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Fernando Andrette
fernando@avmag.com.br

Ninguém deseja fazer uma homenagem póstuma a um grande amigo.

Essa é uma daquelas missões que, ao vir à mente, você pede ao universo que não se cumpra.

André Geraissati (1951 – 2025) era apenas sete anos mais velho que eu, e ainda assim quando me sentava para ouvir suas incríveis histórias sobre sua infância, adolescência e o início de sua carreira musical no final dos anos 60, ele as descrevia com tantos detalhes que era impossível não se deleitar como suas lembranças eram carregadas de humor e alegria.

Não havia em suas descrições saudosismos ou lamentações por não ter feito algo diferente, apenas a visão de um observador atento e que havia estado ali de corpo e alma.

Essa era sua principal virtude humana, uma enorme generosidade e uma capacidade de traduzir tudo com leveza e intensidade.

E isso também se refletiu em toda sua obra musical que, com suas afinações complexas e únicas, era executada de maneira a parecer simples e harmoniosa.

Fato que só fui entender em profundidade quando produzi o seu disco Canto das Águas (Cavi Records) que lançamos em Super Audio CD, em 2002.

Mas, muito antes de conhecê-lo no final de 1998, eu já era fã de seus trabalhos tanto com o Grupo D’alma, quanto seus trabalhos solo. E tendo todos seus LPs, que escuto frequentemente.

Para mim, seu primeiro disco solo: Entre Duas Palavras (Selo Carmo, 1982) é um dos meus discos ‘de cabeceira’.

E o segundo que mais aprecio é o Brazilian Images (Black Sun, 1991), em parceria com o flautista Paul Horn, que foi indicado ao Grammy daquele ano.

OUÇA BRAZILIAN IMAGES – PAUL HORN, NO TIDAL.

Fui a inúmeros shows produzidos por ele no Projeto Brasil Musical, em noites memoráveis com o Grupo Pau Brasil, Egberto Gismonti Solo, e o grupo do Hermeto Paschoal.

Então foi uma grande surpresa quando o amigo e produtor Eduardo Queiróz, quando produzimos os dois discos Genuinamente Brasileiro vol. 1 e 2 para a gravadora Movieplay, me apresentou ao André em 1998.

Estávamos na pré-produção do primeiro Genuinamente Brasileiro e com dificuldades para alugarmos um pré de microfone da Studer para as gravações em tempo real no Teatro Alfa. E o Eduardo lembrou que o André tinha um em seu estúdio. Fomos até ele, explicar o projeto e ver se ele podia alugar o pré de nível hi-end.

Ele me ouviu com certo interesse na descrição de uma gravação audiófila, e os cuidados com a escolha de todos os equipamentos de gravação, e topou o empréstimo com uma condição: que fossemos mixar em sua sala para ele poder acompanhar.

Meio sem graça, tive que pedir para usar nossos monitores Dynaudio e nossos cabos, pois a mixagem era uma parte fundamental para os nossos objetivos hi-end.

Ele não se opôs.

Gravamos no Teatro Alfa e fomos mixar em sua sala. Ele discretamente entrava às vezes na sala, sentava-se em seu sofá e ficava silenciosamente vendo-nos mixar.

Um dia, depois de uma exausta manhã mixando a faixa com o quarteto de cordas, saímos eu e o Eduardo para almoçar e, como ainda não estava satisfeito com o resultado, pedi para repassar a última mixagem.

E achei algo estranho, o quarteto de cordas estava dentro das caixas. E não era assim que deveria soar, pois o posicionamento que fiz na gravação o primeiro violino soava dentro do canal esquerdo, o segundo violino fora da caixa bem atrás do primeiro violino, a viola na mesma linha do segundo violino fora da caixa direita, e o cello na caixa direita.

Olhei para o Eduardo, questionando se ele havia mexido sem querer no Panpot na mesa?

Ele reviu cuidadosamente todo o processo, e constatou que tudo estava como havíamos deixado. Depois de mais de meia hora naquele impasse, entra o André Geraissati na sala rindo soltando um palavrão, e o Eduardo também começou a rir.

O André, quando saímos, quis constatar se eu realmente tinha uma audição apurada e trocou um dos cabos que estávamos usando por um do seu estúdio.

Só isso!

Ficou impressionado com a minha percepção auditiva, e nos tornamos grandes amigos.

André Geraissat – Sesc Belenzinho (2017) – Foto: Marcelo Davera

Seu interesse por novas tecnologias era autêntico, pois ele sabia que uma captação de alto nível era fundamental para a expressão e o entendimento de seu trabalho artístico, algo que ele sempre exigiu em todos os seus discos.

Então, quando criamos nosso próprio selo hi-end, a Cavi Records, na minha mente ficou claro que no primeiro SACD gravado na América Latina, só poderia ser ele o artista.

Já disse inúmeras vezes, que nas minhas gravações eu nunca fico na técnica, preferindo sempre estar na sala com os músicos, para poder gravar no meu hipocampo tudo que minha audição conseguir captar, em termos de timbres, intensidades dinâmicas, complexidade na execução e principalmente intencionalidades.

Depois passo minhas observações para o papel, buscando pormenorizar tudo de mais essencial, para no processo de mixagem manter o mais fidedigno possível ao que ocorreu na gravação (até mesmo a posição dos músicos na sala, para a composição do palco sonoro).

Sentar-se no chão a 3 metros de distância do André, e ver as intrincadas afinações e troca de instrumentos e encordoamentos para cada faixa do Canto Das Águas, foi uma das experiências mais emocionantes que tive o privilégio de participar.

Das quatro faixas do disco que estamos disponibilizando nesta homenagem, a que mais me impressionou foi a faixa Benguela, pois, é de um virtuosismo na execução impressionante e que, pela sua riqueza harmônica, de transientes e de variação dinâmica, se transforma em um grande obstáculo para qualquer sistema de áudio.

Tanto que a uso até hoje para fechar a nota de Transientes dos testes para a revista.

Quando reproduzida em um sistema em que este quesito da nossa Metodologia não está correto, ocorre um fenômeno auditivo muito contundente: ela soa letárgica, sem pulso, chegando a incomodar o ouvinte.

Cansei de mostrar em nossos de Cursos de Percepção Auditiva, em CD-Players e DACs deficientes, como fica inaudível. E como nosso cérebro se fixa, quando reproduzida corretamente.

Mas a homenagem não poderia ser completa se não escolhesse faixas que mostrassem as várias facetas dele como compositor.

E uma frase dele me marcou profundamente, quando estávamos discutindo o repertório do disco, e ele colocou Entre Duas Palavras com o seguinte argumento: “quem nunca ouviu Roberto Carlos não entenderá essa composição”.
E eu que conhecia detalhadamente essa sua música, jamais poderia imaginar que Roberto Carlos pudesse ter sido elemento inspirador para essa obra.

E aí você escuta Fazenda, e percebe que talvez não tenha como fonte inspiradora imagens bucólicas de uma manhã ensolarada apreciando animais soltos no campo. E sim um sentimento pessoal em uma paisagem apenas na mente do criador.

O mais admirável do André, era sua objetividade e como ele conseguia fazer tudo parecer mais leve e singelo.

Não lembro dele irritado, muito menos mal-humorado, nunca. E suas ligações eram frequentemente para compartilhar ideias, projetos ou planos que deveriam ser colocados em andamento.

Aí sua clareza de raciocínio predominava, e ele ia longe em descrever em detalhes o que poderia ser feito para viabilizar aquele projeto.

Eu o defini, depois de alguns anos de convívio, como um “poço de criatividade permanente”, de onde, de tempos em tempos, emergia um novo projeto e ele o colocava em prática, tudo no seu ritmo, sem sobressaltos.

E acredito que a música Paz, com que fecho essa homenagem, traduz esse seu lado intenso na superfície e calmo nas profundezas!

Espero que seu legado musical não seja esquecido pelas futuras gerações, e sirva de inspiração para muitos.

E que seus amigos façam jus à sua obra musical, divulgando-a e mantendo-a presente!

OUÇA OU FAÇA O DOWNLOAD

http://www.avmag.com.br/ed324_andregeraissati/02_Fazenda.flac

http://www.avmag.com.br/ed324_andregeraissati/05_Benguela.flac

http://www.avmag.com.br/ed324_andregeraissati/06_Entre_Duas_Palavras.flac

http://www.avmag.com.br/ed324_andregeraissati/07_Paz.flac

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