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Christian Pruks
christian@avmag.com.br

Eu sou daqueles profissionais da área de áudio que vê o trabalho mais como uma paixão do que como uma obrigação – como diz-se, em inglês: “a labour of love”.

E uma das maneiras como isso se manifesta é na vontade de ouvir todos – sim, todos! – os equipamentos de som do mundo, todos os amplificadores, caixas, cabos, players, acessórios, tudo! E, no meu caso de dedicação de uma vida ao analógico: todas as cápsulas fonográficas!

E as cápsulas da empresa japonesa Nagaoka sempre me deram muita curiosidade, e boa impressão.

Claro que não vou conseguir ouvir todas as cápsulas do mundo – mas agora posso ir conhecendo a fundo a linha da empresa, que finalmente chegou ao Brasil pela importadora KW Hi-Fi, do Fernando Kawabe.

Eu já tinha me informado sobre a marca, ao longo dos anos, por vários depoimentos sobre suas cápsulas – e por colegas que usaram Nagaokas durante muito tempo. Porém nunca coincidiu de ouvi-las em seus sistemas.

Faz tempo que não testo um produto verdadeiramente ‘de entrada’ – apesar de que, quem me conhece sabe que eu sou à favor de explorar o mercado dos “3b’s”: bom, bonito e barato. Ou, no caso audiófilo, aquilo que vai prover o melhor som pelo suado dinheirinho do audiófilo de menor poder aquisitivo, e até mesmo aqueles fãs de vintage que estão devagarinho descobrindo que pode-se, hoje, ter equipamentos que tocam muito bem sem custar o resgate de um rei – equipamentos que provém excelente qualidade e prazer auditivo.

Um desses é, surpreendentemente, a cápsula mais barata da linha da Nagaoka, a MP-100. Antes de alguém diga que nós sempre falamos que tudo que testamos é bom, ou seja, só ‘falamos bem’, tentem ver pelo ponto de vista de que cada peça por nós testada é fruto de longo estudo e observação do que têm no mercado, e não só de Primeiras Impressões ao ‘pré-avaliar’ algo, mas de meses ouvindo esse algo com centenas de gravações, e de anotações, para se ter certeza da opinião e resultados obtidos.

Nagaoka é uma empresa japonesa fundada em 1940, quando começou trabalhando com materiais de alta precisão para indústrias médicas e científicas, e com relojoaria. Em 1947 começaram a fazer agulhas, de diamante, para a reprodução de discos – o que é sua especialidade até hoje, sendo que diz-se que eles produzem 90% dos diamantes usados em cápsulas fonográficas no mundo, fornecendo para um bocado de empresas.

Na década de 60, com a disseminação do estéreo e da alta-fidelidade, entraram no mercado de áudio, lançando cápsulas e agulhas de toca-discos com tecnologia de ponta, com o diferencial de rigorosa construção das cápsulas, usando materiais de alta qualidade, que eles desenvolvem do zero, e técnicas avançadas de engenharia – e eu apoio essa visão, pois a construção da simples MP-100 é excepcional, e uma observação de seu cantilever e do diamante, espelham o mesmo elogio.

A MP-100 é a cápsula mais simples e mais barata da linha da Nagaoka. E apesar de ter alguns aspectos que lembram as cápsulas Shure antigas (corpo quadrado, encaixe da agulha de reposição, etc), quando você pega na mão, percebe que é tudo extremamente bem feito e bem projetado. O único senão, fisicamente, é a cápsula não ter o corpo com rosca, como acontece com a maioria esmagadora das cápsulas do mercado hoje – você realmente precisa usar parafusos e porcas para montá-la no headshell destacável ou no braço do seu toca-discos. É algo de outro mundo? Não mesmo – até porque várias marcas campeãs de venda até pouco tempo atrás eram do mesmo jeito.

Essa cápsula tem mais dois aspectos dignos de nota – digamos, dois diferenciais: o primeiro é que ela, apesar ser de saída alta e ser 100% compatível com todos prés de phono MM (Moving Magnet), que incluem os receivers e amplificadores vintage e até caixas ativas e caixas Bluetooth de hoje em dia que vêm com entrada Phono, elas não são Moving Magnet, e sim são MI – Moving Iron.

Mas, como é isso? Qual é a diferença para MM?

À grosso modo, as cápsulas Moving Magnet têm um magneto se movendo dentro do campo de um par de bobinas de fio, como um motor elétrico. O sistema topo, bem mais caro, de cápsulas superiores, o Moving Coil, é inversão disso: tem bobinas muito pequenas se movendo dentro do campo de um magneto, sendo um ‘motor invertido’. O sistema Moving Iron já tem tanto o magneto quanto as bobinas fixas dentro da cápsula, mas o movimento é feito por um ‘ferro’, uma peça de metal magnetizado de baixa massa, inserido no campo magnético desse motor.

Muitos fabricantes antigos usavam o sistema MI, e vários hoje ainda usam, como a Grado, Soundsmith e Goldring – e o sistema tem um bocado de fãs mundo afora, por sua musicalidade com bom detalhamento.

Só que, além disso, a Nagaoka ainda usa um ‘ferro’ superior, o Permalloy – material maleável de uma liga de níquel-ferro, que é altamente eficiente dentro de campos magnéticos. E ela chama suas cápsulas, portanto, de MP – Moving Permalloy.

O segundo diferencial, e o mais importante, precisa que o audiófilo fã de toca-discos de vinil vença um preconceito específico aqui no caso da MP-100: sua agulha é Cônica.

Veja: no geral as agulhas Cônicas são as mais simples, as Elípticas um pouco superiores, e as variações altamente complexas de uma elipse, como Fine Line, Micro Ridge, Micro Line e Shibata, as mais superiores que existem. Só que essas agulhas superiores são muito caras de serem produzidas, do diamante ser cortado, daí que vem uma boa parte do alto custo de uma cápsula MC – onde elas geralmente são usadas.

Voltemos para a MP-100 e sua agulha cônica. Apesar de todas as cápsulas mais simples que existem usarem agulhas cônicas, podemos dizer que existem cônicas simples e banais, e também existem cônicas especiais muito bem projetadas e cortadas, e provendo excelente qualidade sonora – como, historicamente, são as algumas cápsulas Denon e muitos dos modelos especiais SPU da Ortofon.

Uma dessas cônicas especiais, com performance superior e surpreendente, é a Nagaoka MP-100. Portanto, o preconceito contra agulha cônica (que aqui é uma bem bolada e bem fina) precisa ser vencido, pois a MP-100 ‘põe no bolso’ a maioria de seus concorrentes na faixa de preço – todos esses com agulha elíptica.

SISTEMA

O sistema usado para os testes inclui os amplificadores Gold Note IS-1000 MkII e Aiyima D03, com cabo de força Transparent

PowerLink MM, ligados com cabos de caixa modelo Trançado da VR Cables em um par de caixas MoFi SourcePoint 8. O pré de phono é um Lehmann Black Cube II, e os toca-discos MoFi StudioDeck e Technics SL-Q303. Tudo com cabos RCA e de força variados.

SETUP

A montagem da MP-100 necessita de paciência e cuidado por usar porcas junto com os parafusos – apesar de que ela permite a retirada da agulha, que é destacável, o que tira o medo de quebrá-la durante o processo de instalação. E, além de tirar a agulha, ela ainda vem com um protetor para a mesma, facilitando por exemplo o armazenamento e transporte do toca-discos.

O resto da conexão foi normal, assim como alinhamento feito com gabaritos de mercado. O acerto do peso fiz com minha balança digital, mantendo o peso máximo sugerido de 2.3g durante todo o processo de amaciamento, que aqui fiz quase até 50 horas por desencargo de consciência (o fabricante recomenda 30 horas). Com esse processo, para os curiosos, saibam que o grave, peso e corpo eventualmente aparecem, assim como extensão nos dois extremos.

No final, o peso ideal de tracionamento, com todas as melhores características, equilíbrio, palco, descongestionamento e transientes, ficou em 2.0g.

A regulagem do pré de phono é elementar: MM com 47kOhms de carga – que é o padrão MM inclusive em prés embutidos que não têm regulagem alguma. Ou seja, a MP-100 é universal.

No anti-skating foi usado o mesmo valor do peso, sempre. E o VTA, com o braço paralelo à superfície do disco.

Elementar e universal.

COMO TOCA

Em uma frase? Som cheio e quente típico das boas MM de entrada, mas com o diferencial de ter um detalhamento maior que elas, e assim trazer maior resolução e articulação, assim como palco melhor e superior recorte nos instrumentos mais graves. E, mesmo assim, não soa nada que se possa chamar de ‘analítica’.

Equilíbrio Tonal – Primeiro é preciso entender aqui que esse detalhamento e articulação da MP-100 não significa brilho nas altas – pelo contrário: seus agudos e arejamento soam muito naturais. E isso é real ‘transparência’, meus amigos. Os graves também descem bem, e ouvindo orquestra, por exemplo, sente-se essa extensão nos ricos harmônicos das cordas, mas sem colorações. E sem dureza, também.

Soundstage – Quando se ouve rock, por exemplo, cada instrumento está bem separado e sua percepção é muito clara, que seria chamada de cirúrgica se não soasse natural – e soa. Fui ouvir um bem gravado LP de música clássica sinfônica em prensagem nacional, e praticamente tomei um susto com a clareza absurda de camadas do palco, com os violinos soando do centro para esquerda, claramente em uma camada à frente dos sopros e madeiras (os quais, aliás, tinham uma percepção de reverberação claramente diferente dos violinos). Também, em matéria de altura de palco e ar, essa cápsula é excelente!

Textura – Intencionalidades me surpreenderam ouvindo rock, onde um teclado passava claramente as diferenças de velocidade e pressão dos dedos do tecladista, fazendo com que cada nota se diferenciasse bastante da outra – algo que, para se perceber nesse disco, é necessário ter uma cápsula de um nível superior. A percepção da qualidade da captação e dos instrumentos usados, também é clara.

Transientes – Ataques e decaimentos irrepreensíveis, para o nível da cápsula, com sensação de ritmo clara, e jamais nenhuma sensação de lerdeza.

Dinâmica – Toda essa definição, articulação e separação de instrumentos resultam em quê? Sim, micro-dinâmica muito clara e fácil de acompanhar. Na macro, não tive problemas nenhuma vez com sensação de endurecimento, nem ouvindo rock.

Corpo Harmônico – O corpo ‘gordinho’ de muitas cápsulas MM está aqui presente na MP-100. Porém, sua percepção é ajudada bastante pelo recorte e articulação, ou seja: fundamentais claras e recortadas, acompanhadas de amplos harmônicos! Prazer de ouvir com boa conexão do ouvinte com o acontecimento musical.

Organicidade – A MP-100 é aquela cápsula onde você fica procurando um botão onde ligar “um nível mais alto de resolução”, de definição, pois ela está já o tempo todo bem perto de te levar para dentro do auditório onde a gravação foi feita – e é aí que eu acho que entram modelos acima, na linha da Nagaoka.

(Deu para perceber que eu virei fã da marca? rs…)

Musicalidade – Quesitos claros, naturais e bem equilibrados: a MP-100 é uma cápsula de excelente musicalidade para seu nível de investimento.

CONCLUSÃO

Essa assinatura sônica da Nagaoka MP-100 NÃO é para os que procuram um som com enorme energia todo frontalizado e grande, com agudos óbvios e abertos.

Ela é, SIM, para aqueles que querem tirar mais de seus toca-discos, ouvindo detalhes e refinamentos que não estão acostumados neles e em seus sistemas, por um investimento condizente.

Para quem é a Nagaoka MP-100, então? Para todo que qualquer toca-discos que permita a troca de cápsula e regulagem mínima da mesma – inclusive e especialmente os vintage e os atuais de linhas de entrada.

Eu diria para vocês que ela é um upgrade essencial nessas condições – vai trazer vida e melhorar o nível de qualidade desses equipamentos – sempre tracionando em 2 gramas.

A Nagaoka me deixou surpreso positivamente – e acho que vocês também vão ficar!


PONTOS POSITIVOS

Detalhamento e articulação acima de suas concorrentes.

PONTOS NEGATIVOS

Ter que usar porcas para prender os parafusos.


ESPECIFICAÇÕES

TipoMoving Permalloy (MI – Moving Iron)
CantileverLiga de alumínio leve
Tipo de agulhaDiamante cônico com raio de 0,0006 polegadas
Peso da cápsula6,5g
Tensão de saída a 1 kHz, 5 cm/s5mV
Resposta de frequência20Hz a 20kHz
Equilíbrio de canais a 1 kHz2dB
Separação de canais a 1 kHz22dB
Impedância recomendada47kΩ
Compliância dinâmica5,5 x 10-6 cm/dina
Compliância estática18 x 10-6 cm/dina
Força de rastreamento1,5 a 2,3g
Período de amaciamento30 horas (mín.)
Agulha de reposiçãoNagaoka JN-P100

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