

Christian Pruks
christian@avmag.com.br
Em 24 de janeiro de 1975, o pianista americano de jazz Keith Jarrett fez uma apresentação solo, ao vivo, na Oper Haus – um auditório moderno para concertos e óperas com 1300 lugares (todos lotados) – da cidade alemã de Colônia (Köln, em alemão), a quarta maior cidade do país.
O que isso tem de extraordinário? Por incrível que pareça: muita coisa, inclusive o fato do disco de vinil duplo gravado naquela noite ter vendido mais de 4 milhões de cópias – resultando no álbum de jazz mais vendido de todos os tempos, e em ser também o álbum de piano solo mais vendido de todos os tempos não importa o gênero musical, e por isso um dos discos que mais contribuiu para alguma disseminação e popularização do jazz. Sua relevância cultural, histórica e artística, inclusive, o fez ser preservado na Biblioteca do Congresso dos EUA.
Keith Jarrett – The Köln Concert (ECM Records, 1975) fez 50 anos em 2025 – comemorados de duas maneiras: primeiro com o lançamento de um filme, produção alemã, que conta a história do concerto que quase não ocorreu: Köln 75 (dir: Ido Fluk, 2025). E, segundo, pelo lançamento do vinil duplo comemorativo The Köln Concert: 50th Anniversary, com livreto, camiseta (e depois sem camiseta), poster, fotos, remasterização.
A história desse disco é tão interessante, e por vezes até improvável, que mereceu um filme, sim – o qual, aqui nas terras sul-americanas, eu não consegui achar onde assistir. Porém, para sustento de seus mitos e lendas, existem numerosas matérias, vídeos, documentários e até depoimentos do próprio Jarrett sobre os ocorridos.
E são tantos ocorridos, que todo mundo acha um milagre que o show, e a consequente gravação, tenham ocorrido. E os mais religiosos podem até dizer: uma mão divina fez com que acontecesse…
A primeira questão é: vale essa mão divina? Vale todo o auê?
Sim. Jarrett já era um nome considerável, com quase 10 anos de carreira, e discos lançados tanto em pequenos conjuntos de jazz, como solo. E era um artista do já digno de nota selo alemão ECM – conhecido de muitos hoje.
Sim, o disco vale todo o auê. É o meu disco de piano solo preferido, onde a música – (quase) toda improvisada – é bela, especial, e cativante. Alguns críticos atribuem o enorme sucesso do disco à toda a história por trás dele e à curiosidade do público, mas eu gosto desse disco há décadas antes de saber da história, e todos os amigos a quem perguntei disseram o mesmo – e a maioria ou sabia superficialmente ou nem sabia da história. Depoimentos de donos de lojas de discos sempre disseram que era só pôr o disco para tocar que as pessoas na loja se encantavam, e compravam.
Qual é a tão falada história, então?
Em resumo? Uma promotora de shows de Colônia conseguiu aproveitar que Jarrett fazia uma turnê na Europa em janeiro de 1975, e conseguiu agendar essa data de concerto, lotou o auditório, e aí houveram problemas com a viagem, problemas com o piano, com o horário, com a comida, com ‘tudo’ que se pode imaginar… E muitos dos ocorridos são meio mal explicados, com ‘mitos batendo de frente com as lendas’.
Para essa turnê, Jarrett marcou concertos ‘dia sim, dia não’, para que pudesse viajar com certa tranquilidade entre um local de apresentação e outro, por causa do cansaço que é fazer cada show – e isso dentro da Europa é bem factível, dadas as distâncias serem decentemente curtas.
A promotora do concerto, Vera Brandes, era a mais jovem organizadora de concertos de Colônia. Algumas fontes dizem que ela tinha 18 anos, outras que tinha 17, e outras que tinha 19 anos. Claro que isso ajuda na história e na mítica – dá um tempero extra dizer que, não bastava ela ser jovem, tinha que ser menor de idade. Ela, com grande dificuldade, convenceu a Ópera de Köln a receber um concerto de jazz pela primeira vez. Diz-se que Vera Brandes já havia organizado diversos concertos de jazz, e que buscava o melhor e maior local para Jarrett.
O músico vendeu a passagem de avião que a organização lhe deu para vir da Suíça para a Alemanha, e escolheu vir de carro com Manfred Eicher – proprietário da ECM Records e promotor dessa turnê na Europa. Algumas fontes dizem que o carro foi em um Renault 5, um carro pequeno mas decente, e outras dizem que foi um Renault 4, famoso por ser um carro feio e ‘pau para toda obra’, que podia carregar “um fazendeiro, sua esposa, um porco e cinco sacos de milho”, para que o ocorrido pareça ainda mais sofrido. Acontece que há citações (que podem ser falsas, claro) do próprio Eicher dizendo que era um Renault 4.
Agora, porque Jarrett – que dizia estar duas noites sem dormir – pegaria horas de estrada voluntariamente com dor nas costas?
Na época, a Columbia Records não renovou o contrato de Jarrett, que já tocava em trio com Jack DeJohnette e Gary Peacock, mas queria tocar solo – e é aí que entra a então iniciante ECM Records do alemão Manfred Eicher, com quem Jarrett acabou assinando contrato, e percorrendo a Europa em janeiro de 1975.
O concerto em Colônia estava marcado para às 23:30, porque uma ópera tinha sido apresentada antes. Jarrett chegou cansado de horas de estrada, mal dormido, com fome, ‘frieira e caspa’ (para ‘embonitar’ a história ainda mais…rs!), e viu e testou o piano que veio errado, e que ainda estava em mal estado.
Enquanto Vera Brandes corria para resolver o problema, Jarrett e Eicher foram jantar em um restaurante italiano onde foram mal atendidos, mal servidos, comida ruim (uns dizem que demorou demais, que nem comeram, e outros dizem que comeram e fez mal).
O combinado com Brandes era que o piano que ele teria para se apresentar seria um Bösendorfer 290 Imperial, um grand piano de muito respeito – e Jarrett sempre requisitou, para todas suas apresentações, um piano de altíssimo nível.
No entanto, houve uma confusão por parte da equipe da Ópera e, em vez disso, eles pegaram outro Bösendorfer nos bastidores, um ‘baby grand’ muito menor, e colocaram-no no palco. E era tarde demais para que o Bösendorfer correto fosse disponibilizado para o concerto da noite.
O baby grand era, além de pequeno demais para o tamanho do auditório, um piano com corpo harmônico menor e sem o mesmo nível de sonoridade geral – e esse específico espécime era batido no dia a dia como acompanhante de ensaios e audições de cantores para as óperas. Um piano em mal estado que, segundo a lenda, estava ruim nos agudos, tinha poucos graves, e ainda os pedais estava com problema e fazendo barulho. Várias pessoas já falaram que foi sacanagem do pessoal da técnica e infraestrutura da Ópera de Köln – o que não é impossível.
Brandes não conseguiu nessas últimas horas antes do concerto, um piano bom para substituir, mas conseguiu um bom técnico afinador que foi lá e fez seus milagres com o pouco tempo que tinha.
Jarrett é conhecido por ser exigente para seus concertos, sobre as condições em que tocaria e quanto à qualidade do piano. Há uma série de lendas no meio musical, que dizem que Jarrett em outras ocasiões exigiu 3 grand pianos disponíveis na hora dos concertos, para escolher entre um deles no último minuto. Assim como dizem que parou um concerto no meio porque alguém estava tossindo – e chegou a proibir que qualquer pessoa tirasse fotos durante apresentações.
O que Vera Brandes disse a ele que o convenceu a se apresentar naquele 24 de janeiro de 1975, é motivo de curiosidade eterna. E o que Manfred Eicher também pode ter dito para convencê-lo?
Eu tenho a teoria que Jarrett estava em início de carreira, e vender a passagem para ir de carro, e aceitar apresentar-se, podem ser fatores que envolvem dinheiro: a necessidade de ganhá-lo.
“Ele simplesmente teve vontade” – disse um articulista, escrevendo sobre o concerto e o disco.
Jarrett, em uma entrevista, disse: “Estava tudo errado. Era o piano errado, a comida do jantar estava ruim em um restaurante quente, eu não tinha dormido nos últimos dois dias, e quase mandamos a equipe de gravação embora”.
Ele continua: “E foi isso. Meu pensamento era: eu tenho que fazer isso. Vou fazer. Não me importo com o som do piano. Vou fazer. E fiz.”
“Algo interessante aconteceu. Parecia que todos na plateia estavam ali para uma experiência extraordinária, e isso facilitou meu trabalho. O que aconteceu com aquele piano foi que fui forçado a tocar de uma maneira que era, na época, nova. De alguma forma, senti que precisava explorar todas as qualidades que aquele instrumento tinha” – disse o músico, em outra entrevista.
Jarrett depois se referiu ao Köln Concert como: “uma experiência existencial”. E ele se levantava, sentava, cantarolava junto (algo que sempre fez), tocava com força aquele pequeno piano para encher o grande auditório de som.
Tem até uma história com as quatro primeiras notas que ele toca, assim que abre o concerto, que seria uma imitação do sino de chamada da Ópera de Köln para a abertura das cortinas. Mas isso foi desmentido por um jornalista alemão, que disse que a Ópera de Köln não usava aquele padrão de chamada – e o próprio Jarrett disse que não se lembra de onde tirou aquela frase musical.
O bis do concerto, o último dos quatro lados do disco, é um tema que Jarrett já havia tocado anos antes (com variações, claro) – o que levou críticos a dizerem que nada do programa daquela noite teria sido improviso. Mas nenhum deles jamais demonstrou que as outras três partes não tenham sido improvisos.
O disco foi gravado pelo engenheiro da ECM Records Martin Wieland, com apenas um par de microfones condensadores valvulados Neumann U67, ligados a um gravador de rolo Telefunken M5. E depois, o próprio Eicher supervisionou a masterização da gravação, para poder tirar o melhor que ela pudesse soar.
E, aí, o resto é pura história do jazz e da indústria fonográfica! Com um pouco de mítica e marketing, é claro – e eu acho que isso não diminui em nada a música maravilhosa que alí foi criada, e ainda acho que a maior parte do sucesso foi pelo que ela encantou as pessoas, mesmo. “Nós sentimos que algo especial estava acontecendo,” disse Manfred Eicher.
Alguns críticos (sempre eles!), disseram que o concerto não tinha nada de memorável, e que foi um dos primeiros exemplos de marketing viral, daí as enormes vendas.
Seria inveja? Ou desconhecimento de causa?
Será que ouviram o disco? Porque eu mesmo, e muita gente que eu conheço, saíram da experiência musicalmente encantados – com ou sem marketing.