

Christian Pruks
christian@avmag.com.br
Antes de tudo, preciso deixar claro uma coisa: avaliar qualquer tipo de equipamento, em qualquer lugar que seja, rapidamente ou à médio e longo prazos, ter ‘primeiras impressões’, etc, é algo complicado e difícil, que precisa de dedicação (do avaliador e do demonstrador).
E sempre será assim, a não ser que inventem um aplicativo que ‘ouça’ por você e diga se o equipamento é bom – e, ainda assim, passaremos décadas discutindo quais os critérios de decisão e julgamento do tal aplicativo…rs! Porque, se esses critérios forem “cada um ouve de um jeito” (que não se aplica à audição crítica, tanto de amadores quanto de profissionais) e “tem que ser com a música que me agrada” (mesmo que seja muito mal gravada), então podem ter certeza de que esse aplicativo estará “mais perdido que cego em apresentação de mímica”.
Enfim, a substituição do homem – no nível intelectual – por máquinas e Inteligência Artificial, está ficando, claramente, cada vez menos provável…
Agora, tirando da primeira gaveta o surrado manual de “Como Importunar Nosso Leitor ao Bater na Mesma Tecla de Novo”, é sempre bom lembrar de alguns critérios e ações necessários para se avaliar um equipamento, seja na sua casa, seja em showrooms, seja em feiras.

São eles: setup, posicionamento e acústica (mínima que seja) corretamente feitos, equipamentos usados com mínima sinergia, música com alta qualidade de gravação, e usar de um pouco de espírito crítico, de critério e de um mínimo de algum tipo de Metodologia – para não dizer que o saxofone está ‘lúcido’ e a bateria está ‘soando como uma princesa’, porque ninguém faz ideia do que essas coisas querem dizer, nem quem proferiu essas baboseiras.
Mas, será que essas condições existem em showrooms e salas em feiras de áudio? Ou segue-se o tabu ainda ‘vigente’ de que “Não se pode avaliar equipamentos em feiras!”?
A resposta é sempre complicada – mas não é impossível e, muito menos, definitiva e abrangente.
E, como sempre acontece com a Audiofilia de qualidade, explorada de forma avançada: dá trabalho!
Assim como os equipamentos de áudio melhoraram exponencialmente nos últimos 10 a 15 anos, o nível de ajuste da acústica e setup das salas de demonstração – tanto em showrooms quanto em feiras de áudio – subiu muito. Mas muito mesmo. Um espelho de profissionais mais experientes e com melhores ouvidos, por parte de importadores e fabricantes – ou mesmo que tenham contratado especialistas para prestar o serviço.
As ideias básicas de acústica estão, hoje, bem mais disseminadas, assim como a disponibilidade de dispositivos acústicos básicos, prontos, é imensamente maior que dez anos atrás – e mais baratos, mesmo no Brasil.

O setup, o posicionamento correto da caixas acústicas, que é tão minimamente necessário para qualidade sonora quanto rodas são necessárias para um carro poder andar (e ainda assim a maioria dos audiófilos insistem em ignorar esse ‘detalhe’) hoje já é padrão mínimo para muitas empresas que querem alcançar um público especial com seus sistemas – os quais quase sempre envolvem sérios investimentos de dinheiro, em vários níveis de poder aquisitivo.
Eu diria que a metade ou mais das salas de demonstração em uma feira, hoje já estão provendo uma apresentação decente o suficiente para se perceber o nível geral de qualidade do que está sendo demonstrado, assim como showrooms em revendas. E, também, perceber se o tipo de sonoridade, de assinatura sônica, é o que serve às suas necessidades.
E o que é esse “nível geral”?
Equilíbrio Tonal, e Timbre. E essa percepção vem de uma mistura de se ter Referência e Experiência.
Quanto existe Equilíbrio Tonal, à sua frente abre-se um leque sonoro (ou não) de qualidades, detalhes, texturas, transientes, micro-dinâmica, etc.
Para ir além disso, é necessário ouvir longamente e ter alguma intimidade com a sonoridade de pelo menos parte do sistema que está sendo demonstrado. Por exemplo, se as caixas você conhece bem, e são geralmente com bom equilíbrio apesar de tenderem um pouco ao analítico, e estiverem tocando de maneira irritante, já percebe-se que a eletrônica está inadequada ou pode até, simplesmente, não ser muito boa.
Já ouvi, mais de uma vez, em feiras, uma situação dessas, onde a caixa (que eu conheço) é extremamente detalhada porém limpa e equilibrada, tocando mal, com som sujo, estragando timbres e o acontecimento musical como um todo. Nesse caso, a amplificação pode ser simplesmente considerada ruim (e era).

Mas as pessoas ficariam impressionadas com a quantidade de equipamentos e caixas que não conseguiriam passar de uma primeira audição (mesmo em condições controladas e de Referência), simplesmente pelo mau Equilíbrio Tonal e Timbre. Alguns desses produtos, em reavaliação em condições melhores, podem se redimir, mas isso acontece bem menos vezes do que as pessoas pensam. E, quando se ouve um par de caixas tocando mal em várias salas e com várias amplificações diferentes, sabe-se que aquele produto não ‘chegou lá’, para ser bonzinho.
Se uma demonstração falhar no posicionamento, desequilibra o sistema e compromete inteligibilidade – entre outras coisas. Se a sala for viva demais naturalmente (estruturalmente), e não houver nenhum tratamento acústico que seja, sabe-se que o resultado sonoro final não poderá ser levado em conta para uma avaliação se o som estiver tendendo à extremos (como apagado, ou gritalhão).
E, por fim, a música que é tocada é extremamente importante em uma demonstração. Porque não existe essa do sistema sempre tocar bem qualquer música que você ponha dele – e música mal gravada não vai mostrar o nível de qualidade sonora do mesmo.
E, quando eu entro em uma sala de demonstração em um evento de áudio, e está tocando música ruim mal gravada, eu saio imediatamente – pois aquela situação não tem nada a adicionar para mim.
E aí, meu amigo, é que consideramos uma tremenda de uma besteira um fabricante ou importador demonstrar mal aquilo que vende. O tiro é no próprio pé.
Boas festas de fim de ano, que vocês tenham boa companhia e momentos felizes.
Nos encontramos em 2026!
