumaram desde jovens, e não por perdas auditivas.
Os ouvidos, os costumes, as capacidades, as percepções, todos precisam ser educados. Não existe essa de achar que, por terem nascido com ouvidos, estão aptos a todas as percepções qualitativas.
A vida é um aprendizado em um monte de sentidos até para nós que já somos cinquentões – então não há motivo para, se você é amante de música e quer equipamentos melhores para usufruir desse prazer, não se educar e, assim, obter uma experiência melhor.
Quaisquer dúvidas e sugestões, entre em contato: