

Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br
Não precisa ‘bufar’ e pensar: “Lá vem o Andrette de novo com esse discurso”.
Pois o que pretendo com este Opinião é ver a importância das medições pela ótica de um renomado projetista de caixas acústicas, com meio século de excelentes sonofletores desenvolvidos.
Falo de Peter Comeau, atualmente o Diretor de Design Acústico da IAG, e envolvido diretamente nos projetos das marcas Wharfedale, Mission e Quad.
Ele deu uma excelente entrevista recentemente para a publicação StereoNet, em que toca no ponto mais delicado em relação a medições, e lembra que gráfico de resposta de frequência no eixo, que publicações objetivistas utilizam para avaliar alto-falantes, não consegue prever como eles soam.
E acrescentou: “Muitos ficam surpresos quando mostro as medições, essencialmente as mesmas, mas que auditivamente soam diferentes com diferentes crossovers”.
E finaliza afirmando: “As medições são ferramentas muito boas para o projetista diagnosticar problemas durante o desenvolvimento, pois ajudam a identificar as causas. Mas tratar essas medições como um veredicto é um erro”.
Questionado pelo entrevistador, ressaltou: “A limitação fundamental reside no próprio sinal do teste. Pois a maioria das medições padrão de alto falantes utiliza sinais de teste controlados (frequentemente varreduras/chirps logarítmicos senoidais) obtidos com o microfone em um ponto fixo (normalmente a 1m do eixo), o que não reproduz o conteúdo, em constante mudança, da música”.
E finaliza seu raciocínio: “Não é uma boa ferramenta para construção de caixas acústicas para reproduzir música, porque as medições são todas baseadas em tons contínuos, e Música é tudo aquilo que não são tons contínuos”.
Questionado a dar um exemplo concreto do que as medições não detectam tão claramente, ele cita o exemplo da ressonância inaudível de um tweeter que na verdade nosso cérebro detecta.
“Tweeters de domo de metal frequentemente soam metálicos, muitas vezes acima da frequência que o ouvido humano detecta, por exemplo a 26kHz,” mas podemos ver essa ondulação na metade dessa frequência, que é 13kHz, e com isso nosso cérebro detecta essa coloração”.
O que ele está nos lembrando é que uma ressonância ultrassônica pode deixar uma marca ‘audível’ e só será percebido na audição real.
E deu um outro interessante exemplo sobre o ‘degrau defletor’, onde a energia começa a controlar o gabinete e alimentar a sala, à medida que a frequência diminui.
“O ouvido consegue distinguir entre ouvir essa transição do som emitido diretamente em sua direção e o som que se espalha pelo resto da sala, criando um efeito acústico como um novo crossover”.
“Quando os problemas de um alto falante não são óbvios em uma curva de resposta simples, você ainda pode ouvi-los como uma sutil distorção, porque seu cérebro está constantemente corrigindo” – Comeau descreve isso como “o melhor equalizador gráfico do mundo, funcionando constantemente em sua cabeça, corrigindo imperfeições em tempo real”.
E nosso cérebro consegue diferenciar entre uma caixa de som apenas bom, e uma que nos permite relaxar e curtir a música.
Eu ressalto essa questão desde o nosso primeiro Curso de Percepção Auditiva, ministrado em outubro de 1999.
Nosso cérebro, se tiver as referências de instrumentos reais não amplificados, irá sempre interpretar as mais sutis alterações sonoras.
Como os objetivistas viram essas declarações de Comeau?
Defenderam a mensuração como a única maneira de avaliar caixas acústicas e trataram as afirmações de Comeau como ‘marketing’, e não como conhecimento ‘especializado’.
E rebateram as críticas às limitações do tom constante, dizendo que este não é ‘menos complexo’ que reproduzir música!
E a discussão tomou tamanha proporção, que um site de designer de projetos tipo ‘faça você mesmo’ relatou a construção de uma caixa com um pequeno pico na frequência de crossover, que se manifestava fora do eixo – ou seja, as medições não detectaram problema algum. Porém todos concordaram que a caixa soava ruim.
Então o projetista e mediador deste site, ajustou o crossover, manteve a resposta no eixo idêntica e corrigiu o problema fora do eixo. E a caixa soou melhor.
Provando que não era nenhuma argumentação filosófica, e sim relatando uma falha no projeto que afetava a escuta ativa. Enquanto o gráfico de medição ignorou completamente o problema.
Os objetivistas que acompanharam esse ‘dilema’ ainda estão discutindo o que responder.
Os que me leem há muitos anos, sabem que muitas vezes cito uma frase que escutei do meu pai por décadas: “quer saber o nível de conhecimento e aprendizado de um audiófilo? Escute o seu sistema!”
Eu acrescentaria a essa frase, os objetivistas: querem saber na prática se suas crenças são fundamentadas e sólidas?
Peça para, através de suas medições, montarem seu sistema e ouça-os!
E aos objetivistas que se acham capacitados a desenvolverem caixas acústicas apenas baseados em medições, que as façam e as mostrem.
Eu já ouvi algumas nesses 34 anos trabalhando como editor, e te digo que todas que escutei, baseadas apenas em medições, não vingaram!
Em algum momento você, leitor, que está no meio desse tiroteio, chegará à mais simples das conclusões: não importa os meios, o que importa são os fins!
Se um produto que foi baseado em criteriosas medições lhe soa correto, ótimo!
Se um produto que as medições não são as que objetivistas ortodoxos aprovariam, mas lhe encantam, excelente!
Pois, no final, a única coisa que realmente deve prevalecer é o que lhe agrada e lhe atende!
Explicarei e mostrarei como isso funciona, na prática, no nosso Workshop Hi-End Show 2026, no final de abril.
Espero lá todos os interessados em conhecer nossa Metodologia!